Um refúgio para racistas?
Beyond
Paradise (2023) – Abdul Salis, Brandon Fellows
A
recente publicação da Universidade de Edimburgo sobre o racismo falsifica a
história e catastrofiza o presente, sugerindo que as atitudes em relação à raça
pouco mudaram desde a fundação da universidade em 1583
A Universidade de Edimburgo publicou recentemente Decolonised
Transformations: Confronting the University of Edinburgh’s History and Legacies
of Enslavement and Colonialism (doravante, o Relatório), um exame
das crenças e atitudes racistas e colonialistas na instituição desde o século
XVIII até ao presente. O documento alega expor práticas racistas ao longo de
três séculos e sustenta que, embora a forma do racismo tenha mudado, a
Universidade de Edimburgo continua a discriminar fortemente as pessoas negras,
em especial estudantes e académicos negros.
Apesar de ser uma das principais universidades de
investigação do mundo, o Relatório sugere que o racismo permanece tão
venenoso como sempre, e que o apoio ao colonialismo continua bem vivo na
instituição. No passado, escrevem os autores, a universidade foi “um refúgio
para professores e antigos alunos que desenvolveram teorias de inferioridade
racial” — e, afirmam, ainda o é hoje.
O surto de paranoia em torno do racismo na Universidade de
Edimburgo, que levou à encomenda do Relatório, remonta a 2020. Em setembro
desse ano, alguns estudantes chamaram a atenção para uma nota de rodapé que o
filósofo David Hume acrescentou à edição de 1753–54 do seu ensaio Of
National Characters. Nessa nota, Hume escreve:
“Tendo a suspeitar que os negros sejam naturalmente
inferiores aos brancos. Nunca houve propriamente uma nação civilizada dessa
compleição, nem sequer algum indivíduo notável, seja na ação ou na especulação.
Não há entre eles manufaturas engenhosas, nem artes, nem ciências. Pelo
contrário, os mais rudes e bárbaros entre os brancos, como os antigos Germanos
ou os atuais Tártaros, possuem ainda assim algo de eminente, seja na coragem,
na forma de governo ou em qualquer outro aspeto. Uma diferença tão uniforme e
constante não poderia ocorrer, em tantos países e épocas, se a natureza não
tivesse estabelecido uma distinção original entre estas raças de homens. Para
não falar das nossas colónias, há escravos negros espalhados por toda a Europa,
dos quais nenhum jamais revelou qualquer indício de engenho; ao passo que entre
nós, até pessoas humildes, sem educação, surgem e se distinguem em todas as
profissões. Na Jamaica, de facto, fala-se de um negro tido como homem de
talento e saber; mas é provável que seja admirado por feitos de pouca monta,
como um papagaio que pronuncia algumas palavras com clareza.” (a)
Hume exprimia um sentimento comum na sua época, embora não
fosse universalmente partilhado, nem sequer pelos seus próprios contemporâneos.
James Beattie, por exemplo,
apresentou uma refutação detalhada desta passagem na sua obra de 1770, An
Essay on the Nature and Immutability of Truth.
“Que um escravo negro, que não sabe ler nem escrever, nem
falar qualquer língua europeia, que não tem permissão para fazer senão aquilo
que o seu senhor lhe ordena, e que não possui um único amigo na terra, sendo
universalmente considerado e tratado como se fosse de uma espécie inferior à
humana; — que uma tal criatura conseguisse distinguir-se entre os europeus ao
ponto de ser comentado em todo o mundo como um homem de génio, não é certamente
uma expectativa razoável.”
Como resultado de o rodapé se ter tornado amplamente
conhecido, uma parte do corpo estudantil exigiu que a torre David Hume da
universidade fosse renomeada. O vice-chanceler, Sir Peter Mathieson, acedeu de
imediato, aparentemente sem consultar o corpo docente, mas com o apoio dos
ativistas. Para agravar ainda mais o impacto do rodapé, um doutorando chamado
Felix Waldmann descobriu uma carta de 1766, na qual acredita que Hume
encorajava o seu patrono, Lord Hertford, a comprar plantações em Granada
trabalhadas por escravos. Waldmann, então já académico em Cambridge, escreveu
um comentário no Scotsman com o título: “David Hume foi um brilhante
filósofo, mas também um racista envolvido na escravatura.”
O dr. David Ashton e o professor Peter Hutton argumentaram
que se trata de uma deturpação de Hume. Na sua carta a Hertford, escrevem eles,
Hume estava simplesmente a atuar como intermediário, transmitindo uma mensagem
de um conhecido em comum, em vez de fazer uma recomendação. Argumentam que não
há evidências de que Hume apoiasse a escravatura. De facto, ele estava
comprometido com a ideia de que todos os seres humanos são igualmente dignos de
direitos e liberdades. Escrevem ainda:
“As definições modernas de racismo têm no seu núcleo uma
justificação para uma disparidade de poder… mas é precisamente esta disparidade
de poder que Hume combateu de forma implacável. … As conquistas de Hume em
favor da humanidade — defendendo ideais de tolerância, humanidade, justiça,
cultura e liberdade — têm sido de influência incalculável.”
John Lloyd
Fonte: Quillette, 9 de setembro de 2025
(a) Francis Williams (1700–1770), um poeta e erudito jamaicano negro. Williams nasceu em Kingston, filho de antigos escravizados que tinham ganhado riqueza. Foi educado em Inglaterra e, segundo algumas fontes (ainda debatidas), terá estudado em Cambridge. Regressou à Jamaica, onde dirigiu uma escola para crianças negras livres. Escreveu poesia em latim (um feito raro para qualquer erudito da época, quanto mais para um homem negro nas colónias).

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