Os cães estão "a comer os cadáveres" e "há dois dias despedaçaram um gato vivo"
Perry Mason (1957-1966)
A maior
cidade de Gaza está em caos enquanto se prepara para um ataque israelita
iminente
A maior cidade de Gaza fervilhava de vida há dois anos. As
salas de aula enchiam-se de crianças, os mercados estavam repletos de
compradores e os cafés à beira-mar ofereciam descanso a quem procurava escapar
ao stress de um enclave sitiado.
A Cidade de Gaza ostenta uma história rica, habitada há
milhares de anos e moldada por sucessivas ocupações de civilizações antigas.
Serviu como ponto de chegada fundamental para os palestinianos deslocados
durante a fundação de Israel em 1948 e conta com centenas de sítios milenares
que documentam o seu passado.
Não surpreendeu, portanto, que o grupo militante islâmico
Hamas tenha escolhido a Cidade de Gaza como a sua capital de facto quando tomou
o controlo da faixa em 2007.
Anos de conflito, um bloqueio asfixiante e o governo
autocrático do Hamas tornaram a vida dos palestinianos difícil. Mas as
instituições criadas pelos militantes, com ajuda de governos regionais como o
Qatar e um sistema robusto de assistência das Nações Unidas, ofereceram alguma
estrutura à população exausta da Faixa.
Um consolidado sistema de contrabando subterrâneo deu à
Cidade de Gaza um vislumbre do mundo exterior sob o cerco terrestre, aéreo e
marítimo imposto pelos vizinhos Israel e Egito – que ambos classificam o Hamas
como organização terrorista. Embora a vida estivesse longe de ser fácil na
Cidade de Gaza, com metade da população desempregada e a polícia do Hamas a
patrulhar rigorosamente as ruas, ainda era possível comprar um matcha latte a
caminho de um estúdio de ioga ou relaxar num parque.
Hoje, o que outrora foi o centro cultural e financeiro do
enclave jaz em ruínas sem lei, devastado por meses de uma brutal ofensiva
israelita desencadeada pelo ataque mortal do Hamas contra Israel, há quase dois
anos. E, à medida que Israel prepara uma nova ofensiva na área densamente
povoada para eliminar militantes do Hamas escondidos no subsolo, os
palestinianos da histórica Cidade de Gaza confrontam-se, mais uma vez, com
crescentes receios de sobrevivência.
Vida na Cidade de Gaza
A vida normal no enclave costeiro colapsou após a brutal
retaliação de Israel ao ataque do Hamas.
Centenas de milhares de pessoas abrigadas em edifícios
destruídos da cidade foram deixadas à sua sorte após a queda do aparelho
policial do Hamas. Sem clareza quanto ao futuro, os residentes da Cidade de
Gaza aguardam notícias sobre o próximo carregamento de alimentos, ou pelo som
súbito de um fio de água salgada a correr pelos canos das casas de banho – que
lhes daria uma rara oportunidade de tomar banho.
Israel não permite a entrada de jornalistas em Gaza. A CNN
falou com vários residentes da Cidade de Gaza para traçar um retrato de como a
cidade se encontra em plena guerra.
Dezenas de milhares de ataques israelitas deixaram as muitas
torres da cidade reduzidas a escombros, enquanto lixo e águas residuais inundam
as ruas. O fumo negro do plástico e da madeira queimados, usados pelos
residentes como combustível, enche os céus e o zumbido constante dos drones
israelitas sobrevoa o espaço aéreo, intercalado por explosões esporádicas de
bombardeamentos próximos.
Uma teia caótica de fios provenientes de geradores de rua
fornece eletricidade a quem pode pagar. Os mercados exibem uma mistura
aleatória de alimentos a preços exorbitantes, possivelmente saqueados por
gangues criminosos dos poucos camiões de ajuda que Israel permite entrar na
Faixa.
Hospitais e farmácias já não funcionam, e os produtos de
higiene continuam a ser uma raridade para os palestinianos, que dizem estar
enfraquecidos devido a infestações de piolhos, carência de vitaminas e falta de
alimentos.
Ao cair da noite, gangues armados percorrem as ruas e
famílias pegam em armas para se proteger. O dinheiro pode ser transferido para
Gaza através de um sistema bancário informal – mas quem procura levantá-lo é
obrigado a pagar até 50% de comissão a indivíduos e grupos que controlam o
fornecimento de numerário.
Cães estão "a comer tantos cadáveres"
Majdi Abu Hamdi, 40 anos, pai de quatro filhos, diz que o pó
das explosões sufoca as ruas e infiltra-se nas casas ainda de pé, onde as
janelas partidas tornam difícil respirar.
Até os cães vadios mudaram de comportamento, conta à CNN. “À
noite, ouvimos os cães a uivar. Tornaram-se selvagens de tanto comerem
cadáveres. O seu ladrar mudou, tornando-se feroz.”
“São até perigosos para as pessoas, atacam os moradores de
forma selvagem. Há dois dias, por engano, um gato passou perto deles. Mais de
vinte cães atacaram-no e despedaçaram-no.”
Continua: “As pessoas podem ter 30 anos, mas o cansaço da
guerra faz com que pareçam ter 70. A fome e a má alimentação desgastam-nos. Só
usamos a casa de banho de três em três dias por falta de comida e pelos preços
elevados.”
O Hamas, outrora tão visível nas ruas da Cidade de Gaza,
está agora ausente. Os seus escritórios políticos, câmaras municipais e
esquadras de polícia estão destruídos e os seus militantes permanecem
escondidos.
“Os filhos da mãe não têm controlo, não é como antigamente…
mas por vezes aparecem de repente, não se sabe de onde”, diz Abu Mohamed, um
residente da Cidade de Gaza opositor do Hamas.
O residente, que não forneceu o nome completo por receio de
represálias do Hamas, afirma que o grupo não tem forças visíveis presentes e
que os civis não sabem como a organização funciona atualmente.
“Eles não têm locais específicos onde se reúnem. Têm as suas
próprias formas de comunicar ou de se organizarem… não sabemos como o fazem”,
conta Abu Mohamed sobre o Hamas.
Bashar Taleb, um jornalista da Cidade de Gaza, questiona a
utilidade das armas do Hamas se não protegem os palestinianos.
“De que servem as armas se não protegeram um único civil e
não evitaram a fome e a morte contínua que dura há quase 700 dias entre civis
inocentes que não têm poder nesta guerra?”, escreveu Taleb no Facebook.
“Quero que uma pessoa razoável me responda ou que me dê
apenas uma vantagem, uma única vantagem, das armas do Hamas.”
O Hamas não é uma instituição estática
Quando foi alcançado um acordo com Israel para um
cessar-fogo e a libertação de alguns reféns em janeiro, membros armados do
Hamas reapareceram em massa, envergando uniforme completo numa praça pública da
Cidade de Gaza. Foi o lembrete do Hamas de que o grupo ainda estava vivo meses
depois de Israel se ter proposto a destruí-lo.
Nas semanas seguintes, o Hamas encenou cerimónias para
exibir força durante as libertações programadas de reféns israelitas capturados
a 7 de outubro. As cerimónias enfureceram de tal forma Israel que este ameaçou
abandonar o acordo.
Num dos vídeos mais recentes a circular nas redes sociais e
geolocalizado pela CNN, um grupo armado de homens mascarados entoava cânticos
em apoio à ala militar do Hamas – as Brigadas Al Qassam – empunhando armas
automáticas. O vídeo, divulgado em agosto, mostrava militantes mascarados a
incendiar um veículo e a ameaçar “ladrões e comerciantes” que roubam ajuda
humanitária.
Autodenominados “Al Rade’a”, ou “Os Dissuasores”, o subgrupo
afirmou, no seu primeiro comunicado, que foi formado pelo aparelho de segurança
do Hamas para “dissuadir empresários monopolistas” e gangues que colaboram com
Israel em Gaza.
O Al Rade’a afirmou ter executado pessoas pertencentes a
gangues colaboradoras de Israel, incluindo seis indivíduos no mês passado, na
cidade de Khan Younis, no sul.
“Não nos podemos esquecer de que o Hamas não é uma
instituição ou figura estática. Começaram com um certo número de combatentes a
7 de outubro e depois, dada a destruição e as mortes dentro de Gaza, também
embarcaram numa campanha de recrutamento e substituíram os que estavam lá”,
afirma Alex Plitsas, perito militar e investigador sénior não residente do Atlantic Council, à CNN.
É praticamente impossível estabelecer um retrato preciso do
número de militantes do Hamas que permanecem na Cidade de Gaza.
“O Hamas não é uma força uniforme; embora o seu governo
tenha sido eleito em Gaza e tenham instituições pelas quais são responsáveis, a
sua ala militar não funciona como um exército regular… atuam, na prática, como
uma força insurgente de um governo eleito que está em plena guerra e não jogam
pelas regras”, diz Plitsas.
"Eles sabem que estamos a chegar"
A tomada e ocupação da maior cidade do norte de Gaza, que
Netanyahu disse ser um dos últimos bastiões do Hamas, exigirá que o exército
israelita mobilize mais 60 mil reservistas e prolongue o serviço de outros 20
mil, além dos que já foram convocados.
Uma fonte israelita disse esta semana que o exército dará
aos palestinianos aproximadamente dois meses para evacuarem a área densamente
povoada antes do início da ofensiva, fixando como prazo simbólico o dia 7 de
outubro, o segundo aniversário da guerra.
Outro responsável militar israelita não conseguiu indicar
quantas forças do Hamas permanecem na Cidade de Gaza, mas afirmou que as Forças
de Defesa de Israel (IDF) não se aventuraram profundamente na área em quase
dois anos de guerra.
A expectativa é de que as tropas enfrentem um inimigo que
teve tempo para se entrincheirar, utilizando a extensa rede de túneis sob a
Cidade de Gaza.
“Eles sabem que estamos a chegar”, disse o responsável, “por
isso preparam-se para isso.”
O “metro” do Hamas, como Israel o apelida, é mais do que um
sistema uniforme de túneis, explicou o responsável. É
muito mais complexo do que as IDF antecipavam, com centros estratégicos maiores
e ramificações, bem como pequenos túneis táticos para movimentos rápidos e
ataques surpresa.
Uma vez evacuada a Cidade de Gaza, as IDF provavelmente
atacarão um conjunto alargado de alvos na densa área urbana, acrescentou o
responsável, incluindo locais que anteriormente não foram atingidos devido à
densidade da população civil.
Mas a nova operação israelita está a suscitar alertas de
governos e organizações humanitárias, que continuam preocupados com a conduta
do exército israelita nos últimos dois anos, perante a elevada taxa de vítimas
civis, relatos de crimes de guerra, abusos de direitos humanos e bloqueios de
ajuda.
“O exército israelita provavelmente demoraria alguns meses a
entrar em cada edifício, limpá-lo e atingir todos os túneis. É possível? Sim”,
disse Plitsas. “É extremamente difícil e exigirá muitos soldados para limpar e
conquistar todo o território? Também sim.”
Fonte: CNN Portugal, 25 de agosto de 2025

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