Israel quer contratar Chris Pratt e Steph Curry
Nautilus
(2024) - Luke Arnold, Damien Garvey
O
Estado judaico procura apoio nas igrejas evangélicas cristãs, utilizando
celebridades e uma mensagem anti-palestiniana numa nova iniciativa de 3,2
milhões de dólares
Uma empresa recém-criada, chamada Show Faith by Works, está a realizar uma campanha de
divulgação e segmentação digital de 3,2 milhões de dólares para igrejas cristãs
no oeste dos Estados Unidos em nome do governo israelita. O objetivo da
empresa, tal como descrito no seu documento ao abrigo da Lei de Registo de
Agentes Estrangeiros, é aumentar "as
associações positivas com a Nação de Israel, ao mesmo tempo que liga a
população palestiniana a fatores extremistas".
A Show Faith by Works levará a cabo a campanha até dezembro,
no âmbito do seu trabalho que inclui dirigir publicidade pró-Israel a
frequentadores de igrejas através de “geofencing” (a) de grandes templos, contratar porta-vozes famosos
e visitar igrejas e universidades com um atrelado móvel chamado “10/7
Experience”, em nome do governo do primeiro-ministro israelita Benjamin
Netanyahu.
Num slide do plano proposto, a empresa listou uma série de
potenciais "porta-vozes cristãos famosos" para Israel, incluindo os
atores Jon Voight e
Chris Pratt, o
ex-jogador da NFL Tim
Tebow, o jogador da NBA Steph Curry e vários pastores de megaigrejas. De acordo com o
documento, espera-se que os atletas e celebridades "transmitam mensagens
pró-Israel".
Em resposta a uma pergunta sobre se Jon Voight recebeu uma
oferta para trabalhar como porta-voz de Israel, Siri Garber, executiva de
relações públicas que representa o ator, explicou num e-mail que não tinha
conhecimento de qualquer oferta.
"Que eu saiba, não, mas já era tempo de começarem a
tentar combater a máquina de propaganda pró-palis. Deviam escolher
alguém que esteja a apelar à Geração Alfa e aos Millennials, etc., pois é aí
que reside toda a desinformação", escreveu Garber no e-mail. Em resposta a
uma pergunta complementar sobre se Voight consideraria tal pedido, Garber respondeu:
"Não faço ideia".
Chad Schnitger, que lidera o contrato para o Show Faith by
Works, disse ao RS por e-mail que, até à data, nenhuma das celebridades
mencionadas no conjunto de diapositivos tinha sido contactada. "Este foi
um documento de planeamento inicial com uma variedade de opções que foram
discutidas, mas nada definido", disse.
"Estamos muito orgulhosos pela forma como o projeto
cresceu desde estas primeiras sessões de planeamento e estamos ansiosos por
mostrá-lo ao mundo assim que tivermos mais detalhes e materiais prontos",
acrescentou.
A empresa de Schnitger propôs também um atrelado móvel
"10/7 Experience", que percorrerá faculdades, igrejas e eventos
cristãos destacando as atrocidades de 7 de outubro de 2023. O atrelado contará
com uma "TV de parede com informações atualizadas, média pró-Israel"
e imagens das "IDF a explicar a dificuldade de combater bandidos em
território hostil com civis".
O objetivo da Show Faith by Work é chegar a cerca de 3,8
milhões de fiéis. Destes, a empresa estima que cerca de 5% a 10%
"concordem com os nossos programas, participem nos nossos eventos ou
assinem um cartão de compromisso".
Como parte desta campanha de sensibilização, a Show Faith by
Works irá lançar anúncios pró-Israel dirigidos a fiéis cristãos, prometendo
realizar “a maior campanha digital cristã de geodelimitação e segmentação
jamais feita”.
A geodelimitação (geofencing) utiliza técnicas de marketing
baseadas na localização para enviar notificações e anúncios personalizados. Por
exemplo, um utilizador que tenha os serviços de localização ativados no
telemóvel pode ver um anúncio da AT&T ao passar perto de uma loja da marca.
A Show Faith by Works comprometeu-se a “delimitar virtualmente os perímetros de todas as principais igrejas da Califórnia, do Arizona, do Nevada e do Colorado, bem como de todas as universidades cristãs, durante os horários de culto”. A empresa acrescentou que irá “rastrear os participantes e continuar a direcioná-los com anúncios” em nome de Israel.
Tudo isto faz parte de uma campanha para "combater a
baixa aprovação cristã evangélica americana à Nação de Israel" e
"combater as novas e crescentes mensagens pró-palestinianas à medida que a
narrativa global muda".
Uma sondagem da Pew Research de julho revelou que 72% dos
protestantes evangélicos brancos têm uma opinião favorável a Israel. Algumas
sondagens sugeriram que os evangélicos mais jovens mudaram de forma mais
drástica, incluindo uma sondagem do Barna Group de 2021 — dois anos antes do
ataque de 7 de outubro pelo Hamas — que constatou que o apoio a Israel entre os
cristãos evangélicos dos 18 aos 29 anos caiu de 75% para 34%.
O trabalho da empresa está a ser supervisionado por Eran Shayovich, chefe de gabinete do ministério
dos Negócios Estrangeiros de Israel, que lidera o "Projeto 545", uma
campanha para ampliar a comunicação estratégica e os esforços de diplomacia
pública de Israel. Shayovich é também o ponto de contacto de Brad Parscale, antigo gestor de campanha de
Trump, que lidera os esforços para implementar novos sites e conteúdos digitais
para treinar o ChatGPT em nome de Israel.
O contrato da FARA revelou que a Show Faith by Works irá
também coordenar o seu trabalho com um consulado israelita. Embora não
especifique com que consulado israelita está a trabalhar, a empresa está a
realizar esta campanha na Califórnia, Nevada, Arizona e Colorado, todos estados
abrangidos pelo Consulado de Israel em Los Angeles.
Os pontos de discussão da empresa incluem dois conjuntos de mensagens, um intitulado
"Pró-Israel" e o outro "Anti-Estado Palestiniano". Os
pontos de discussão incluem mensagens sobre como "os objetivos
palestinianos e iranianos não estão focados no território, mas sim
genocidas" e como "os palestinianos elegem a liderança do
Hamas". (Nota: a última eleição na Faixa de Gaza foi em 2006 e apenas uma fração
da população atual de Gaza votou no Hamas).
A apresentação da Show Faith by Works também se ofereceu
para patrocinar "mensagens pró-Israel em influenciadores cristãos nas
redes sociais, seguidas por jovens cristãos". No âmbito deste trabalho, a
empresa promete "combater a atual propaganda pró-palestiniana com vídeos
de resposta". Patrocinar os próprios influenciadores exigiria
provavelmente que se registassem na FARA e reconhecessem o patrocínio israelita
nas suas publicações nas redes sociais, de acordo com especialistas em lobbying
estrangeiro. Um organograma proposto mostrava que os influenciadores das redes
sociais também reportariam ao "Hollywood Purchasing Coordinator".
Este aspeto do trabalho da Show Faith é semelhante ao da Bridges Partners, uma empresa que Israel
contratou na semana passada para coordenar um grupo de 14 a 18 influenciadores
das redes sociais que distribuem conteúdo em nome de Israel em troca de cerca
de 7000 dólares por publicação.
A Show Faith by Works, bem como a Bridges Partners e muitas
outras empresas que trabalham para o ministério dos Negócios Estrangeiros de
Israel, está a canalizar os seus negócios através da Havas Media Network, uma
empresa de média internacional que trabalha para Israel.
Schnitger, que está a receber 150 mil dólares pelo contrato
de seis meses, disse ao RS que a empresa fez algumas alterações desde a
elaboração da apresentação inicial para o ministério dos Negócios Estrangeiros
de Israel. "Achamos muito importante que a igreja cristã esteja informada
sobre estas questões. Tudo o que fazemos é verificado por equipas de pastores
cristãos. Mal podemos esperar para vos mostrar daqui a alguns meses",
disse.
Quando questionado sobre as alterações que foram feitas,
Schnitger não respondeu.
Nick Cleveland-Stout
Fonte: Responsible Statecraft, 7 de outubro de 2025
(a) Geofencing (em português, geodelimitação ou
cercamento geográfico) é uma tecnologia de marketing digital que cria uma
“cerca virtual” em torno de uma área geográfica específica — por exemplo, uma
igreja, um estádio ou um centro comercial.
Quando uma pessoa entra nessa área com o seu telemóvel com
localização ativa, ela pode receber anúncios direcionados, notificações ou
mensagens personalizadas.
O “geofencing” de igrejas significa que os organizadores da campanha pró-Israel configuram sistemas de publicidade digital para enviar anúncios automaticamente aos fiéis que frequentam determinados templos — sem que estes necessariamente saibam que estão a ser alvo desse tipo de segmentação.
É uma forma sofisticada (e bem democrática) de propaganda política ou religiosa, misturando tecnologia de vigilância, marketing e influência ideológica.


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