Censurar John e Yoko
Perry Mason
(1957-1966) – Tony Travis, Andra Martin
Uma
nova caixa discográfica elimina uma das canções mais polémicas de John Lennon
A Construção de um Legado
John Lennon foi sempre o mais controverso dos Beatles. Em 1966, declarou, de forma célebre (e
infame), “Somos mais populares do que Jesus”, desencadeando uma reação que
levou a fogueiras públicas de discos dos Beatles. Em
1968, apareceu nu na capa de um álbum com Yoko Ono, levando alguns
retalhistas a serem presos por acusações de obscenidade. E, em 1969, protagonizou uma curta-metragem
centrada numa única parte do seu corpo, em vários estados de tumescência —
quanto a isso, quanto menos se disser, melhor.
Mesmo hoje, 45 anos após a sua morte, John Lennon continua a
gerar polémica. A mais recente gira em torno de uma caixa de doze discos,
recentemente anunciada, centrada nas gravações de Lennon e Yoko Ono entre 1971
e 1972. Foram os anos das suas canções mais politicamente explícitas, abordando
questões concretas da época — desde os motins na prisão de Attica ao julgamento
de Angela Davis. Estas canções reuniram-se no álbum duplo Some Time in New
York City. Serviram também de espinha dorsal aos concertos One to One no
Madison Square Garden, recentemente alvo de um documentário.
A nova polémica resulta da omissão, nesta caixa, de uma canção-chave de Lennon e Ono: Woman Is the Nigger of the World. Na edição original de Some Time in New York City, esta faixa de título provocatório abria o álbum. Era também o elemento central da capa, concebida como se fosse um jornal — cada canção com o seu título a servir de manchete — com aquele título, tão contundente, colocado na posição mais visível. Foi ainda o único single extraído do álbum.
Apesar de ser a canção mais emblemática de Lennon e Ono
naquele período, não surge uma única vez nas 123 faixas da caixa agora editada.
O álbum em que aparecia é apresentado numa versão “reimaginada”, sem a canção
polémica, substituída por outra faixa na abertura. Do mesmo modo, os três
discos dedicados aos concertos One to One ignoram a canção, apesar de esta ter
sido interpretada ao vivo.
Os comunicados de imprensa sobre a caixa nada dizem quanto a
esta ausência. Mas a tentativa de varrer discretamente a canção para debaixo do
tapete acabou por gerar o chamado efeito
Streisand: cada publicação nas redes sociais a promover o lançamento
está repleta de comentários sobre a faixa desaparecida. “Porque é que retiraram
a primeira canção?”, pergunta um utilizador no YouTube. “Devolvam a faixa que
falta”, escreve outro no Instagram. No Twitter, alguém denuncia a exclusão como
“um ataque direto à arte de John e uma mancha deplorável no seu legado”.
De certa forma, a omissão não surpreende. Vários álbuns de
Lennon tiveram reedições bem-sucedidas nos últimos anos, normalmente com
“misturas definitivas” das canções, embalagens inovadoras e várias faixas
inéditas. A recente reedição do álbum Mind Games (1973) chegou a ganhar
um GRAMMY®. Mas a reedição de Some Time in New York City revelou-se mais
espinhosa. Foi anunciada pela primeira vez com um site próprio, há alguns anos,
antes de ser silenciosamente cancelada. A página inicial para a caixa
originalmente planeada, com data de lançamento em 2022, ainda está visível.
Nunca foi dada uma razão oficial para o cancelamento. Mas
entre os fãs dos Beatles correu o rumor de que o espólio de Lennon e a
Universal Music Group não chegaram a acordo quanto à inclusão de Woman Is
the Nigger of the World. A canção já tinha sido reeditada várias vezes,
mais recentemente nas John Lennon Signature Box de 2010 e 2015. Mas, nos
anos 2020, tornou-se evidentemente demasiado ofensiva para os ouvidos
contemporâneos.
Na verdade, a canção sempre foi ofensiva — pelo menos para
alguns ouvintes. Parte da sua intenção era, de facto, chocar. Quando foi lançada em 1972, gerou tanta
controvérsia que Lennon e Ono foram obrigados a explicar-se em entrevistas
televisivas e radiofónicas. Chegaram mesmo a comprar páginas inteiras em
revistas para contextualizar a mensagem. A canção, defendiam, não tinha um
significado racial. Pretendia antes resgatar essa palavra problemática,
alargando-lhe o sentido para incluir todos os grupos marginalizados, e usá-la
para sublinhar a subjugação das mulheres.
Para alguns, esta explicação foi suficiente, e a canção
permaneceu como uma declaração política válida. Para outros, o título e as
letras continuaram a ser desajeitados e ofensivos — independentemente das
intenções.
Mas, tivesse sido bem-sucedida ou não, a canção de Lennon e
Ono era uma parte vital da declaração artística que procuravam fazer. Retirá-la
silenciosamente de uma retrospetiva deste período é apagar uma parte da sua
história. É também suavizar-lhes as personagens. Empurra Lennon para longe da
sua verdadeira posição como o mais controverso dos Beatles e molda-o em algo
mais insípido. Pode torná-lo mais aceitável e mais vendável em 2025. Mas é, em
última análise, desonesto — o que é irónico, dado o nome escolhido para outra
caixa de Lennon lançada há apenas alguns anos: Gimme Some Truth.
Escrever uma canção
A canção controversa teve origem em Yoko Ono. Foi ela quem cunhou a frase-título durante uma entrevista à Nova, uma revista feminina britânica com um cunho radical. É sinal de como os tempos eram diferentes o facto de a frase de Ono ter surgido em letras maiúsculas na capa da revista, em março de 1969.
John Lennon irritou-se inicialmente com a frase de Ono. “Eu
era mais chauvinista do que sou agora”, explicou numa entrevista em maio de
1972, no The Dick Cavett Show. “Discuti muito.” Mas, ao longo dos anos
seguintes, Ono acabou por o convencer da sua perspetiva sobre as questões das
mulheres. “Tive de descobrir coisas sobre mim próprio e sobre a minha atitude
em relação às mulheres, e esta frase dela não me saía da cabeça.”
Uma vez persuadido, Lennon insistiu para que escrevessem uma
canção baseada naquela frase incendiária, para protestar contra a posição
secundária das mulheres na sociedade, como “a escrava do escravo”. A sua paixão
pela mensagem é evidente na voz que gravou para a faixa, nesse registo único de
Lennon — algures entre o canto e o grito. Ono não participa na canção, e Lennon
é acompanhado pelos Elephant’s Memory, uma banda de rock nova-iorquina que o
casal recrutara para as sessões do álbum. O grupo traz um som fortemente
apoiado em saxofone, criando um acompanhamento bombástico que espelha a força
da voz de Lennon. Produzida por Phil Spector, a faixa inclui ainda o
obrigatório arranjo de cordas, embora muitas vezes abafado pela bateria e pelas
guitarras.
Quanto à letra, consiste sobretudo na frase-título repetida
como refrão. Pelo meio, Lennon
expõe várias injustiças sofridas pelas mulheres:
“We make
her bear and raise our children / And then we leave her flat for being a fat
old mother hen.”
Finalmente, uma coda repete a frase “We make her paint her
face and dance” à medida que a música desvanece.
A importância da mensagem feminista para Lennon e Ono ficou
clara na decisão de lançar a canção como o único single do álbum, em abril de
1972. Mas a controvérsia rebentou de imediato. Na verdade, antes mesmo de o
single chegar às tabelas da Billboard, Lennon e Ono compraram uma página
inteira de publicidade na própria Billboard para explicar a sua mensagem,
citando uma declaração do congressista norte-americano Ron Dellums. Como membro
fundador do Congressional Black Caucus (criado no ano anterior), Dellums tinha,
presumivelmente, as credenciais certas para justificar a reinterpretação da
expressão racial por parte de Lennon e Ono. No anúncio, Dellums é citado a
dizer:
Se definires “niggers” como alguém cujo modo de vida é
definido por outros, cujas oportunidades são definidas por outros, cujo papel
na sociedade é definido por outros, então boas notícias! — não precisas de ser
negro para seres “nigger” nesta sociedade. A maioria das pessoas na América são
“niggers”.
Lennon ficou obviamente satisfeito com esta citação. Durante
a sua participação no The Dick Cavett Show, descreveu-a como
“fantástica” e leu-a na íntegra, arrancando aplausos à audiência. “Acho que ele
disse isso de forma muito sucinta”, comentou Lennon.
No mês seguinte, um segundo anúncio foi publicado na Jet,
uma revista dirigida ao público afro-americano. Desta vez, Dellums foi citado
como tendo dito: “Concordo com o John e a Yoko. As mulheres são os ‘niggers’ do
mundo.” Se o primeiro anúncio já tinha tomado algumas liberdades com as
palavras de Dellums, esta segunda citação era pura e simplesmente uma invenção.
Isso levou Dellums a apresentar queixa ao editor da revista:
“Nunca fiz tal declaração. Ao que parece, fui vítima dos
esforços demasiado zelosos de uma empresa de promoção para capturar uma parte
do mercado da música negra.”
Dellums protestou contra a deturpação das suas palavras,
sublinhando que a sua declaração original se referia não apenas ao estatuto das
mulheres, mas também a outros grupos marginalizados. E insistiu que as suas
palavras eram apenas um reflexo da sociedade americana moderna, não do “mundo”
mais amplo a que Lennon e Ono se referiam. Dellums escreve:
Sobre a questão das mulheres enquanto ‘niggers’ nesta
sociedade, afirmei muitas vezes — e volto a afirmar aqui: numa sociedade
dominada por homens brancos que vê o papel das mulheres como parceiras de cama,
empregadas de limpeza, lavadoras de garrafas, dactilógrafas e cozinheiras, as
mulheres são ‘niggers’ NESTA sociedade.
Após a gafe de marketing, a Jet publicou uma
entrevista com Lennon, na qual ele sublinhou a sua admiração pela “música
negra”. O artigo terminava mesmo com Lennon a declarar: “A música negra é a
minha vida.” Na última entrevista que deu, em dezembro de 1980, Lennon voltou
ao assunto, afirmando que as revistas afro-americanas Ebony e Jet
“disseram que não se sentiram ofendidas” com a canção e a sua reapropriação do
insulto racial.
Apesar disso, em meio a toda a controvérsia e confusão, o single foi um fracasso. Quando finalmente
entrou para a tabela da Billboard, ficou na 76.ª posição. Três semanas
depois, atingiu o seu máximo no 57.º lugar — tornando-se o single com pior
desempenho de toda a carreira de Lennon. Na Cash Box Top 100 (uma
alternativa à Billboard), apareceu apenas durante uma semana, no 93.º
lugar.
O fraco desempenho deveu-se, em parte, ao facto de alguns
retalhistas se recusarem a vender o single. Como disse um grossista: “Não quis
arriscar-me a envolver-me. Estão aqui em causa tanto a questão racial como a
libertação das mulheres, e ainda por cima com um título depreciativo.” Outro
afirmou que o single “vendia muito bem tanto para negros como para brancos”,
mas acrescentou que muitos distribuidores pareciam “ter medo dele”.
Se os retalhistas tinham receio da canção, os radialistas
estavam aterrorizados. A Billboard afirmava que apenas duas rádios das
Top 40 em todo os Estados Unidos a passavam. A Broadcasting Magazine foi
ligeiramente mais generosa, identificando cinco estações que a tinham colocado
nas suas playlists (embora uma delas tenha depois desistido). Mesmo as que a
tocavam notavam o risco de causar ofensa. “Uma rapariga protestou que John
Lennon estava a comercializar a palavra ‘nigger’, embora ela fosse a favor da
libertação das mulheres”, disse um diretor de rádio de Chicago. Outro, em
Filadélfia, comentou: “Não é assim tão difícil imaginar a canção a passar no
ar. O difícil é imaginar os locutores de rádio a dizerem o título.”
Para além de retalhistas e diretores de rádio, também os
críticos se dividiram quanto à canção. A Record World comentou que era
“material forte, tanto musical como liricamente”. A Cash Box declarou
que era o “[m]ais poderoso épico vindo até agora do movimento das mulheres.” E
elogiou Some Time in New York City como “uma das melhores e mais
precisas peças de jornalismo musical de sempre.” Outros críticos foram menos
simpáticos. No Reino Unido, um título perguntava: “Terão John e Yoko ido
finalmente longe demais?” O artigo que se seguia acusava o casal de ser “nobremente
intencionado, mas sem perspetiva.” O mais arrasador, porém, foi a crítica da Rolling
Stone, que atacava as letras como “versos patetas” e “pouco mais do que
rimas infantis mal feitas, que tratam de forma condescendente as causas e as
pessoas que pretendem exaltar.” O crítico destacava Woman Is the Nigger of
the World para um desprezo especial: “Não há desenvolvimento narrativo nem
explicação de uma ideia; a canção é simplesmente uma lista de injustiças,
atabalhoadamente condensadas em cada verso, tornando tudo ininteligível.”
Em resposta, Lennon afirmou que a maioria dos seus críticos
vinha do mesmo meio. “Normalmente eram brancos e do sexo masculino”, disse na
entrevista a Dick Cavett. Sobre a tal palavra difícil, acrescentou: “Todos os
meus amigos negros acham que tenho todo o direito de a dizer.” (Justificações
desse género ainda não tinham virado cliché, ao que parece.) Da mesma forma, na
sua última entrevista, em dezembro de 1980, reiterou que “o escândalo veio da
comunidade branca, não da comunidade negra.”
Na mesma entrevista, Ono parecia concordar com Lennon. “Eles
[‘a comunidade negra’] não acham que são niggers, e por isso não se importaram.
Mas os brancos basicamente pensaram: ‘Bem, niggers… essa é a palavra deles.’”
O ponto de Ono parece apontar para o cerne da controvérsia:
quem “possui” uma palavra que foi historicamente usada para subjugar um grupo
de pessoas? Ela “pertence” ao grupo visado? Ou qualquer um pode propor o que
fazer com ela a seguir — reinterpretá-la ou remetê-la ao caixote do lixo da
história?
A posição de Lennon e Ono parecia ser a de que a palavra não
pertencia a ninguém e que o seu significado era fluido. Assim, sentiam ter todo
o direito de a reclamar e remodelar para os seus próprios fins artísticos e
políticos.
Reescrever a História
Na sua entrevista de maio de 1972 no The Dick Cavett Show,
John Lennon deixou claro que sentia que a palavra tinha um significado
diferente do que tivera historicamente. “Acho que a palavra nigger mudou”,
disse ele. “Já não tem o mesmo significado de antes.” Mas a afirmação de Lennon
não é totalmente convincente. Se o significado da palavra tivesse realmente
mudado, por que teria ele precisado de ir à televisão explicar-se?
Parece, antes, que Lennon fazia parte de um esforço para
redefinir a palavra, sabendo que ela ainda tinha uma carga provocatória. E a
reação negativa à canção pode ter tido algo a ver com a presunção de ele
liderar essa ação — um artista branco a reinventar um insulto racial em nome de
uma raça a que não pertencia; um artista masculino a defender as mulheres, mas
reduzindo-as a “a escrava do escravo”.
É perfeitamente possível que, se Lennon fosse vivo hoje,
pensasse de outra forma sobre basear uma canção feminista nessa palavra
desempoderadora. Afinal, outros artistas vieram a lamentar as suas tentativas
de redefinir esse epíteto. Em 2019, Patti Smith
retirou a canção Rock N Roll Nigger
de todas as atuações ao vivo. Poucos anos depois, a faixa foi
discretamente removida das plataformas de streaming. Tal como no caso de
Lennon, a canção de Smith era, em parte, uma tentativa de “reinventar” a
palavra. Mas, ao que tudo indica, à medida que os anos 2020 se aproximavam,
algo mudou na sua atitude em relação a esse esforço.
Claro que é igualmente possível que, se Lennon fosse vivo
hoje, tivesse mantido a sua posição, apesar da sensibilidade dos ouvidos
modernos. Afinal, a sua potencial ofensividade faz parte do propósito. A canção
foi feita para ser confrontacional — para forçar o ouvinte a encarar aquela
afirmação de frente. Um dos versos recorrentes da canção é think about it
— “pensa nisso”.
Nunca saberemos o que o Lennon de 2025 teria querido. Mas,
na sua ausência, a declaração artística que fez em 1972 deve permanecer como
foi originalmente — por mais imperfeita que soe aos ouvintes de hoje.
(Poder-se-ia argumentar que Yoko Ono, como coautora da canção, poderia ter
decidido contra a sua inclusão no novo boxset, mas isso parece
improvável. Aos 92 anos, Ono passou as responsabilidades de gestão do espólio
Lennon há anos e retirou-se da vida pública.)
Remover a faixa não só altera a declaração artística
original de Lennon e Ono — como também prejudica o novo material apresentado no
boxset. Entre a riqueza de conteúdos lançados pela primeira vez, há mais
de trinta gravações caseiras pessoais de Lennon. Incluem-se aí as suas versões
de canções de Buddy Holly, Chuck Berry e Elvis Presley, bem como quatro temas
gravados com o lendário cantor folk nova-iorquino Phil Ochs. Com toda a atenção
dos fãs focada na controvérsia sobre a faixa ausente, o lançamento destas
gravações inestimáveis perdeu-se no meio do ruído.
Para quem está fora da bolha dos fãs dos Beatles, toda esta
polémica pode parecer uma reação exagerada. Afinal, a faixa continua disponível
para quem a quiser ouvir. Está nas plataformas de streaming e disponível em CD
e em formato digital. Mas o facto de ter sido discretamente omitida deste novo boxset
— completamente ignorada, como se nunca tivesse sequer existido —
estabelece um precedente preocupante para a gestão futura do espólio de Lennon
e de outros artistas polémicos ou irreverentes.
No mundo literário, já assistimos recentemente a uma vaga
de curadores a higienizar a arte que supostamente deveriam proteger. Obras de
Roald Dahl, Ian Fleming, Agatha Christie, P.G. Wodehouse e Enid Blyton foram
reescritas ou editadas nos últimos anos, em nome de minimizar ofensas para os
leitores modernos. Cada vez que ocorre um ato de censura deste
tipo, a vandalização cultural torna-se mais normalizada.
Para os familiares envolvidos na gestão dos espólios de
artistas, as suas decisões estão inevitavelmente enredadas na influência de
empresas poderosas que detêm um controlo significativo sobre o que é lançado.
No caso do espólio de Lennon, essa empresa é a Universal Music Group. E muitos
fãs apontaram o dedo a essa corporação multinacional. “Aposto que foi a UMG que
bloqueou aquela faixa de quaisquer novos lançamentos”, especulou um utilizador
no Twitter. “Eu sei que a ausência da canção não é a forma como os Lennons e a
equipa Lennon gostariam de ter apresentado este álbum”, afirmou um conhecido
criador no YouTube. (Nenhuma declaração oficial foi divulgada atribuindo a
decisão a uma parte específica.)
As empresas veem frequentemente os artistas cujas obras
publicam menos como indivíduos e mais como marcas. E toda marca precisa de ser
renovada para acompanhar as sensibilidades e os gostos modernos. Estas rebranding,
no entanto, constituem uma representação desonesta dos artistas em questão e um
insulto à inteligência dos seus públicos. A maioria daqueles que ouvem a música
de Lennon ou leem os livros de Dahl é suficientemente inteligente para perceber
que os artistas podem ser mais do que uma coisa ao longo das suas vidas —
capazes tanto de grande perspicácia como de preconceitos lamentáveis.
Compreendem também que a arte surge de inúmeros tempos e contextos, nos quais a
linguagem e as perspetivas podem ser diferentes das de hoje.
Estes atos de censura e de “bowdlerização” (a) criam
uma versão sanitizada da história artística — eliminando todas as partes que
possam parecer feias hoje. No caso de Lennon, isto é particularmente irónico,
dado que a sua canção sempre foi feia. Isso é visível em muitas das reações
contemporâneas. E essa feiura era central para a mensagem. A intenção era criar
desconforto, desafiar as pessoas. Se a canção ainda soa feia hoje, talvez seja
porque algumas questões nela permanecem por resolver, e preferimos não pensar
nelas.
Claro que também pode ser válido sugerir que a canção de
Lennon e Ono sempre foi mal calculada, paternalista e totalmente inapropriada.
Mas precisamos ouvi-la (e ouvi-la no seu contexto) para poder ter esse debate.
Caso contrário, poderíamos encontrar-nos a viver num mundo de fantasia em que
nenhum artista da história humana alguma vez disse algo ofensivo. Um mundo
assim poderia parecer mais confortável. Mas seria também um mundo em que nenhum
artista alguma vez tomou riscos ou ultrapassou limites; em que nenhum artista
alguma vez se expôs na tentativa de fazer a coisa certa; em que nenhum artista
alguma vez defendeu os desprotegidos — por mais desajeitadamente que o fizesse.
Christian Kriticos
Fonte: Quillette, 28 de agosto de 2025
(a) O termo
“bowdlerização” vem de Thomas Bowdler, um editor inglês do século XIX que
publicou uma versão “limpa” das obras de Shakespeare, removendo tudo o que
considerava sexualmente impróprio ou ofensivo.
Ou seja, “bowdlerização”
significa a censura ou remoção de partes de um texto ou obra artística para
torná-la mais “aceitável” ou “inofensiva”, muitas vezes distorcendo o conteúdo
original e o seu impacto.



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