Genocídio em Gaza. "Tornámos as convenções de Genebra quase irrelevantes"
O líder da Agência das Nações Unidas para os Refugiados
Palestinianos (UNRWA) avisa que a situação em Gaza que está "a ser
aceite" vai tornar-se "a nova norma
para todos os conflitos futuros". Entrevistado pelo jornal
espanhol El Pais, Philippe Lazzarini não tem dúvidas que "Gaza está
a tornar-se o cemitério do direito humanitário
internacional". O responsável pela UNRWA não arrisca desenhar
já o futuro para Gaza. No entanto, entende que a questão fundamental é “se Gaza
continuará a ser uma terra para os palestinianos no futuro”.
Por isso, apela a que todos se esforcem para garantir que
Gaza continue a ser dos palestinianos porque este cenário é “o único em
consonância com o desfecho aceite pela comunidade internacional: a solução de
dois Estados”.
Nesta entrevista ao jornal El País durante o curso de
verão Quo Vadis Europa XIII, organizado pela Universidade Internacional
Menéndez Pelayo, em Santander, Philippe Lazzarini volta a dizer que a fome em
Gaza não é o resultado de vários fatores, é apenas “provocada pelo homem”. “Há
meses que alertamos para os sinais de fome e soamos o alarme, mas os nossos
avisos caíram em saco roto".
"Vimos isso nos nossos centros de saúde, onde o número
de crianças com desnutrição aguda [na capital] aumentou seis vezes nos últimos
[seis] meses”, sublinha Lazzarini.
A Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos
teme agora que a fome se espalhe por toda a Faixa de Gaza e “não atinja apenas
a cidade de Gaza e a província”.
“É absolutamente obsceno que mais de 1500 pessoas também
morreram enquanto procuravam desesperadamente ajuda alimentar em centros de
distribuição instalados perto das posições das Forças de Defesa de Israel,
geridos pela infame Fundação Humanitária de Gaza [GHF, operada por soldados
israelitas e seguranças privados dos EUA].”
“O nível de inação da
comunidade internacional também é chocante. (…) Enquanto isso, a Cisjordânia
está a passar por níveis sem precedentes de violência e deslocamento forçado de
pessoas, o que certamente estaria nas manchetes de hoje se não
tivesse sido ofuscado pelo desastre em Gaza”, denuncia Philippe Lazzarini ao El
Pais.
O impacto na UNRWA das campanhas de desinformação de Israel “foi tal que, 48 horas após a acusação, 16 países
anunciaram um congelamento temporário das suas contribuições”, lembra o
responsável da agência.
Isto depois de Israel ter afirmado que elementos do Hamas se
tinham infiltrado na UNRWA em janeiro de 2024. Ficou claro que “o
desmantelamento da agência” era “um objetivo de guerra”.
“Os políticos israelitas veem uma oportunidade única para
desmantelar uma organização que, aos seus olhos, representa o direito de
regresso dos refugiados palestinianos. (…) Assim, desmantelar a agência e
retirar aos palestinianos o seu estatuto de refugiados é também uma forma de
minar o direito à autodeterminação. E, portanto, uma forma de minar a solução
de dois Estados, de modificar os parâmetros de
qualquer futura resolução política para o conflito”, explica Philippe
Lazzarini.
Apesar do corte de doações para a UNRWA, houve países “que
aumentaram as suas contribuições, como Espanha, Luxemburgo e Portugal, entre
outros”. No entanto, “não compensou o corte nas doações.”
Quanto ao impacto no futuro das ações de Israel,
Estado-membro da ONU, o diretor-geral da Agência da ONU assegura: “Gaza está a
tornar-se o cemitério do direito humanitário internacional humanitário. Tudo
foi descaradamente ignorado...”.
“A impunidade prevalece e há uma sensação crescente na
região de que o direito internacional humanitário não é universal. (…) Tornámos as Convenções de Genebra quase irrelevantes.
O que está a acontecer e a ser aceite hoje em Gaza não é algo que possa ser
isolado; tornar-se-á a nova norma para todos os conflitos futuros”, conclui
Lazzarini.
Fonte: RTP, 3 de setembro de 2025

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