A rede de amigos, parceiros e apoiantes multimilionários de Trump assume o controlo do TikTok nos EUA
Perry Mason
(1957-1966) – Otto Kruger, Karl Held
A
composição exata dos investidores é ainda desconhecida, mas a rede de
participantes, em alguns casos, está em construção há quase meio século
O TikTok veio para ficar. O presidente Trump assinou um
decreto na quinta-feira que abre caminho para que a aplicação de redes sociais
continue disponível nos Estados Unidos. O negócio, que enfrentava uma proibição
nos EUA após uma lei bipartidária aprovada em 2024 para limitar a sua
participação chinesa, será assumido por um consórcio de investidores
maioritariamente americanos.
“É gerido por investidores americanos e empresas americanas,
grandes investidores, grandes investidores. O maior, não se fica maior”, disse
Trump no Salão Oval após assinar o decreto na quinta-feira, alegando que haverá menos
preocupações com os dados e a privacidade porque será gerido por “pessoas que
amam o país”.
A lista completa dos novos proprietários americanos do
TikTok será revelada "nos próximos dias", de acordo com o
vice-presidente JD Vance, mas acredita-se que seja um "quem é quem"
dos multimilionários americanos, muitos dos quais têm laços estreitos com Trump
e entre si. A gigante de software Oracle, a empresa de private equity
Silver Lake e a MGX, uma empresa de investimento focada em IA criada pelo
governo de Abu Dhabi, deverão deter cerca de 45% do novo TikTok. Trump
mencionou ainda o envolvimento de Michael Dell e Rupert Murdoch no Salão Oval,
na quinta-feira. A ByteDance — empresa-mãe chinesa do TikTok — deverá manter
19,9% da propriedade, enquanto um grupo mais alargado de investidores,
incluindo os atuais acionistas da ByteDance (KKR, Sequoia e Susquehanna),
deverá ficar com os restantes 35%. O acordo avalia as operações americanas do TikTok
(sem o seu algoritmo lucrativo) em cerca de 14 mil milhões de dólares, menos do
que a sua receita estimada de 22 mil milhões de dólares para 2024.
A principal figura associada ao negócio, além do próprio
Trump, é Larry Ellison, cofundador da
Oracle e a segunda pessoa mais rica do mundo. Trump afirmou que a Oracle está a
“desempenhar um papel muito importante” no acordo, incluindo a aquisição de uma
participação de 15% (segundo rumores) e a função de “fornecedor de segurança” da
aplicação. Trata-se de um casamento de interesses entre Ellison e Trump.
A Oracle obtém uma parte significativa dos seus lucros a
partir de contratos governamentais. Além disso, segundo um registo regulatório,
as suas “receitas e lucros seriam negativamente afetados” se a empresa deixasse
de gerir os dados e a infraestrutura das operações norte-americanas do TikTok,
que representam cerca de 15% do negócio da ByteDance.
Já Trump, para quem a imagem é soberana, tem muito a ganhar
com uma aplicação de redes sociais controlada por alguém próximo de si. Acresce
que o presidente detém entre 32 mil e 130 mil dólares em ações da Oracle, de
acordo com a sua mais recente declaração financeira — o que faz de Trump, tal
como todos os acionistas da Oracle, um pequeno e indireto proprietário do
TikTok.
“Se tivesse um monopólio absoluto, o que pensaria de
qualquer coisa que ameaçasse esse monopólio? Aqueles que têm mais são também os
que mais têm a perder”, disse Ellison à Forbes em 1996, a propósito da
então dominante Microsoft. Agora, Ellison e a sua própria empresa de software
parecem empenhados em comprar o maior número possível de parcelas dos mercados
da tecnologia e dos média, desde a Paramount (e talvez a Warner Bros.) até
participações no X e, potencialmente, no TikTok.
Outro grande investidor apontado como provável no negócio é
a MGX, uma firma de investimento
sediada em Abu Dhabi e focada em inteligência artificial, apoiada pelo fundo
soberano dos Emirados Árabes Unidos. Tal como os outros, a MGX tem uma ligação
a Trump. Em março, a empresa anunciou um investimento de 2 mil milhões de
dólares na bolsa de criptomoedas Binance, financiado com 2 mil milhões de USD1,
a stablecoin criada pela World Liberty Financial de Trump. A decisão de usar o
USD1 ajudou a dar legitimidade e escala à moeda do presidente, aumentando a sua
capitalização de mercado e permitindo-lhe gerar juros sobre os depósitos da
MGX. A MGX também se associou à Silver Lake numa aquisição maioritária da
unidade Altera da Intel, no início deste mês.
Permanece incerto o que acontecerá exatamente ao terço,
aproximadamente, do novo TikTok norte-americano que será detido tanto por
investidores já existentes da ByteDance como por novos acionistas, até que
ponto essa participação espelhará a estrutura atual da ByteDance ou se algum
montante em dinheiro será efetivamente transacionado nessa parte do acordo. O
que se sabe é que os outros multimilionários envolvidos — Safra Catz, vice-presidente executiva da
Oracle e braço-direito de Ellison; os sócios da Silver Lake, Egon Durban, Greg
Mondre e Kenneth Hao; e a MGX de Abu Dhabi — mantêm relações profundamente
enraizadas com Ellison, Trump e entre si. De certo modo, este acordo esteve
décadas em preparação.
Eis, pois, a teia de multimilionários que se espera venha a
controlar o novo TikTok norte-americano.
Larry Ellison (património líquido estimado: 352 mil
milhões de dólares)
O acordo do TikTok pretende dificultar a espionagem do
governo chinês sobre utilizadores baseados nos Estados Unidos. Mas e quanto ao
próprio governo norte-americano? A relação de Ellison com o governo remonta a
quase 50 anos. A CIA foi o primeiro cliente da Oracle em 1977, e
Ellison defendeu, num artigo de opinião em 2002, a criação de “uma base de
dados de segurança nacional combinada com biometria — impressões digitais,
impressões das mãos, íris ou o que for mais eficaz — para detetar pessoas com
identidades falsas”.
Ellison não contribuiu diretamente com muito para as
campanhas de Trump — organizou um evento de angariação de fundos para Trump em
2020, mas financiou Tim Scott em 2024 —, mas a sua relação com o presidente é
longa e cordial.
Em janeiro, Ellison esteve na Casa Branca para ajudar Trump
a anunciar a sua iniciativa de infraestrutura em inteligência artificial
Stargate, avaliada em 500 mil milhões de dólares, que aparentemente inclui um
contrato de 300 mil milhões entre a Oracle e a OpenAI, segundo o Wall Street
Journal. Nesse mesmo mês, Trump disse também aos jornalistas que apoiaria
um acordo liderado por Ellison para a compra do TikTok.
A tentativa anterior da Oracle de comprar a aplicação, que
lhe teria conferido uma participação de 12,5%, falhou em 2020. É possível que
Ellison esteja disposto a tornar o TikTok mais amigável a Trump, dado que
prometeu uma reformulação da CBS, propriedade da Paramount — possivelmente impulsionada pela
promessa da Skydance de terminar programas de diversidade, equidade e inclusão.
Michael Dell (138,7 mil milhões de dólares)
Dell nunca contribuiu diretamente para as campanhas de
Trump, mas a sua empresa, Dell Technologies, fornece hardware e software à
Oracle para correr as suas aplicações na cloud — uma parceria (e amizade) com
Ellison que começou há mais de 20 anos, quando as duas empresas se associaram
pela primeira vez. Dell, que fundou a empresa na garagem da sua casa no Texas
em 1984, mantém também uma relação próxima com Egon Durban e a Silver Lake. A
firma de private equity ajudou a financiar o leveraged buyout de
2013 da sua empresa, então cotada em bolsa, num negócio que rendeu milhares de
milhões a Dell, Durban e à Silver Lake.
Jeff Yass (65,7 mil milhões de dólares), Arthur
Dantchik (16,3 mil milhões de dólares), Joel Greenberg (2,9 mil milhões de
dólares)
Yass, o maior acionista individual da gigante de market
making Susquehanna (um investidor já existente da ByteDance), é libertário
e grande doador do Partido Republicano, tendo pessoalmente dado 99 milhões de
dólares a grupos conservadores durante o ciclo eleitoral de 2024. “Never
Trumper” em 2016, que ainda em 2022 dizia esperar que Trump saísse da política,
o multimilionário juntou-se ao movimento pró-Trump por volta da altura em que o
Congresso começou a discutir um projeto de lei que obrigaria a ByteDance a
desinvestir da aplicação de partilha de vídeos — uma situação pouco ideal para
os seus apoiantes norte-americanos, incluindo Yass e os seus cofundadores da
Susquehanna, Dantchik e Greenberg. O então candidato Trump, após uma reunião
com Yass, manifestou-se contra o projeto de lei em março passado.
Rupert Murdoch (23,8 mil milhões de dólares)
A News Corp., empresa-mãe da Fox News, irá
alegadamente juntar-se ao grupo de proprietários do TikTok, numa ação que
levantará questões sobre se a cadeia de televisão, favorável ao MAGA, obterá o
estatuto de distribuição preferencial no feed do TikTok. Murdoch, acionista de
controlo da New Corp., foi apontado na assinatura do acordo no Salão Oval de
Trump como um investidor no negócio. Entretanto, Trump está a processar Murdoch
e o The Wall Street Journal, da New Corp., depois de o jornal ter
noticiado uma carta aparentemente escrita por Trump a Jeffrey Epstein.
Henry Kravis (16 mil milhões de dólares), George
Roberts (17,4 mil milhões de dólares)
A KKR, gigante de private equity de capital
aberto que cofundaram, investiu inicialmente na ByteDance através da sua equipa
de Private Equity da Grande China numa angariação de fundos em 2018 que avaliou
a gigante das redes sociais em 75 mil milhões de dólares. A KKR detém agora
alegadamente cerca de 2% da ByteDance, mas não ocupa qualquer lugar no seu
conselho. Não é claro como a participação da KKR será impactada pelo novo
acordo com os EUA. Kravis, apoiante de Trump, chegou a ser considerado como uma
possível escolha para Secretário do Tesouro.
Neil Shen (3,8 mil milhões de dólares)
Shen, que faz parte do conselho de administração da
ByteDance, é o fundador e managing partner da HongShan, a empresa de
investimento chinesa que se separou da Sequoia Capital em 2023. A Sequoia
envolveu-se pela primeira vez com a ByteDance, empresa-mãe do TikTok, em 2014,
quando a HongShan (na altura, a Sequoia China, liderada por Shen) investiu na
sua ronda de financiamento Série C. A HongShan assumiu uma participação inicial
de 10% na empresa, avaliada em 465 milhões de dólares, e desde então investiu
em várias rondas de financiamento subsequentes. A empresa detém ainda pouco
mais de 10% da ByteDance; não é claro como é que a sua participação poderá ser
impactada pelo novo acordo com os EUA.
Safra Catz (3,3 mil milhões de dólares)
CEO da Oracle desde 2014 até segunda-feira (quando
assumiu a vice-presidência executiva), Catz apoiou Trump durante a maior parte
da sua passagem pela gigante do software. Fez parte da equipa de transição de
Trump em 2016 e doou um milhão de dólares para um PAC pró-Trump em 2024. Catz
estava entre os executivos de tecnologia que compareceram ao jantar de Trump na
Casa Branca em setembro, onde disse que o que Trump está a fazer é
"possibilitar a vitória dos Estados Unidos".
Egon Durban, Greg Mondre, Kenneth Hao (2,3 mil milhões
de dólares cada)
Os sócios-gerentes multimilionários da firma de private
equity focada em tecnologia Silver Lake — Durban, Mondre e Hao — doaram
para causas tanto democratas como republicanas, segundo registos da FEC, mas
nunca para Trump ou os seus PACs (Mondre, por exemplo, contribuiu para Joe
Biden nas eleições de 2020). No entanto, mantêm ligações ao presidente através
do seu portefólio. Em 2016, a Silver Lake comprou uma participação na UFC, a
organização de artes marciais mistas liderada pelo amigo de Trump, Dana White,
que ajudou o presidente a coordenar as suas numerosas aparições em podcasts da
“manosphere” durante as eleições de 2024. Durban serve atualmente nos conselhos
de administração das empresas-mãe da UFC, TKO Holdings e Endeavor Holdings,
esta última presidida por si.
A Silver Lake mantém também relações pré-existentes com
vários outros investidores do TikTok. A firma é um investidor importante da
Dell Technologies, de Michael Dell, e ajudou a financiar a compra de 24,9 mil
milhões de dólares em 2013, que tornou a empresa privada. Durban integra o
conselho da Dell. A Silver Lake e a KKR têm colaborado em múltiplos negócios. A
firma também possui laços históricos com a Oracle; o cofundador da Silver Lake,
David Roux (que já não trabalha na empresa), foi vice-presidente da Oracle nos
anos 1990 e afirmou recentemente ter mantido uma “relação muito boa” com
Ellison.
Outro fio desta teia: o fundo soberano de Abu Dhabi,
Mubadala, possui uma participação minoritária na Silver Lake, e nos últimos
anos fez investimentos em parceria tanto com Dell como com a firma de private
equity do genro de Trump, Jared Kushner.
Esta não será a primeira incursão da Silver Lake nas
redes sociais. A empresa investiu mil milhões de dólares no Twitter em 2020;
Durban juntou-se então ao conselho e aprovou a compra da plataforma por Elon
Musk dois anos depois, quando Ellison também investiu mil milhões de dólares.
Marc Andreessen (2 mil milhões de dólares)
A lenda de Silicon Valley enriqueceu como um dos
primeiros financiadores do Instagram, Oculus VR e Facebook. Foi um dos maiores
investidores de capital de risco de Trump nas eleições de 2024. Em dezembro de
2024, Andreessen afirmou que passaria "metade" do seu tempo em
Mar-a-Lago a aconselhar Trump sobre tecnologia e política económica para o seu
segundo mandato. Foi depois contratado como autodenominado "estagiário não
remunerado" no Departamento de Eficiência Governamental, onde ajudou a
entrevistar e recrutar candidatos para a iniciativa de redução de custos
liderada por Musk. Doou 4,5 milhões de dólares à Right For America, um super
PAC pró-Trump, no final de 2024 e doou 3 milhões de dólares à super PAC MAGA
Inc., no início de 2025. Não é claro se Andreessen investiria no TikTok
pessoalmente ou através da sua empresa, a Andreessen Horowitz.
Fonte: Forbes, 25 de setembro de 2025

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