A exceção normal & colossal
The Hunting
Party (2025) - Jennifer Copping
O que
se passa no nosso país é corrupção tornada legal, feita letra de lei,
institucionalizada. Corrupção de Estado que devora tudo à sua volta, contamina
todas as demais estruturas, por aí abaixo até às juntas de freguesia
Vocês não acham absolutamente incrível e mirabolante que a
segunda maior despesa do Estado em 2026 seja em exceções?! O novo Orçamento do
Estado prevê que se gastarão, em despesas excecionais, 15,6 mil milhões. 15 600
000 000 euros!
Todos os anos, têm sido aprovados orçamentos que contêm um
saco azul colossal para distribuir milhões aos amigos, por baixo da mesa.
Trata-se de 10% desse mesmo Orçamento, as chamadas “despesas excecionais”, sem
qualquer escrutínio, sem pinga de controlo, transparência ou utilidade
social.
Mas não é só a Presidência que fecha os olhos. Nenhum
partido da Assembleia da República — do Chega ao Bloco — tem revelado pinga de
incómodo com isso.
Estas Despesas Excecionais são o segundo maior valor, logo a
seguir à Saúde! Custam mais do que a Justiça ou a Educação. É muito, muito,
dinheiro! E não para de aumentar. No ano passado foram 13 mil milhões, este ano
já subiu. A coisa começou há uma década e continua a sangrar o dinheiro dos
contribuintes.
Este mastodôntico Ministério-Fantasma, totalmente opaco, por
exemplo não especifica os destinatários de cerca de cinco mil milhões
orçamentados para empréstimos de médio e longo prazo. Da mesma forma, existem
cerca de dois mil milhões em aumentos de capital em empresas públicas que não
estão identificadas, indicando arbitrariedade no destino dos nossos recursos.
Quando se referem somas com nove zeros, estamos a falar de
10 vezes a recuperação das carreiras de todos os funcionários públicos. 15 mil
milhões de euros são mais de 38 grandes hospitais como o de Lisboa Oriental.
Seria suficiente para resolver, de uma só vez, o problema da habitação na
capital ou construir um novo aeroporto todos os anos.
Mais de 15 000M€ para despesas “extraordinárias” é o valor
do PRR, ou dava para aumentar em centenas de euros mensais os nossos
reformados, muitos idosos que passam frio e fome.
Enfim, estas despesas excecionais nunca deviam passar 1%.
Nunca deviam ser aprovadas nem pelos deputados em São Bento, nem pelos
presidentes em Belém. Os parlamentares só serão representantes do povo quando
chumbarem orçamentos destes e o presidente da República só será Chefe de Estado
de Portugal quando o vetar e, assim, cumprir e fizer cumprir a Constituição da
República Portuguesa.
Acontece que a própria Presidência da República não dá o
exemplo. Bem antes pelo contrário. O seu
orçamento (parte do OE), tem aumentado mais 1M€ todos os anos. Em 2026, cada contribuinte em Portugal já vai pagar 12,6
vezes mais pela Presidência da República do que cada contribuinte espanhol paga
pela Casa Real. Mas como esta jamais esgota o seu orçamento, é de
esperar que esta diferença exceda 13 vezes mais.
O que se passa no nosso país é corrupção tornada legal,
feita letra de lei, institucionalizada. Corrupção de Estado que devora tudo à
sua volta, contamina todas as demais estruturas, por aí abaixo até às juntas de
freguesia. Enquanto este assalto à mão armada e à luz do dia perdurar, sem que
nenhum jornalista faça uma pergunta incómoda que seja, Portugal continuará a
ser um país pobre. Aliás, não precisam de fazer mais longas elucubrações sobre
a origem da nossa miséria — não somos nem pouco trabalhadores, nem pouco
educados — somos, sobretudo, roubados por elites corruptas.
Conseguimos que a exceção se torne numa norma colossal. Ano após ano até ao estertor final.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 22 de outubro de 2025

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