A tirania do chorão
Perry Mason
(1957-1966) – Suzanne Lloyd
Ativistas
trans e israelofóbicos estão a usar a vitimização como arma contra os seus
opositores
A política da vitimização já existe há algum tempo. E, tal
como a wokery, em vez de dar sinais de extinção, parece que veio para
ficar. De facto, quando se trata de uma postura que combina autocomiseração,
pieguice, ressentimento e sede de vingança, a política da vitimização parece
estar em melhor forma do que nunca.
Isto é claro em acontecimentos que ocorrem à margem da
política britânica. Nomeadamente, as tentativas do partido não identificado
liderado por Zarah Sultana e Jeremy Corbyn – já uma improvável coligação de
extrema-esquerda antediluvianos, jovens ultraprogressistas, ativistas
pró-Palestina e muçulmanos idosos com visões profundamente conservadoras – de
forjar uma aliança com o Partido Verde de Zack Polanski, uma organização que
encontra o seu tradicional apoio central entre os ricos e dolorosamente
"cuidadosos" tipos de classe média.
À primeira vista, não há muito que una estas fações. No
entanto, estão unidas na sua paixão por uma coisa: agitar a bandeira
palestiniana.
Ouvimos falar muito sobre bandeiras este ano, mas o
surgimento e proliferação deste ícone em particular é talvez o mais
significativo. Isto ficou claro com a sua superabundância no festival de
Glastonbury este Verão, onde o significado da bandeira palestiniana se tornou
palpável: serve agora para demonstrar que apoia as vítimas contra os
opressores, os fracos contra os fortes, o bem contra o mal. É por isso que as
multidões reunidas não viam nada de errado em entoar palavras de ordem que
matam judeus, como "Morte, morte às Forças de Defesa de Israel".
Estavam do lado dos anjos contra os perpetradores do "genocídio". A
bandeira palestiniana é agora o símbolo global da vítima.
A vitimização é muito desejada por bons motivos. Nada pode
contrariar a fúria justa da vítima que sofre – a vítima que tem o direito do
seu lado e cujas respostas e ações podem, por isso, ser permitidas. A vítima
sente-se injustiçada por um mundo injusto e cruel, e nós devemos sentir a sua
dor. Aqueles que questionam os motivos da vítima podem ser raivosamente
rejeitados como cruéis, insensíveis ou cúmplices dos próprios opressores.
Nada pode saciar a sede de vingança que a vítima procura
alegremente. Armada de autojustiça, a vítima pode comportar-se como quiser,
assediando e ameaçando os outros enquanto protesta que é ela quem está a ser
atacada. O ativista vitimista é hoje personificado na figura do chorão (crybully)–
termo cunhado por Julie Burchill.
É uma mentalidade sedutora e uma fórmula imbatível, e é por
isso que a temos visto em toda a sua crueldade nos últimos anos. O duvidoso movimento #MeToo da última década ganhou força porque ninguém
ousou opor-se ou duvidar das queixosas que procuravam indemnização pelos seus
transgressores. A beligerante autojustificação
do movimento Black Lives Matter era de natureza semelhante e foi
alimentada pelas mesmas razões. Os ativistas
trans radicais, como Graham Linehan sabe muito bem, fizeram grandes
progressos políticos ao retratarem-se como mártires perseguidos que apenas
queriam "ser bondosos" e impedir que as crianças se matassem.
E isto está a acontecer neste momento na Grã-Bretanha na sua
forma mais flagrante e astuta, com tentativas de definir e codificar a
"islamofobia", um termo que procura blindar qualquer crítica ao Islão
ou aos muçulmanos, enquadrando cada um na categoria "perseguidos e
oprimidos".
A direita identitária também bebe profundamente desta fonte
de autocomiseração e ressentimento.
Nada disto é particularmente novo. Grande parte da filosofia de Friedrich Nietzsche centrava-se na autojustificação dos perseguidos e
na psicologia do ressentimento. Escrevendo em 1888 sobre o desejo de
"justiça" (isto é, vingança) pregado por muitos cristãos e
socialistas, concluiu: "O que é comum a ambos, e indigno em ambos, é que
alguém tem de ser culpado pelo facto de alguém sofrer — em suma, que o sofredor
prescreve para si mesmo o mel da vingança como remédio para o seu sofrimento...
essa sede de vingança como uma sede de prazer."
Os jovens são mais patriotas do que se pensa
Desde que a Grã-Bretanha deixou a União Europeia, tem sido
consensual entre os mais fanáticos Remoaners (a) que, à medida que a geração mais velha, que votou
maioritariamente pela saída em 2016, desaparece gradualmente e é substituída
por uma geração mais jovem e esclarecida de britânicos menos chauvinistas, o
Reino Unido regressará inevitavelmente à UE.
Uma sondagem publicada pelo The Sunday Times no
passado fim de semana, mostrando que os adolescentes de hoje têm mais orgulho
em ser britânicos do que os seus pais, terá, por isso, sido uma leitura
desconfortável para os Remoaners. O inquérito, revelando que os jovens de 16 e
17 anos de hoje são mais patriotas do que o público em geral, mostrou que os
rapazes, em particular, sentiam mais orgulho no seu país.
Não é surpresa que os adolescentes se estejam a rebelar, especialmente os rapazes brancos. Imagine ser
criado num currículo no qual lhe ensinaram que é um espécime terrível apenas
por causa da pigmentação da sua pele ou sexo biológico, e que o seu país é
responsável por todos os horrores da história? Também estaria em revolta.
Os Remoaners baseavam as suas esperanças numa visão whig da
história (b)
– a crença de que a civilização se tornaria cada vez mais
"iluminada", tal como eles a viam, com o passar do tempo. Esta
presunção foi rudemente dissipada no século XX, com toda a sua carnificina e
destruição.
Esta pesquisa corrobora uma observação mais sensata: os
adolescentes simplesmente revoltam-se contra os seus pais e as suas crenças.
A arte perdida de praguejar
O primeiro episódio do programa de sketches cómicos Mitchell and Webb Are Not Helping, no Canal 4, na passada sexta-feira, foi notável – sobretudo pela profusão de palavrões. De facto, os palavrões foram a base do sketch sobre os agricultores australianos, que consistia inteiramente no elenco a soltar palavrões atrás de palavrões vulgares.
Se isto pretendia ser uma referência ou uma paródia ao
cliché de que os australianos são maldizentes e grosseiros, ou apenas um truque
infantil para provocar risinhos nervosos, quem sabe, mas fez-me rir.
Tornar os palavrões engraçados é uma arte difícil. As palavras ásperas precisam de ser usadas com imaginação e sensatez para as tornar divertidas. Continuo a concordar com a escola de pensamento de que os palavrões são melhor utilizados não em profusão, mas com moderação. E para obter o máximo efeito, devem apanhá-lo de surpresa.
Pense no tipicamente suburbano e sem graça Alan Partridge a
apanhar o seu colega DJ de rádio David Clifton desprevenido com aquela rara
resposta: "Oh, vai-te foder". Palavras quase idênticas foram
proferidas pelo messias gentil e equivocado em "A Vida de Brian"
– dirigidas nada mais nada menos do que aos seus devotos – e com um efeito
cómico devastador. Ou pense naquela reprimenda inesquecível do nosso anti-herói
homónimo em "Withnail and I": “Monty, seu conas do caralho!”
Quando se trata de palavrões, menos é mais. Esse é um ponto
de vista antiquado, com certeza, mas os programas de sketches cómicos não são
antiquados?
Patrick West
Fonte: spiked, 12 de setembro de 2025
(a) Deriva da combinação de “Remainers” (aqueles que
queriam que o Reino Unido permanecesse na União Europeia) com “moan” (reclamar,
resmungar).
Refere-se a pessoas que continuam a criticar a saída do
Reino Unido da UE (Leave), muitas vezes de forma considerada excessiva ou
obsessiva pelos defensores do Brexit.
(b) História whig, é uma forma de interpretar a
história como um progresso contínuo rumo à liberdade e à civilização
“esclarecida”.
Nessa visão, todos os eventos históricos são avaliados à luz
do presente, como se toda a história tivesse como destino inevitável as
conquistas da modernidade, democracia e direitos humanos.
Esta abordagem é criticada por ser simplista, teleológica e eurocêntrica, ignorando retrocessos, complexidades e tragédias.


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