Netanyahu denuncia "mentira descarada" da ONU sobre fome em Gaza

Perry Mason (1957-1966) – Ray Collins, H.M. Wynant

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, descreveu hoje o relatório da ONU que declara a fome em Gaza como uma "mentira descarada" e atribuiu a responsabilidade pela escassez ao Hamas.

"Israel não tem uma política de fome. Israel tem uma política de prevenção da fome", afirmou Netanyahu, num comunicado citado pela agência de notícias France-Presse (AFP).

A ONU declarou hoje a fome em parte da Faixa de Gaza, o que acontece pela primeira vez no Médio Oriente, e disse que a situação podia ter sido evitada se não fosse "a obstrução sistemática de Israel".

No comunicado, Netanyahu disse que "os únicos que estão deliberadamente a passar fome em Gaza são os reféns israelitas" do Hamas, raptados durante o ataque de 7 de dezembro de 2023, no sul de Israel.

O ataque desencadeou a ofensiva militar de Israel em curso na Faixa de Gaza para destruir o Hamas, que as autoridades israelitas consideram um grupo terrorista.

Netanyahu disse também que o relatório da ONU "ignora os esforços humanitários de Israel e os roubos sistemáticos de ajuda" pelo Hamas.

"O Hamas rouba ajuda humanitária para financiar a sua máquina de guerra. Estas foram as causas da escassez temporária, que Israel superou", afirmou, também citado pela agência de notícias espanhola EFE.

A declaração de fome na província de Gaza foi emitida pelo do Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), organismo da ONU com sede em Roma.

O IPC avisou que a situação deverá estender-se às províncias de Deir el-Balah (centro) e Khan Younis (sul) até ao final de setembro.

A declaração foi feita depois de especialistas terem alertado que 500 000 pessoas se encontravam numa situação catastrófica no território devastado pela ofensiva militar israelita.

Na sequência da declaração, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reafirmou apelos para um cessar-fogo imediato, mas também para a libertação imediata dos reféns e o acesso humanitário sem restrições.

"Não podemos permitir que esta situação continue impunemente", afirmou Guterres.

O chefe da agência de direitos humanos da ONU, Volker Turk, lembrou que "matar pessoas à fome para fins militares é um crime de guerra".

Israel tem em curso uma ofensiva militar na Faixa de Gaza desde que sofreu um ataque do Hamas, que causou cerca de 1200 mortos e o rapto de 250 pessoas, feitas reféns.

[Sabem os cultos que nesta vida são necessários dois para dançar o tango. Não é claro se estes acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se se tratou apenas do aproveitamento de uma oportunidade de ouro para consolidar território e reforçar a sua supremacia regional — especialmente em relação ao Irão, o seu inimigo simbólico.

A data do ataque não poderia ter sido mais oportuna: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis, descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e durante visitas oficiais — com Netanyahu a exibir, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns; a operação dos pagers explosivos para o Hezbollah estava em andamento; a seleção de alvos para destruição estava definida, como aconteceu com a explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo; a recolha de inteligência sobre os inimigos da região estava bastante avançada; a certeza, pelo investimento feito, da reeleição de Trump e derrota de Kamala Harris; os sistemas de defesa israelita na fronteira de Gaza estavam todos de férias ou avariados, nada funcionou, e os palestinianos entraram em Israel de forma impressionantemente fácil.

Dificilmente, poderia ter sido escolhido um momento mais favorável para tal operação, mediatizada para o mundo livre como o horror dos 40 Bebés Decapitados – imagem-selo de barbárie inquestionável praticada por monstros.

Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, pelo lado absurdo, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.

A justificação do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro”].

A ofensiva israelita provocou mais de 62 190 mortes em Gaza, a maioria civis, de acordo com dados do ministério da Saúde de Gaza, considerados fiáveis pela ONU.

Fonte: Diário de Notícias da Madeira, 22 de agosto de 2025

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