Genro de Trump afasta fundos de reconstrução em Gaza para áreas do Hamas
Perry Mason (1957-1966)
O genro do presidente norte-americano Donald Trump e um dos principais arquitetos do cessar-fogo na
Faixa de Gaza, Jared Kushner, afastou esta terça-feira a atribuição de fundos
de reconstrução para áreas no enclave palestiniano controladas pelo grupo
islamita Hamas.
"Nenhum fundo de reconstrução será atribuído a áreas
que o Hamas ainda controla", declarou Kushner, que hoje chegou a Israel
com o vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, e o enviado da Casa Branca
para o Médio Oriente, Steve Witkoff.
Citado pela imprensa israelita, o genro de Trump referiu
que, neste momento, estão em curso discussões
sobre o início da reconstrução em áreas controladas pelo Exército israelita,
que atualmente abrange cerca de metade do território palestiniano.
"Dar aos palestinianos que vivem em Gaza um lugar para
ir, um lugar para trabalhar, um lugar para viver. Essa é uma das muitas coisas
que estão a ser consideradas", afirmou.
A visita da delegação norte-americana ocorre num momento em
que se cumpre o 11.º dia do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, no âmbito de um
plano desenvolvido pelos Estados Unidos, com apoio dos restantes mediadores
internacionais, Egito e Qatar, e de vários países árabes.
Na sua primeira fase, que está em vigor, o plano estabelece
a troca de reféns em posse do Hamas por prisioneiros palestinianos, a retirada
parcial das forças israelitas do enclave e o acesso de ajuda humanitária ao
território.
A etapa seguinte, ainda por acordar, prevê a continuação da
retirada israelita da Faixa de Gaza, o desarmamento do Hamas, apesar da sua
resistência a este respeito, bem como a reconstrução e a futura governação do
enclave, que descarta um papel do grupo islamita.
Falando em conferência de imprensa com J.D. Vance no centro de coordenação civil-militar, criado
pelas autoridades israelitas e norte-americanas no sul de Israel, Kushner
defendeu a parceria entre os dois países para reconstruir Gaza e estabelecer
"uma paz duradoura".
Ao mesmo tempo, elogiou os primeiros 11 dias do cessar-fogo,
apesar dos confrontos ocorridos no domingo no território palestiniano.
"Muitas pessoas estão a
ficar um pouco histéricas com as diferentes incursões. Mas o que
estamos a ver é que as coisas estão a correr de
acordo com o plano. Ambos os lados estão em transição de dois anos
de guerra muito intensa para uma postura de paz", sustentou.
Na mesma conferência de imprensa, J.D. Vance descartou o
destacamento de tropas dos Estados Unidos para a Faixa de Gaza, e afastou um
prazo para a desmilitarização do Hamas.
O dirigente norte-americano indicou que, em alternativa, as
forças norte-americanas podem dedicar-se a "uma coordenação útil", no
âmbito do plano para o fim das hostilidades no enclave palestiniano.
"Como se consegue a presença dos Estados do Golfo, além
de Israel, além dos turcos e dos indonésios? Como se faz para que estas pessoas
trabalhem em conjunto para alcançar uma paz duradoura? Os únicos mediadores são
os Estados Unidos", defendeu J.D. Vance.
O líder norte-americano insistiu num aviso ao grupo islamita
"muito direto" de que se deve desarmar, no âmbito do plano de 20
pontos do presidente norte-americano, que "são muito claros" e
merecem o apoio não só de Israel, mas também de todos os países "amigos
árabes do Golfo".
Reconheceu, porém, que esse processo "levará algum
tempo".
A guerra na Faixa de Gaza foi desencadeada pelos ataques
liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais
morreram cerca de 1200 pessoas e 251 foram feitas reféns.
[Diz a sabedoria que para dançar o tango são sempre precisos dois. Nesse caso, não é evidente se os acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional e consolidar território — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia. (Os outros, a Jordânia ou a Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).
A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais. Netanyahu exibia então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns; a operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha; a lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo; a recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada; reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris; os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra no museu do Louvre.
Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.
A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais narrativas cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).
Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.
Numa abordagem mais realista, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, pelo lado absurdo, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.
A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro”
A justificação do erro informático é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.
A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito].
Fonte: RTP, 21 de outubro de 2025

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