Responsável da NATO compara intrusões russas com violações soviéticas de 1939

Perry Mason (1957-1966) – Kaye Elhardt

O principal responsável militar da NATO comparou este sábado as violações soviéticas do espaço aéreo do Báltico há 86 anos com as intrusões de drones russos registadas nos últimos dias no espaço europeu, considerando que os incidentes são mais do que provocações.

A 25 de setembro de 1939, os bombardeiros e aviões de reconhecimento soviéticos violaram o espaço aéreo dos três Estados bálticos: Letónia, Lituânia e Estónia. Estas incursões foram mais do que uma mera provocação. Foram o sinal inicial da determinação de Moscovo em impor a sua vontade”, afirmou o almirante italiano Giuseppe Cavo Dragone na abertura de uma reunião do Comité Militar da Aliança Atlântica, que decorre em Riga.

“Esse momento deve ressoar profundamente em nós hoje”, defendeu, perante os principais comandantes militares dos 32 países da NATO (Organização do Tratado do Atlântico do Norte).

As principais violações soviéticas de 1939 incluíram a invasão da Polónia após a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, que dividia o país em esferas de influência com a Alemanha nazi.

“Por duas vezes, no espaço de duas semanas, o Conselho do Atlântico Norte reuniu-se ao abrigo do Artigo 4.º [consultas mútuas quando os Estados-membros da NATO considerem estar ameaçada a integridade territorial, a independência política ou a segurança de uma das Partes]”, lembrou o presidente do Comité Militar da Aliança.

“Vários aliados, incluindo a Estónia, a Finlândia, a Letónia, a Lituânia, a Noruega, a Polónia e a Roménia, sofreram violações do espaço aéreo russo”, acrescentou.

Outros participantes na sessão de abertura sublinharam que a invasão da Ucrânia pela Rússia e as ações de guerra híbrida contra os seus vizinhos constituem atualmente a principal ameaça à segurança da Aliança.

O presidente da Letónia, Edgars Rinkevics, disse aos líderes militares reunidos que, na perspetiva de Riga, a avaliação da situação “é clara” e que a Rússia representa “uma ameaça a longo prazo à segurança euro-atlântica”.

Rinkevicks aludiu ainda à “pressão diária com a migração ilegal” que o seu país sofre como parte das táticas híbridas da Rússia e da Bielorrússia, que, segundo adiantou, levaram cerca de 10 000 migrantes e requerentes de asilo a serem rejeitados na fronteira com a Bielorrússia só este ano.

Para o comandante-chefe das Forças Armadas da Letónia, o major-general Kaspars Pudans, a agressão russa estende-se para além da Ucrânia e faz “parte de uma campanha mais ampla contra o continente [europeu], cujo impacto se faz sentir a nível global” com tentativas de coerção energética e económica e esforços para reformular as normas internacionais.

Estamos a assistir a ameaças de 360º, que abrangem invasões do espaço aéreo, campanhas de desinformação, ataques cibernéticos e a manipulação de instituições democráticas”, afirmou Pudans.

O comandante-chefe das Forças Armadas da Letónia enfatizou ainda que a Ucrânia “não está apenas a defender a sua soberania, mas também a credibilidade da ordem internacional” e defendeu que este conflito se tornou num “laboratório para a guerra moderna”, onde a força convencional se entrelaça com ataques cibernéticos, desinformação e novas tecnologias.

A reunião do Comité Militar da NATO, a mais alta autoridade militar da Aliança, visa debater as questões já levantadas na cimeira de líderes em Haia, particularmente o reforço da dissuasão e defesa coletivas, de acordo com um comunicado da instituição.

Participam ainda na reunião o Comandante Supremo Aliado da Europa (SACEUR), general Alexus G. Grynkewich, e o Comandante Supremo Aliado da Transformação (SACT), almirante Pierre Vandier.

A reunião termina hoje com uma conferência de imprensa de Cavo Dragone e Pudans.

As consultas entre membros da NATO foram marcadas na sequência da invocação do artigo 4.º pelo primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, depois de o espaço aéreo do seu país ter sido invadido por drones russos.

Nos últimos dias, foram registadas dezenas de intrusões nos espaços aéreos de vários países — além da Polónia, também a Estónia, a Roménia, a Lituânia e Dinamarca -, tendo o caso mais grave sido o da Estónia, onde três caças russos MiG-31 permaneceram em território da NATO durante 12 minutos.

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, defendeu as ações da organização no incidente na Estónia, no qual os caças russos foram escoltados por forças italianas, suecas e finlandesas, mas assegurou que aquelas aeronaves não representavam uma ameaça direta à segurança dos aliados.

De qualquer forma, o caso gerou debate sobre se a NATO deveria abater todas as aeronaves que invadissem o seu espaço aéreo, depois de a Polónia ter avisado que iria agir sem hesitação.

Rutte abriu caminho para abater aviões russos “se necessário”, mas esclareceu que estas ações seguem uma série de protocolos e avaliações. “Isto não significa que vamos sempre abater um avião imediatamente”, ressalvou.

Desde que o Tratado do Atlântico Norte foi assinado, em 1949, esta é a oitava vez que o Artigo 4.º é acionado, sendo que, depois das consultas, os países podem passar para o Artigo 5.º, que determina que um ataque armado contra um ou mais dos membros da organização é considerado um ataque contra todos.

Até hoje, este artigo só foi acionado uma vez, depois do ataque às Torres Gémeas dos Estados Unidos, a 11 de setembro de 2001.

Fonte: CNN Portugal, 27 de setembro de 2025

Na era da covid, o medo deixou de ser apenas uma emoção: tornou-se recurso económico e instrumento de governo. Amplificado, diariamente, através de médicos, matemáticos, peritos académicos de sabedoria registada, transformou-se em política pública e em espetáculo mediático. Quem capitalizou esse pânico foi a indústria farmacêutica, então elevada a protagonista absoluta da economia global. Vendeu-se não apenas vacinas, mas sobretudo segurança simbólica num tempo de incerteza. A estratégia era clara: medo gera investimento, investimento gera lucros.

Dados concretos confirmam isso. Durante a pandemia, os lucros das grandes farmacêuticas dispararam: em 2020, uma seleção de empresas do topo lucrou cerca de 83,4 mil milhões de dólares, valor que subiu para 188 mil milhões em 2022. As margens foram também extraordinárias — por exemplo, a BioNTech teve margem de cerca de 54%, a Moderna cerca de 51%, e a Pfizer cerca de 28% sobre vendas relacionadas com covid-19.

Hoje, o palco mudou, mas o guião repete-se. A indústria dominante já não é a farmacêutica, mas o complexo industrial militar. Sem surpresa, foi precisamente esse sector que garantiu oxigénio económico aos Estados Unidos durante o abalo provocado pelo encerramento das economias na pandemia: contratos, produção, reforço dos orçamentos de defesa evitou a recessão. Os líderes compreenderam a lição — o medo é um recurso inesgotável, basta saber onde carregar o polegar.

Também aqui os números não deixam espaço para dúvida. Entre 2020 e 2024, firmas privadas receberam cerca de 2,4 biliões de dólares em contratos do Pentágono — o que correspondeu a cerca de 54% das despesas discricionárias desse departamento durante esse período. Apenas cinco empresas — Lockheed Martin, RTX (antiga Raytheon), Boeing, General Dynamics e Northrop Grumman — receberam 771 mil milhões desses contratos.

O gasto militar global também está em alta: em 2024, segundo o SIPRI, os países da NATO tiveram um gasto combinado em defesa de cerca de 1,5 biliões de dólares, ou cerca de 55% do total mundial. Os Estados Unidos sozinhos gastaram quase 1 bilião de dólares desse total (997 mil milhões), representando cerca de 37% de todo o gasto militar global.

Agora, não se trata de vírus invisíveis, mas de drones e aviões russos a sobrevoarem o imaginário coletivo. Os relatórios multiplicam-se: incursões sobre o espaço aéreo da Polónia, da Dinamarca, da Roménia, da Alemanha, da Estónia, da Finlândia, da Letónia, da Lituânia, da Noruega... A mesma pedagogia do pavor é posta em marcha. A cada notícia, o cidadão é lembrado de que o perigo é real, de que só a despesa militar o pode conter.

Assim, a engrenagem repete-se: medo amplificado, investimentos garantidos, lucros assegurados. O inimigo muda de nome, mas a lógica mantém-se. A economia política do medo tornou-se o motor mais fiável da nossa era.

Com lucros tão garantidos, o mercado tornou-se terreno fértil onde brotam novos players a cada susto:

Kiev quer começar a exportar armas de fabrico nacionais

O governo ucraniano está a trabalhar para expandir a produção de defesa e começar a exportar armas de fabrico nacional, anunciou este sábado o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

"Estamos a trabalhar para expandir a nossa produção de defesa e iniciar exportações controladas de armas ucranianas, um outro acordo foi alcançado sobre isso e já estamos a trabalhar com quatro países para abrir plataformas de exportação", escreveu o líder ucraniano nas redes sociais, numa mensagem de balanço da participação na 80.ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Em declarações à imprensa citadas pela agência noticiosa Ukrinform, o presidente ucraniano explicou que apenas as armas que não estejam em falta serão exportadas para parceiros — na Europa e no Médio Oriente, bem como países de África e Estados Unidos —, uma vez que a prioridade são as Forças Armadas Ucranianas.

"E nas áreas onde produzimos mais, podemos exportar o restante e ganhar dinheiro dessa forma, para que possamos investir em bens que estão em falta — drones, intercetores, drones de longo alcance — coisas para as quais não há dinheiro suficiente", declarou.

Zelensky comentou que este sistema beneficia o Exército, embora o setor empresarial prefira poder exportar todos os tipos de armas imediatamente.

"Isto será assim até ao fim da guerra: as exportações de armas serão controladas", ressalvou.

Na mesma publicação nas redes sociais, Zelensky sublinhou que, durante a semana de alto nível da ONU, a Ucrânia participou em mais de 40 formatos de reuniões com aliados e países amigos a diferentes níveis e que várias reuniões organizadas pelo seu país atraíram um número recorde de participantes.

O presidente também se referiu a uma série de acordos alcançados durante o encontro com o homólogo norte-americano, Donald Trump, que descreveu como "muito produtivo".

Zelensky também apontou que há "sinais positivos" dos parceiros da Ucrânia sobre o possível uso de fundos russos congelados para a defesa e reconstrução do país invadido pela Rússia em fevereiro de 2022 – a Alemanha, por exemplo, mostrou-se aberta a esta medida, que antes rejeitava.

O chefe de Estado ucraniano reiterou que é necessário aumentar a pressão sobre a Rússia para acabar com a guerra.

Fonte: CNN Portugal, 27 de setembro de 2025

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eva Vlaardingerbroek