Andar como um animal: ela move-se em quatro apoios e intriga a internet
Enquanto alguns praticam corrida ou ciclismo, Alexia é
adepta do chamado “movimento Tarzan” — um estilo peculiar de caminhada. Em
plena harmonia com a natureza, esta jovem documentarista cuida de si própria
imitando a postura natural e primitiva dos nossos antepassados. Uma abordagem singular,
especialmente popular entre crianças pequenas, que beneficia o corpo sem
parecer um exercício.
Popularizar o “movimento Tarzan”
As autoridades de saúde pública recomendam dar 10 000 passos
por dia, e cada um tem a sua própria maneira de atingir essa meta. Há quem use
bastões de caminhada e mantenha um ritmo acelerado. Outros preferem os passeios
urbanos, de ténis impecáveis e mochila ao ombro. E há também Alexia Kraft de la Saulx — conhecida no Instagram como @alexias.films —
que caminha em quatro apoios, da floresta ao asfalto. Vendo a sua sombra
projetada entre os abetos, a silhueta faz lembrar a de um primata. Os macacos são, aliás, a sua principal inspiração.
De tranças loiras e olhos azuis, Alexia tem um ar de Heidi
moderna. Cresceu no campo, num ambiente propício à exploração e ao contacto com
a natureza. Como explicou no programa This Morning, sempre se sentiu
“ligada à natureza”. É daquelas pessoas que sente o pulsar da Terra a cada
passo. No entanto, acabou por se mudar para a cidade para desenvolver a sua
carreira como realizadora, afastando-se do meio que tanto a nutria.
Boémia de coração, cruzou-se
um dia com um “homem-macaco” num parque, e foi ele quem lhe
transmitiu esta curiosa paixão. Embora andar sobre duas pernas seja uma das
primeiras aprendizagens da infância, Alexia decidiu esquecer essa noção e
voltar a deslocar-se em quatro apoios. Deixou os sapatos no armário para
caminhar com os pés e as palmas das mãos apoiados no chão. Ao contrário das crianças, que arrastam os joelhos,
Alexia executa um movimento mais fluido e completo. Longe das
brincadeiras na caixa de areia, ela trabalha os músculos profundos e fortalece
todo o corpo.
Os seus vídeos, centrados no exercício dos quadríceps,
tornaram-se virais — já ultrapassaram os 80 milhões de visualizações.
Os benefícios que ela obteve com isso
Andar de gatas não é apenas mais uma moda passageira de
bem-estar; é uma disciplina exigente e
espiritual — uma verdadeira filosofia de vida. A jovem, desligada do
mundo moderno, empoleira-se nas árvores, balança-se de cipó em cipó e deixa as
suas pegadas na lama, domesticando cada fragmento da natureza. Enquanto os
atletas contemporâneos se exercitam em ginásios, ela encontra o seu parque de
diversões ao ar livre. “É como o parkour, mas na natureza”, explica com
simplicidade.
E não está sozinha a escalar montanhas íngremes descalça e a
rastejar fora dos trilhos turísticos. Faz parte de uma comunidade restrita: uma
espécie de tribo de “Tarzans” em ascensão que partilham esta mentalidade de
regresso às origens. Para além de rastejar, levam um estilo de vida minimalista
e rejeitam invenções contemporâneas duvidosas — como lâminas de barbear ou
cremes antienvelhecimento.
Estas pessoas, frequentemente comparadas a hippies ou a
marginais, não agem sob o efeito de substâncias ilícitas. Têm plena consciência
dos seus atos. Rastejar é, por si só, um desporto. A própria Alexia confirma:
após três anos de prática, ganhou flexibilidade, força e equilíbrio. As suas
costas nunca estiveram tão tonificadas desde que começou a mover-se em quatro
apoios.
As reações dos internautas
Os vídeos de Alexia rapidamente se tornaram virais. No
entanto, nem sempre foram recebidos com gentileza ou respeito. Na secção de
comentários, muitos internautas mostraram-se perplexos ou divertidos com as
imagens, que consideraram “surreais” e “ridículas”. Claramente, não
compreendiam o sentido deste movimento primitivo. Constantemente comparada às
criaturas disformes dos filmes de terror, Alexia tornou-se alvo de críticas e
troça — presa fácil dos haters.
“Lucy deve estar a revirar-se no túmulo”, “Deixem-me
adivinhar — é vegana, reduz as emissões de CO₂ nadando no rio e identifica-se
como ela/eles/gato/cavalo”, “Evolução ao contrário”... Todos os comentários
recorrem ao mesmo vocabulário de escárnio.
Ainda assim, todos os anos surgem novas atividades físicas nos
ginásios da moda, e muitos levantam questões semelhantes. O Pilates Reformer,
por exemplo, também foi alvo de piadas antes de conquistar reconhecimento. As influencers
do mundo fitness acabaram por lhe conferir a credibilidade necessária.
De qualquer forma, andar descalço ou em quatro apoios é uma
excelente forma de regressar ao essencial e de se reconectar com a natureza.
Esta prática, mal compreendida pelo grande público, combina os benefícios do
ioga, da musculação e do treino funcional.
Fonte: The Body Optimist, 8 de outubro de 2025
O “movimento Tarzan” e o primal fitness
O chamado “movimento Tarzan” insere-se numa tendência mais ampla conhecida como natural movement ou primal fitness, desenvolvida inicialmente por Georges Hébert no início do século XX e retomada nas últimas décadas por autores como Erwan Le Corre (criador do método MovNat).
Esta corrente defende um retorno às formas naturais de movimento humano — como saltar, rastejar, correr, trepar ou equilibrar-se — que caracterizavam os nossos antepassados antes da vida sedentária e da mecanização corporal imposta pelos ginásios. A prática procura restaurar a mobilidade integral, a força funcional e a coordenação instintiva perdidas com o estilo de vida moderno.
No caso de Alexia Kraft de la Saulx, a designação “movimento Tarzan” é uma variação estética e performativa dessa filosofia: combina o gesto físico de andar de quatro apoios com uma dimensão simbólica de reconexão com a natureza e rejeição das convenções urbanas.
O fenómeno reflete também uma tendência cultural contemporânea de espiritualização do corpo, em que práticas de origem primitiva, selvagem ou ritual são reinterpretadas como estratégias de autenticidade e resistência à artificialidade tecnológica da vida moderna.
A posição de gatas — hoje reinventada como gesto de reconexão com a natureza e forma de autotranscendência física — tem uma história bem mais antiga e mais espiritual. Antes de os missionários católicos e protestantes exportarem a sua “posição oficial” de cópula (de frente, recatada e devidamente hierarquizada), a postura animal, ou “canzana”, era considerada a forma mais natural de acasalamento em praticamente todas as culturas e espécies. A modernidade, ao erguê-la agora a exercício de bem-estar, não faz mais do que sublimá-la: transforma o instinto sexual em yoga existencial.
O homem agradece qualquer mulher nessa posição, nos jardins, nas ruas, na praça do Rossio; no metro, é a melhor forma de relaxar depois de um dia de trabalho – ela só tem de levantar o vestido ou baixar um pouco as jeans.


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