Como um conselheiro de embaixada pouco conhecido sequestrou a política dos EUA em relação a Israel
Beyond
Paradise (2023) – Jason Hughes, Madeleine Day
David
Milstein, principal conselheiro do embaixador Mike Huckabee, alimentou uma
cultura de medo no Departamento de Estado, dizem os atuais e antigos
responsáveis
No final da primavera deste ano, diplomatas norte-americanos
em Jerusalém redigiram um telegrama urgente. A guerra em Gaza, somada à decisão
israelita de março de bloquear a entrada de qualquer forma de ajuda na Faixa de
Gaza, deixou a região à beira do desastre. Uma fome aproximava-se, e os EUA não
estavam a fazer nada a esse respeito.
Mas esse telegrama nunca chegou a Washington. Na verdade,
não é claro se chegou à mesa de Mike Huckabee, embaixador dos EUA em Israel. Em
seu lugar, David Milstein — um conselheiro sénior de Huckabee — enviou um
telegrama que soava como "um anúncio da Fundação Humanitária de
Gaza", de acordo com dois funcionários do Departamento de Estado com
conhecimento do incidente.
"Parecia uma declaração de propaganda", disse um
funcionário ao Responsible Statecraft. Enquanto os principais grupos
humanitários condenavam a GHF por colocar em risco os palestinianos que
procuravam ajuda, o relatório de Milstein elogiou a organização por ter
correspondido a uma "necessidade humanitária". Cerca de dois meses depois
de Milstein ter enviado o seu telegrama, o principal monitor mundial da fome
declarou pela primeira vez o estado de fome em Gaza.
O incidente, até então não relatado, realça a extensão da
influência de Milstein na política norte-americana, apesar da sua posição
aparentemente modesta como conselheiro de um embaixador. Nos primeiros oito meses da administração Trump, Milstein
tornou-se uma espécie de executor pró-Israel, atuando em todo o
Departamento de Estado para orientar a política americana e contestar qualquer
informação que coloque Israel sob uma luz negativa, de acordo com atuais e
antigos funcionários do Departamento de Estado que falaram com ao Responsible
Statecraft.
Num esforço para reforçar o apoio dos EUA a Israel, Milstein
confrontou colegas que considerava insuficientemente pró-Israel, retirou
conteúdos críticos a Israel de comunicados de imprensa, bem como de um
importante relatório anual sobre direitos humanos, e
tentou que o governo dos EUA se referisse à Cisjordânia como "Judeia e
Samaria", um termo controverso frequentemente utilizado pelos
apoiantes da anexação israelita da região. Antes da sua atual função, Milstein
trabalhou em diversas funções com políticos republicanos pró-Israel, como o
senador Ted Cruz (Republicano-Texas) e o governador republicano da Florida, Ron
DeSantis.
Os esforços de Milstein vieram a público pela primeira vez
em julho, quando o Departamento de Estado demitiu Shahed Ghoreishi, que
desempenhava as funções de assessor de imprensa chefe do departamento para
assuntos israelo-palestinianos.
Milstein, enteado do
radialista conservador Mark Levin, em diversas ocasiões entrou em
conflito com Ghoreishi por causa de comunicados de imprensa relacionados com
Israel. Após um desentendimento sobre se os EUA deveriam dizer que se opunham à
deslocação forçada dos residentes de Gaza — um ponto sobre o qual nem o presidente
Trump nem o seu enviado de paz Steve Witkoff expressaram uma opinião
consistente — Ghoreishi foi demitido sem explicação.
Em entrevista ao Responsible Statecraft, Ghoreishi
afirmou que Milstein tinha "contactado o gabinete do secretário [de
Estado] Marco Rubio e usado a sua influência" para conseguir a sua demissão.
Milstein não respondeu a um pedido de comentário.
Em comunicado, o porta-voz adjunto do Departamento de
Estado, Tommy Pigott, afirmou que o departamento “tem tolerância zero para
funcionários que cometem má conduta ao vazar ou divulgar e-mails ou informações
confidenciais”, acrescentando que os comentários contidos neste artigo são “ultrajantes
e desonestos”.
"David Milstein é um forte e valioso defensor das
políticas da administração Trump e do povo norte-americano", disse Pigott.
A disputa que envolveu Ghoreishi deixou muitos no
Departamento de Estado nervosos. Milstein "conseguiu realmente a demissão
de alguém", disse um funcionário do Departamento de Estado. "Será que
ele vai arranjar alguma maneira de me atirar às feras?"
Como cegar uma embaixada
As raízes da influência de
Milstein remontam à primeira administração Trump. Quando os EUA
decidiram transferir a sua embaixada de Telavive para Jerusalém, a nova
instalação absorveu o consulado norte-americano em Jerusalém, que até então
funcionava como uma espécie de embaixada de facto junto dos palestinianos, com
canais próprios de comunicação para Washington.
Esta política aumentou a
importância do embaixador dos EUA em Israel, que passou a ter controlo direto
sobre a secção palestiniana, podendo assim bloquear informação
indesejada antes que chegasse a Foggy Bottom [nome do bairro em Washington,
D.C., onde fica a sede do Departamento de Estado]. Durante a primeira
administração Trump, “tudo o que não lhes agradava simplesmente não era
enviado”, recorda Mike Casey, antigo diplomata que trabalhou na embaixada entre
2020 e 2024. “Nem sequer chegava ao embaixador para ele analisar e dizer
‘não’.” Na altura, isto significava sobretudo
bloquear despachos que relatavam preocupações sobre os colonatos israelitas na
Cisjordânia.
Antes de Milstein, havia Aryeh Lightstone, chefe de gabinete
do embaixador David Friedman, nomeado por Trump para o seu primeiro mandato.
(Milstein também foi assistente de Friedman, mas a sua influência permaneceu
limitada.) Lightstone atuava como guardião de Friedman, bloqueando qualquer
relatório sobre questões como a alegada violência de colonos antes de estas
chegarem sequer à secretária do embaixador, segundo Casey, que descreveu o
papel de Lightstone como “invulgar”.
“[Chefes de gabinete] tratam de papéis, ajudam a definir
prioridades e esse tipo de coisas, mas não estão lá para suprimir relatórios
com os quais não concordam”, disse Casey ao Responsible Statecraft. “Que
o embaixador se envolva nos debates de política é normal. Que o chefe de
gabinete o faça é invulgar.”
Com a chegada da administração Biden, a secção de Assuntos
Palestinianos da embaixada recuperou a sua autonomia, podendo comunicar com
Washington sem ter de passar pelo embaixador em Israel. Durante a guerra em
Gaza, o embaixador Jack Lew bloqueou a sua própria equipa de reportar “qualquer
coisa crítica em relação aos israelitas”, mas o escritório palestiniano manteve
um certo grau de independência, segundo Casey.
Quando Trump regressou ao cargo este ano, essa independência
desapareceu novamente, e Milstein assumiu o antigo papel de Lightstone como
braço-direito do embaixador. Lightstone, por sua vez, regressou ao governo como
conselheiro de Witkoff. Nessa posição, Lightstone atuou como mediador entre a
ONU e a GHF, gerando polémica no início deste ano pela “sua recusa em ouvir
críticas à GHF” feitas por responsáveis ocidentais, segundo o jornal Haaretz.
“Levantar preocupações é considerado insubordinação”
Quando
se trata de dissidência, a
administração Trump definiu o tom logo de início. Antes mesmo da tomada de
posse de Trump, um funcionário de baixo nível da equipa de transição reuniu-se
com membros do Departamento de Estado e “perguntou quem eram os apoiantes da
OLP” no departamento, contou um diplomata norte-americano, usando a
sigla para a Organização de Libertação da Palestina, que atualmente domina a
Autoridade Palestiniana.
O episódio, aliado às promessas de nomeados políticos de
desmantelar o chamado “deep state”, levantou preocupações dentro do
Departamento. Particularmente apreensivos ficaram os funcionários que tinham
assinado “cables [telegramas diplomáticos] de dissidência” — um
mecanismo protegido para contestar internamente a política oficial —
relacionados com Gaza. (Não há registo de funcionários despedidos por assinarem
um cable de dissidência).
Funcionários com posições relativamente equilibradas sobre o
conflito israelo-palestiniano sentem-se agora receosos de se manifestar
internamente, deixando grande margem de manobra a alguns dos nomeados de Trump
mais abertamente pró-Israel. Milstein aproveitou a oportunidade para fazer
sentir a sua influência em todo o Departamento.
Em julho, quando a Irlanda
ponderava proibir o comércio com colonatos israelitas na Cisjordânia, Milstein
redigiu uma declaração a condenar a mera consideração dessa medida,
segundo fontes citadas pelo Washington Post. O esforço “alarmou
diplomatas norte-americanos na Europa”, noticiou o jornal, sublinhando que os
embaixadores preferiam discutir o assunto de forma privada com os responsáveis
irlandeses em vez de criar uma disputa pública com um parceiro europeu próximo.
No fim, prevaleceu a posição dos diplomatas, acrescentou o Post.
Mas os funcionários de carreira nem sempre tiveram tanta
sorte. Quando Milstein assumiu o cargo atual,
lançou imediatamente a sua própria revisão do relatório de direitos humanos do
Departamento de Estado sobre Israel e os Territórios Palestinianos.
A versão original, elaborada por funcionários de carreira e aprovada durante a
administração Biden, continha críticas significativas tanto a Israel como ao
registo do Hamas em matéria de direitos humanos. Porém, quando Milstein
devolveu a sua versão editada, “muita da informação crítica de Israel tinha
sido removida”, disse um responsável do Departamento de Estado. A versão final
concentrou-se sobretudo em críticas a grupos palestinianos e tinha apenas nove
páginas — quase 100 páginas a menos do que o relatório emitido no ano anterior
pela administração Biden.
Nos seus esforços para
promover perspetivas pró-Israel dentro do Departamento de Estado, Milstein
recorre frequentemente a fontes de informação questionáveis, segundo
outro responsável. Um desses casos é o Palestinian Media Watch, criticado pela
sua orientação marcadamente pró-Israel e pela alegada tendência em selecionar
apenas citações polémicas de responsáveis da Autoridade Palestiniana. “Ele fala
daquilo como se fosse uma fonte credível”, sem referir “o quão enviesada é”,
acrescentou o responsável.
Um alto funcionário do Departamento de Estado descreveu a
abordagem de Milstein como emblemática de uma cultura mais ampla de medo que se
instalou na segunda administração Trump. “Trabalhei com nomeados de Trump na
primeira administração, e é fundamentalmente diferente desta vez”, disse.
“Levantar preocupações é considerado insubordinação. Essa linguagem vem de cima
para baixo, de forma clara.”
Connor
Echols
Fonte: Responsible Statecraft, 24 de setembro de 2025


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