Impresa, a urgência de um negócio para salvar a SIC e o Expresso
Perry Mason (1957-1966) – Don Dubbins
A
família Balsemão está a negociar a entrada de um novo acionista na Impresa, a
dona da SIC. A situação financeira do grupo exige um acordo nos próximos meses.
Falta saber quem ficará a mandar
O que se sabia dos corredores, suportado numa degradação
financeira crescente, passou a ser oficial: Depois das perguntas e da notícia
do ECO, a Impresa confirmou oficialmente as negociações com o grupo italiano MediaForEurope (MFE), fundado por Sílvio Berlusconi. Mas o que é
que explica a urgência do negócio? Uma empresa à beira do precipício: A SIC anda a endividar-se para pagar dividendos à
acionista Impresa SGPS, e mesmo assim não chega para a holding pagar
os respetivos juros de empréstimos, menos ainda a estrutura. A entrada de
dinheiro fresco é urgente para ultrapassar a situação financeira crítica da
Impresa, com prejuízos históricos, erosão de capital próprio e liquidez quase
inexistente.
Nos últimos meses, sucederam-se informações no mercado,
sempre desmentidas, de que havia negociações para a abertura de capital da
Impresa a outros acionistas. Mas estavam mesmo a decorrer. António Horta Osório entrou na administração da Impresa
com esse objetivo, saiu sem o cumprir, e entrou outra figura central
neste processo: Pedro Barreto, que tinha sido administrador do BPI — banco que
suportou ao longo de décadas o grupo Impresa –, substitui Horta Osório e inicia
um road-show junto de grupos familiares portugueses com um plano para investirem na Impreger, a holding da família Balsemão que
controla ligeiramente acima de 50% da Impresa SGPS, sociedade cotada
que, por sua vez, controla a SIC e o Expresso. O plano tinha a ambição
de permitir uma recapitalização, mas mantendo a atual estrutura de poder,
liderada pela família Balsemão.
O objetivo estava definido: Pedro Barreto e Francisco Pedro
Balsemão (CEO) tentaram convencer seis a oito family office, muitos
delas famílias do Norte, a entrarem com cerca de
oito milhões de euros cada (em capital e prestações acessórias),
mas, perante o risco, e a situação financeira crescentemente apertada, nenhuma
aceitou o desafio. Ficou, no final, a família
Soares dos Santos, que admitiu entrar sozinha na operação, com um
investimento acima dos 50 milhões de euros. Exigia um haircut da banca,
de pelo menos 30%, e poder de decisão nos destinos do grupo. Ao que o ECO
apurou, em determinado momento, houve mesmo a possibilidade de a família Soares
dos Santos entrar em parceria com um investidor da indústria, precisamente a
Mediaset, grupo italiano que, desde 2021, tem a denominação de MFE –
MediaForEurope, através da consolidação da Mediaset Itália e Mediaset España,
permitindo sinergias nos dois mercados.
O entendimento com a família que controla a Jerónimo Martins
caiu, mas ficaram os italianos, um gigante comparado com a Impresa, que fatura
cerca de três mil milhões de euros e tem operações em Itália, Espanha e
Alemanha. E caminha para ter agora em Portugal. Financeiramente, a MFE — cotada
nas bolsas de Milão e Madrid — mantém resultados sólidos. Em 2024, a receita
consolidada atingiu 2,95 mil milhões de euros, com lucros de 137,9 milhões de
euros. Já este ano, o grupo liderado por Píer Silvio Berlusconi registou um
lucro líquido de 51,4 milhões de euros. A dívida líquida consolidada caiu para
460,9 milhões de euros, uma queda de 33,3% em relação aos 691,5 milhões no
final de 2024, enquanto a dívida financeira líquida ajustada caiu para 340,7
milhões.
O que torna, afinal, o negócio uma urgência?
Em junho, Francisco Pedro Balsemão afirmou no congresso da
APDC: “Não estamos fechados à entrada de entidades ou pessoas de fora. Se for
uma relação win-win, não fechamos essa porta”. Perante o quadro
financeiro do final de 2024 — e 2025 ter-se-á agravado –, as portas estão agora
escancaradas. Vamos aos números da ‘mãe’ e da ‘filha’ em 2024, últimos números
(negros) oficiais e comunicados ao mercado, piores de ano para ano.
A
‘empresa-mãe‘, a Impresa SGPS, é a empresa cotada, mas a sua fonte principal de
receitas é a SIC, a ‘empresa-filha‘ operacional, e uma vive basicamente à custa
da outra. A SGPS não tem receitas próprias e depende integralmente dos
dividendos distribuídos pelas suas subsidiárias, a SIC e, em menor grau, a
Impresa Publishing, que tem o Expresso. Em 2024, segundo o relatório e
contas, o dividendo recebido pela holding foi de 8,3 milhões de euros, só que
os seus encargos financeiros ascenderam a 8,4 milhões de euros. Ou seja, os
dividendos já não chegam para pagar sequer os juros, muito menos os restantes
custos de estrutura.
O relatório e contas de 2024 deixou claro o estado de
fragilidade da Impresa SGPS. O grupo registou perdas líquidas de 56,1 milhões
(em termos individuais), e um prejuízo consolidado de mais de 66 milhões, sem
paralelo, em grande parte devido a uma imparidade de 53,9 milhões de euros em
participações financeiras. Esta decisão contabilística destruiu valor e levou o
capital próprio da holding para 93,8 milhões, face a 150 milhões em 2023, uma
quebra de 37%. Neste contexto, a erosão patrimonial traduziu-se numa autonomia
financeira de apenas 42%, em forte queda face a anos anteriores, e expôs a
necessidade de recapitalização. E o negócio com o grupo italiano que está agora
em cima da mesa.
A situação de tesouraria, medida a 31 de dezembro de 2024, é
ainda mais severa. A liquidez imediata fixou-se em 0,03, um rácio que significa
que, para cada euro de obrigações de curto prazo, a Impresa SGPS só tem três
cêntimos disponíveis. O fundo de maneio, esse, era negativo em quase 107
milhões de euros e confirmava uma incapacidade estrutural de cobrir
responsabilidades correntes com os ativos disponíveis.
O quadro de dificuldades não termina aqui. Uma das rubricas
mais relevantes do balanço da Impresa SGPS mostra 85,7 milhões de euros de
“Acionistas/sócios” no chamado passivo corrente, isto é, dívidas da empresa aos
seus próprios acionistas, classificadas como obrigações de curto prazo. Esse
valor é elevado quando comparado ao ativo corrente total, e significa que a
Impresa depende hoje de financiamento informal que pode, a qualquer momento,
“cobrar juros” ou exigir vencimento.
É aqui que chegámos à chamada ‘empresa-filha‘. A SIC ainda é
a máquina de gerar receitas do grupo, mas os dividendos que alimentam a Impresa
estão a ser pagos à custa de dívida e de erosão dos capitais próprios. É um
castelo financeiro com fundações cada vez mais estreitas. Os resultados
operacionais (ainda) são positivos, mas sem capacidade de sustentar dividendos
no nível exigido pela holding sem recorrer a endividamento. Dito de outra
forma, a empresa-mãe depende da SIC, mas a SIC está a comprometer a sua própria
saúde financeira para alimentar a holding.
Em 2024, a SIC faturou 151,2
milhões de euros (-1,3% face a 2023) e
obteve um resultado líquido de 4,8 milhões, menos 43% em termos homólogos,
EBITDA ajustado (resultado operacional) cresceu 11% para 17,4 milhões, sinal de
que a operação revelou margem de resiliência, mas a rentabilidade líquida
degradou-se.
Estrutura financeira:
1. Capital próprio: 17,6 milhões (21,1 milhões
em 2023, uma quebra de 17% num só ano).
2. A autonomia financeira: 8,97% (abaixo do
nível de risco, fixado em 10%)
3. Solvabilidade: 9,86%
Neste contexto, é evidente o nível de alavancagem, isto é,
de endividamento da SIC. Para cada euro de capitais próprios, havia no final de
2024 dez euros de dívida. Segundo o relatório e contas, só em passivo não
corrente (isto é, dívida de médio e longo prazo), o salto nas contas de 2024
foi de 66,2 milhões para 96,3 milhões, um aumento de 45%. Já o fluxo de caixa
operacional foi negativo em 1,25 milhões em 2024, depois de ter sido positivo
em 3,7 milhões em 2023. Assim, a sociedade só melhorou a ‘caixa’ através do
financiamento (entrada de 35,6 milhões em novos empréstimos) e dividendos
recebidos (880 mil euros). Ou seja: para distribuir dividendos à holding, a SIC
endividou-se.
Neste contexto, as emissões de obrigações, com o recurso a
‘caras’ da estação em campanhas de publicidade, foram a solução possível, mais
cara, para arranjar financiamento que os bancos passaram a cortar. A SIC emitiu
em julho de 2024 um novo empréstimo obrigacionista a retalho de 48 milhões de
euros, com taxa de juro fixa de 5,95% ao ano e maturidade em julho de 2028. A
procura, atraída pelo juro pago, levou a empresa a aumentar a oferta, de um
valor inicial de 30 milhões, num sinal da dependência do grupo de financiamento
junto dos pequenos investidores.
Esta emissão serviu também para viabilizar a troca parcial
das obrigações SIC 2021–2025, que pagavam 3,95% e tinham vencimento previsto
para junho de 2025. Os obrigacionistas aceitaram antecipar o reembolso,
permitindo alongar prazos e aliviar pressões imediatas de tesouraria, ainda que
a custo de um juro mais elevado.
Veja o círculo vicioso:
SIC, a ‘filha’ que paga a conta:
• Lucro em 2024: 4,8 milhões de euros
• EBITDA: 17,4 milhões de euros
• Volume de negócios: 151 milhões de euros
• Dividendos: 8,3 milhões de euros (quase o
dobro do lucro do ano)
• Fluxo de caixa operacional: ~ 1,25 milhões
de euros
• Capitais próprios: 17,6 milhões de euros
• Autonomia financeira <10%
Impresa SGPS, a ‘mãe’ endividada
• Prejuízo consolidado: 66,4 milhões de
euros
• Earning Per Share: -0,394 cêntimos
• Prejuízo da Impresa (contas individuais):
56,1 milhões de euros
• Capitais próprios: 93,8 milhões de euros
(e a descerem de forma acelerada)
Tendo em conta os resultados da SIC, como é que financia os
dividendos que paga à Impresa SGPS?
Há basicamente quatro fontes de financiamento:
1. Dívida financeira (bancos e afins). Em 2024,
a SIC registou entradas de “Financiamentos obtidos” de 35,6 milhões de euros e
amortizações de 14,5 milhões. O saldo positivo desta rubrica, cerca de 21
milhões, é a principal fonte líquida de caixa no ano, e foi daqui que saiu a
“margem” para pagar dividendos a montante.
2. Rendimentos financeiros recebidos (juros), muito
provavelmente de empréstimos intragrupo. A SIC recebeu 5,7 milhões
de euros em “Juros e rendimentos similares” em caixa em 2024. Este encaixe
recorrente ajuda a compensar um cash-flow operacional negativo e reforça a
almofada de liquidez usada para financiar dividendos.
3. Existe ainda a rubrica “Accionistas/sócios” de 85
milhões de euros no ativo não corrente. Tipicamente, configura
empréstimos concedidos ao acionista (a SGPS), que tende a gerar juros a receber
os rendimentos financeiros identificados em cima.
4. Finalmente, dividendos recebidos de participadas. Em
2024, a SIC recebeu 880 mil euros em dividendos, uma entrada de caixa modesta,
mas que também entra na “pool” que ajuda à distribuição daqueles 8,4 milhões de
euros à Impresa GGPS.
Sistematizando, de onde veio (e para onde foi) o dinheiro da
SIC?
• Dívida nova: 35,6 milhões.
• Pagou dividendos: 8,3 milhões de euros.
• Amortizou dívida antiga: 14,6 milhões de
euros.
• Recebeu Juros: 5,7 milhões
• Recebeu dividendos: 880 mil euros.
• Resultado Operacional: -1,3 milhões.
O quadro é simples de perceber, os dividendos para pagar à
Impresa SGPS dependem de financiamento, e virtualmente impossível de resolver
sem uma entrada de capital fresca (e forte). O balanço da SIC revela 85 milhões
de euros a receber do acionista, a Impresa SGPS, mas a holding, como fica
claro, tem capitais próprios e resultados sob forte pressão.
A SIC tem assim duas alternativas ‘impossíveis’: Cortar dividendos e ‘secar’ a cotada Impresa SGPS, com consequências imprevisíveis, ou aumentar a dívida, que já está num nível elevado e a pressionar os rácios, e fazer espoletar os chamados covenants, isto é, as cláusulas que permitem aos credores exigir o reembolso imediato de empréstimos. Dito de outra forma, se a SGPS não reembolsar (ou renegociar?) estes financiamentos, a SIC fica ‘entalada’ entre juros e um dividendo que é superior ao seu próprio lucro, a bomba-relógio que agora está nas mãos da família de Berlusconi.
Nas contas consolidadas da Impresa SGPS entram ainda as da
Impresa Publishing, a segunda ‘empresa-filha’ que edita o Expresso. Segundo o
relatório e contas daquela sociedade, o volume de negócios em 2024 foi de cerca
de 23 milhões de euros (-6% face a 2023), o EBITDA de cerca de 1,83 milhões
(+6%) e o resultado líquido foi de 1,5 milhões, uma ligeira descida face ao ano
anterior. De resto, as contas mostram um balanço em 2024 ‘arrumado’ por
operações de engenharia financeira dentro do universo empresarial. A eliminação
do saldo de “acionistas/sócios” a receber (de 6,56 milhões de euros para zero)
e a queda dos “Outros instrumentos de capital próprio” de 29 milhões para cerca
de 400 mil euros apontam para operações intragrupo, seja perdão, compensação ou
eventualmente reclassificação.
Com capitais próprios de 2,9 milhões de euros e uma
autonomia financeira da ordem dos 20%, esta subsidiária é a ‘boa-filha’, mas
tem uma folga limitada para distribuir dividendos relevantes à holding.
Para já, o comunicado da Impresa admite oficialmente que a
Impreger, a principal acionista nesta cascata de empresas, está a “desenvolver
contactos, em exclusividade, com o grupo MFE com vista à avaliação de
potenciais operações societárias para a aquisição de uma participação relevante
na Impresa”, mas não se sabem os termos do negócio. A referência a uma
“aquisição” pode ser uma força de linguagem, e o caminho poderá vir a ter duas
alternativas: A Mediaset compra a empresa operacional, a SIC, deixando de fora
a Impresa Publishing, que tem o Expresso, ou avançar para um aumento de capital
da Impreger ou da própria Impresa SGPS, que servirá para reforçar os capitais e
a estrutura financeira do grupo, diluindo assim todos os outros acionistas.
Sobra, sobre o que vier a ser o negócio com a MFE, uma
pergunta, ainda sem resposta: Quem ficará a mandar no ‘novo’ grupo?
Fonte: ECO, 27 de setembro de 2025

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