Nick Land: o escritor da alt-right

Perry Mason (1957-1966) – Gloria Talbott

O meu orientador de doutoramento acabou por ser Satanás

É algo de notável descobrir, um quarto de século demasiado tarde, que o teu antigo orientador de doutoramento é o próprio Satanás. Eu tinha 24 anos e era estudante de doutoramento em Warwick quando conheci Nick Land. Ele era apenas quatro anos mais velho, brilhante — embora extraordinariamente imaturo, mesmo segundo os padrões da minha juventude. Desapareceu por volta da viragem do milénio, acabando em Xangai, e durante anos nada mais soube dele. Nunca esperei que reaparecesse como um dos raros bloggers que moldam a visão do mundo de Steve Bannon — perfilado na edição deste mês da Prospect — e a orientação ideológica da Casa Branca de Donald Trump. Um artigo publicado na Atlantic em fevereiro traçava a evolução da alt-right até um círculo conhecido como NRx, ou neorreacionários, que inclui Nick, juntamente com outros com alcunhas sombrias de death metal, como Mencius Moldbug.

Nick não tinha jeito nenhum para ensinar. Quando eu batia à porta do seu gabinete, ouvia-se um barulho frenético enquanto ele escondia o material de fumar erva, seguido de um ofegante “Quem é?”. Estava sempre pedrado, e o escritório cheirava intensamente a fumo. Mas havia nele uma excitação contagiante que tornava a filosofia divertida — lançava comentários improvisados que iluminavam subitamente questões antigas. Gostava que as suas observações fossem o mais extravagantes possível.

Era um fã devoto de Nietzsche, e quando lhe confessei que detestava atravessar aquelas páginas cheias de anões e eremitas, Nick ficou chocado. Via Nietzsche como um humorista negro, satírico e subversivo, e não como aquela “porcaria tolkieniana”, como dizia com desdém.

Todos os meses, os professores apresentavam leituras de trabalhos em progresso. A primeira palestra de Nick chamava-se “Pondo o Rato de Volta em Racionalidade” (Putting the Rat back Into Rationality), e nela defendia que, em vez de encararmos a morte como um evento que ocorre num momento específico a um indivíduo, devíamos vê-la pela perspetiva dos ratos que trouxeram a Peste Negra à Europa — ou seja, como um enxame planetário, sem coordenadas fixas nem qualquer sentido de individuação.

Um professor mais velho tentou compreender a ideia: — “Como poderíamos situar essa descrição dentro da experiência humana?”, perguntou. Nick respondeu, com a sua típica calma insolente, que a experiência humana era, claro, digna de estudo, mas apenas tanto quanto a das lesmas-do-mar: “Não vejo porque deva ter qualquer prioridade especial.”

Essa recusa em lidar com o humano atingiu o seu ápice com o projeto chamado Cybernetic Culture Research Unit (Ccru), cujos textos de 1997 a 2003 foram recentemente republicados pela editora filosófica de culto Urbanomics. Os textos da Ccru soam como uma mistura de William Gibson, steampunk e Timothy Leary — exatamente aquilo que muitos jovens licenciados brilhantes imaginavam que Nietzsche teria escrito se ouvisse dubstep em vez de Wagner. A influência de Nietzsche é também evidente na crença do grupo de que os “fracos” travam os “fortes”. A Ccru argumentava que as instituições que compõem o establishment — governo, academia e ciências estabelecidas — são um peso morto, e que, para escapar dessa inércia, era preciso acelerar a cultura, criando um ambiente em que as novas ideias pudessem florescer.

Avançando até ao presente, o aceleracionismo da Ccru encontra eco na crença dominante em Silicon Valley de que os mercados devem ser rápidos e a tecnologia deve ser disruptiva. Fala-se que Moldbug é financiado por Peter Thiel, fundador do PayPal e apoiante da campanha de Trump, e que também mantém ligações com Steve Bannon. Land, porém, não dispõe desse tipo de acesso, e a semelhança entre Bannon e Land talvez se reduza a um fascínio comum por tudo o que é enorme e veloz.

Num perfil da Bloomberg, Bannon chega quase a soar como um discípulo da Ccru ao descrever o funcionamento do Breitbart: “Ligamo-nos ao material de toda a gente, agregamos, puxamos conteúdos até da esquerda. É um fenómeno em movimento. Tráfego gigantesco. Toda a gente está investida.” Compare-se isso com uma frase ofegante de Nick Land, celebrando o “maior evento discreto da história humana” que se desenrola “com frequentes fertilizações cruzadas, entre ascensões vertiginosas e quedas calamitosas que traçam a ascensão, queda e renascimento do espírito modernista.”

Descobre-se depois que essa frase vinha, ironicamente, de um texto promocional exaltando Xangai como o local perfeito para a Expo Mundial de 2010.

Para a maioria dos membros da Ccru, a cibernética era apenas um pretexto lúdico para louvar a internet e escrever ficção científica. Para Nick Land, contudo, tratava-se de algo bem mais radical: pensar um mundo verdadeiramente “cibernético” no sentido pós-humano. O seu ódio às instituições liberais não se limitava às universidades — estendia-se também à linguagem dos direitos humanos e dos valores humanistas, isto é, àqueles princípios que sustentam a democracia, as Nações Unidas e noções como a jurisdição universal. Land percebia que a ideia de leis e direitos universais derivava do próprio núcleo iluminista — a noção de que todos fazemos parte da humanidade — e o seu objetivo era desconstruí-la.

Hoje, a crítica direitista ao humanismo liberal constitui o eixo central da obra de Nick Land, que ele denomina “Iluminismo Negro” (Dark Enlightenment). Desde Burke e Carlyle até Heidegger, Leo Strauss, Leszek Kołakowski ou John Gray, sempre existiram pensadores conservadores dentro da tradição iluminista que atacaram as suas premissas fundamentais. Contudo, esses autores, em geral, temiam a mudança e a aceleração, enquanto Nick Land as abraça com fervor. Na sua versão do Iluminismo Negro, é inútil imaginar uma sensibilidade humana capaz de ser “ferida” pela velocidade da vida moderna. É fácil imaginá-lo gritando: “Sejamos todos mais como ratos!”

Esse tipo de humor negro mantém Nick Land na periferia do pensamento conservador. Ele é venerado pela alt-right e identifica-se com o termo, embora já tenha afirmado que o prefixo “alt” significa apenas “irónico”. Mas, apesar da sua excentricidade deliberada, Land é surpreendentemente mainstream. Estamos cada vez mais próximos de abandonar a noção de Direitos Humanos: governos perdem a paciência com o humanismo, sejam Estados paternalistas como a China, etno-nacionalistas como Israel, autoritários como a Rússia e a Turquia, ou mesmo os Estados Unidos, guardiões zelosos da sua excecionalidade. Até a ideia de “humano” como algo universal está sob ataque — basta ver best-sellers como Homo Sapiens, de Yuval Harari, que sugerem que existem diferentes tipos de humanos, e que o próprio termo “humano” está a tornar-se obsoleto.

A questão, então, é: o que substituirá o humano? Para muitos políticos e eleitores, a resposta parece ser o etno-nacionalismo — uma combinação de nativismo, racismo, protecionismo e apartheid que goza de crescente popularidade. O conceito de Iluminismo Negro alimenta-se do Iluminismo liberal, parasitando-o como uma sombra que o acompanha até ao colapso. Para o autor deste relato, o verdadeiro milagre é que ainda exista consenso e comunicação, apesar de tanta violência e fragmentação. Mas, para alguns — sobretudo os “meninos-homens” excitados com a catástrofe —, o esfacelamento do mundo em tribos e grupos de interesse é um momento de revelação. Como escreveu William Burroughs, outro génio imaturo, este é o “Naked Lunch” — o instante em que vemos claramente o que está na ponta dos nossos garfos.

Nicolau Blincoe

Fonte: Prospect, 18 de maio de 2017

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