"Não concordamos": Claudia Sheinbaum, do México, manifesta-se contra ataques aéreos dos EUA
Panda (2023–2025) - Julien Doré
Sheinbaum
enfrenta pressões da administração Trump para reprimir o tráfico de droga na
fronteira entre os EUA e o México
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, manifestou-se
contra a recente onda de ataques aéreos que os Estados Unidos realizaram no Mar
das Caraíbas e, mais recentemente, no Oceano Pacífico.
Na sua conferência de imprensa de manhã, na quinta-feira,
Sheinbaum foi questionada sobre a sua posição em relação à campanha de
bombardeamentos, que visa atacar as operações de tráfico de droga.
"Obviamente, não concordamos", respondeu
Sheinbaum. "Existem leis internacionais sobre como lidar com o alegado
transporte ilegal de drogas ou armas em águas internacionais, e nós expressamos
isso ao governo dos Estados Unidos e publicamente".
Sheinbaum é a mais recente líder latino-americana a opor-se
aos ataques aéreos, que mataram pelo menos 37
pessoas desde o início da
campanha, a 2 de setembro.
Mais tarde, nesse dia, numa mesa redonda que promove a sua
agressiva campanha antidroga, o presidente dos EUA, Donald Trump, criticou o
México, dando a entender que Sheinbaum não controla o seu país.
“O México é governado pelos
cartéis”, disse Trump aos jornalistas. “Tenho
um grande respeito pela presidente, uma mulher que considero uma mulher
extraordinária. É uma mulher muito corajosa. Mas o México é governado pelos
cartéis, e temos de nos defender disso.”
Pressão económica sobre Sheinbaum
O México tem enfrentado um equilíbrio delicado com os EUA
desde o regresso do presidente Trump à Casa Branca, em janeiro.
Entre as prioridades do segundo mandato de Trump estavam
conter o fluxo de imigração ilegal através da fronteira EUA-México e
implementar medidas comerciais protecionistas, principalmente tarifas, para
conter a concorrência estrangeira.
Para atingir estes objetivos, Trump pressionou a
administração Sheinbaum a cumprir as suas exigências.
No final de janeiro, por exemplo, a Casa Branca de Trump
anunciou que iria aplicar tarifas de 25% sobre as exportações dos vizinhos e
maiores parceiros comerciais dos EUA — México e Canadá.
A administração Trump argumentou que o forte aumento de
impostos era necessário para responsabilizar os países "pelas suas
promessas de travar a imigração ilegal e impedir que o venenoso fentanil e
outras drogas entrassem no nosso país".
Vários dias depois, a 3 de fevereiro, Trump concordou em
suspender as tarifas durante 30 dias, mas apenas depois de receber concessões
de ambos os países.
No caso do México, Sheinbaum
aceitou "reforçar imediatamente" a sua fronteira com os EUA com 10
mil soldados da Guarda Nacional, num esforço para reprimir o tráfico
de droga.
Num telefonema entre os líderes, Trump terá feito um elogio
a Sheinbaum: "És dura". Desde então, Sheinbaum tem sido chamada nos média
"a encantadora de Trump" (Trump whisperer).
Mas a tarifa de 25% entrou em vigor nesse mês de março, e a
administração Trump continuou a pressionar o México em questões comerciais e
outras.
Em julho, por exemplo, Trump publicou uma carta dirigida a
Sheinbaum na sua plataforma de redes sociais Truth Social, ameaçando aumentar
as tarifas contra o México em 30% para forçar novas medidas para travar o
tráfico de fentanil.
Trump reconheceu a sua "forte relação" com
Sheinbaum, mas culpou a sua administração por não cumprir as obrigações.
"O México tem-me ajudado
a proteger a fronteira, MAS o que o México fez não é suficiente",
escreveu Trump. "O México ainda não deteve
os cartéis que estão a tentar transformar toda a América do Norte num parque de
diversões do narcotráfico."
Se Sheinbaum retaliasse com as suas próprias tarifas, Trump
avisou que acrescentaria o mesmo valor à tarifa de 30%. Por fim, Trump recuou
na sua ameaça de aumento das tarifas após uma chamada com Sheinbaum.
Um mês antes, em junho, o
Tesouro dos EUA sancionou também três importantes bancos e instituições
financeiras mexicanas, acusando-os de serem veículos para
branqueamento de capitais ilícitos provenientes do tráfico de droga.
Os bancos negaram as acusações, mas as consequências foram
rápidas, com algumas das instituições sancionadas a relatarem que o seu acesso
a plataformas financeiras internacionais foi cortado.
Medo de um ataque militar dos EUA
Mas a postura cada vez mais agressiva de Trump em relação
aos cartéis de narcotráfico gerou receios de que a sua administração pudesse
tomar medidas militares em solo mexicano.
A escalada começou no início do segundo mandato de Trump,
quando anunciou a sua intenção de rotular os cartéis latino-americanos como
"organizações terroristas estrangeiras", uma designação amplamente
dada aos grupos armados que procuram desestabilizar os EUA através da
violência.
Embora o rótulo de "terrorista" por si só não
constitua uma autorização para a ação militar, os críticos temiam que fosse um
passo no sentido de tal intervenção.
Depois, em maio, tanto Sheinbaum como Trump reconheceram que
os EUA se tinham oferecido para enviar os seus soldados para o México para
combater os cartéis de droga locais. Esta revelação ocorreu enquanto os EUA
reforçavam a sua presença militar ao longo da sua fronteira partilhada com o
México.
Sheinbaum confirmou aos jornalistas que tinha rejeitado a
oferta. "A soberania não está à venda", disse ela. "A soberania
é amada e defendida".
Em agosto, Sheinbaum teve mais uma vez de acalmar os receios
de uma iminente ação dos EUA em solo mexicano. Nesse mês, surgiram relatos de
que Trump tinha assinado secretamente uma ordem que autorizava o uso de força
militar norte-americana contra cartéis latino-americanos, aumentando os receios
de um ataque em solo estrangeiro.
Sheinbaum, no entanto, afirmou que os EUA não iriam realizar
operações em território mexicano. "Cooperamos, colaboramos, mas não haverá
invasão", disse aos jornalistas. "Isso está descartado, absolutamente
descartado. Já o declarámos em todas as chamadas."
Ainda assim, a administração Trump insinuou nas últimas
semanas que um ataque terrestre está iminente, ao mesmo tempo que realiza uma
série de ataques aéreos mortais contra alegados traficantes de droga.
O alvo de tal ataque permanece desconhecido. Mas na
quarta-feira, numa reunião no Salão Oval com o secretário-geral da NATO, Mark
Rutte, Trump reafirmou os seus planos para lançar um ataque deste tipo, mesmo
sem a aprovação do Congresso dos EUA.
"Vamos atacá-los com
toda a força quando eles entrarem por terra”, disse Trump sobre os
supostos traficantes de drogas. “E eles ainda não passaram por isso. Mas agora
estamos totalmente preparados para fazer isso.”
Até ao momento, a campanha de ataques aéreos iniciada em setembro
centrou-se em alvos no Mar das Caraíbas, perto da Venezuela e da Colômbia. Esta
semana, no entanto, esta campanha expandiu-se para o Oceano Pacífico, perto da
costa oeste da Colômbia.
Trump identificou os alvos como pequenas embarcações — e,
num dos casos, um submarino — que, segundo ele, transportavam estupefacientes
para os EUA. Mas o seu governo não apresentou provas que comprovem estas
alegações, e as autoridades da América Latina alertaram que algumas das vítimas parecem ser pescadores.
O Equador, por exemplo, libertou um dos dois sobreviventes
do ataque ao submarino, alegando não ter provas de acusações criminais contra o
homem.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, por sua vez, alegou
que um pescador chamado Alejandro Carranza foi morto nos ataques. As famílias
em Trinidad e Tobago, que fica perto da costa venezuelana, também manifestaram
preocupação com a possibilidade de os seus familiares desaparecidos estarem
entre os mortos.
Nove ataques foram realizados contra embarcações náuticas
desde setembro, o mais recente dos quais na quarta-feira.
Especialistas jurídicos, incluindo responsáveis de
direitos humanos das Nações Unidas, alertaram que os
ataques provavelmente
violam o direito internacional, que proíbe execuções extrajudiciais
fora de combate.
Fonte: Al Jazeera, 23 de outubro de 2025

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