Analistas acreditam que reconhecimento do Estado da Palestina nada mudará na ocupação israelita
O.P.J.
Pacific Sud (2019) - Yaëlle Trules, Toussaint Martinetti, Marion Campan
O
reconhecimento é um gesto simbólico: o bloqueio a Gaza não desaparecerá
automaticamente e a violência continuará por tempo indefinido, avisam dois analistas de políticas
internacional
Analistas portugueses de
política internacional coincidem
na opinião de que um reconhecimento do Estado da Palestina, que Portugal
formalizará no domingo, será apenas simbólico e que “nada mudará no imediato a
ocupação israelita”.
Em declarações à agência Lusa, quer o professor na NOVA School of Law de Lisboa, Felipe Pathé Duarte, quer
o vice-presidente do Observatório do Mundo
Islâmico (OMI), João Henriques,
sustentaram que o bloqueio a Gaza não desaparecerá automaticamente e que a
violência continuará por tempo indefinido.
João Henriques lembrou que, atualmente, 146 dos 193
Estados-membros da ONU reconhecem o Estado da Palestina, número que aumentará
já no domingo com Portugal, tal como anunciado na sexta-feira pelo ministério
dos Negócios Estrangeiros.
Na segunda-feira, Portugal juntar-se-á a outros nove países
que se reunirão numa conferência promovida por França, incluindo Andorra,
Austrália, Bélgica, Canadá, Luxemburgo, Malta, Reino Unido e São Marino, em que
todos reconhecerão a Palestina como Estado.
“Israel já disse que a guerra não vai parar apenas por causa
do reconhecimento, uma vez que deixou muito claro que não aceita imposições
externas sobre o Estatuto da Palestina”, pelo que, a haver impacto, será sempre
“simbólico” no imediato, sustentou Pathé Duarte.
“O potencial reconhecimento não vai mudar no imediato a
ocupação israelita da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. Na prática, isso vai
continuar. O bloqueio de Gaza não vai desaparecer automaticamente. O Hamas vai continuar a controlar Gaza, o que
vai criar um problema complicado, nomeadamente em termos de dois tipos de
autoridade, porque temos o caso na Cisjordânia, nas mãos da Fatah, da
Autoridade Palestiniana, e, no caso de Gaza, o Hamas. Portanto, a ONU não
reconhece o Hamas como um governo legítimo”, justificou o analista de política
internacional.
Segundo Pathé Duarte, um reconhecimento da Palestina como
Estado fará com que se deixe de ver apenas o povo palestiniano sob ocupação e
passar a tratá-lo como um país soberano, com direitos e deveres iguais aos de
qualquer outro, sobretudo o reconhecimento diplomático e jurídico-político.
“O reconhecimento é, sem grande margem para ilusões,
simbólico, já que a ocupação e a violência de que é alvo a população
palestiniana marcarão o seu dia-a-dia por tempo ainda não definido”, sublinhou,
por sua vez, João Henriques, argumentando com o “permanente desrespeito de
Israel por todas as decisões que contrariam a sua caminhada pela expansão
territorial”.
Por outro lado, para o professor na NOVA School of Law de
Lisboa, na perspetiva do governo de Benjamim Netanyahu, enquanto o Hamas continuar a existir “há de ser sempre
visto como uma ameaça existencial a Israel, ou uma potencial ameaça existencial
a Israel”.
“Qualquer solução de dois Estados que eventualmente Telavive
aceite, nunca será com a possibilidade de existência do Hamas. E é o que está a acontecer. Israel vai
acentuar a invasão na tentativa de eliminar completamente o Hamas. E só depois
daí, eventualmente, é que poderá considerar a possibilidade negocial dos
Estados”, disse.
A este respeito, João Henrique salientou que,
independentemente do reconhecimento do Estado de Israel por mais países, as
Forças de Defesa de Israel (FDI) “vão acentuar a invasão na tentativa de
eliminar o Hamas”, o que será “difícil”.
“O Hamas tem ainda cerca de
10 000 efetivos prontos para combater, muitos deles jovens, pois as primeiras
figuras foram eliminadas”, referiu, sublinhando que o movimento
islamita “nunca irá deixar de confrontar Israel” e que “eliminará os
reféns que ainda tem em seu poder antes da chegada das FDI”.
Sobre o papel dos Estados Unidos, Pathé Duarte defendeu que
Washington “dificilmente aceitaria de bom grado” ver a Palestina como Estado,
pois reagiria como “oposição política imediata, utilizando o veto no Conselho
de Segurança da ONU para bloquear várias resoluções que reconheçam ou
fortaleçam esta possibilidade de um Estado palestiniano”.
No entanto, apesar de os Estados Unidos não disporem da
possibilidade de utilizar o veto, de facto, na Assembleia Geral das Nações
Unidas, que começa na segunda-feira em Nova Iorque, poderiam sempre manifestar
uma rejeição política e não reconhecer bilateralmente a Palestina.
“Os Estados Unidos aqui dificilmente reconheceriam e fariam
tudo por tudo para que isso não acontecesse. A reação será sempre negativa e de
oposição ativa, utilizando o Conselho de Segurança, de críticas muito fortes,
acompanhadas talvez de sanções financeiras, de críticas políticas e levantando
sempre a bandeira de que só reconhecerão a Palestina resultado de negociações
diretas com Israel e não decisões unilaterais das Nações Unidas ou da chamada Comunidade Internacional”,
concluiu.
Já o vice-presidente do OMI, questionado sobre o
posicionamento dos Estados Unidos no conflito, sustentou que irá refletir-se
“inevitavelmente nas relações de natureza diplomática”, tanto a nível regional
como global, “em particular com alguns dos seus aliados europeus e do Médio
Oriente”.
“Este cenário poderá vir a
diminuir a capacidade de os EUA ditarem as suas leis no campo das decisões
multilaterais, podendo assim favorecer o maior protagonismo da União Europeia
[UE], dos países árabes, da Rússia, e da China também, o que contraria os mais
recentes propósitos do Washington para a região”, sustentou.
Para João Henriques, poderá dar lugar igualmente a “um
endurecimento das posições norte-americanas através da aplicação ou agravamento
das sanções já existentes, o que exigirá o bom senso do atual inclino da Casa
Branca, o que é bastante duvidoso”.
Fonte: Expresso, 20 de setembro de 2025
Analistas de ouvido apurado para o que dizem os dirigentes israelitas não carecem de formação dispendiosa em universidades; as sociedades encontram-nos a preço de uma consulta de otorrino. Das universidades portuguesas saem apenas patetas que, mal transpõem a raia com Espanha, são coroados como génios — e é assim que nos chegam aos jornais e pantalhas de TV. E o país não perde a oportunidade de pôr as suas bocas ao serviço.








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