O lobista cowboy que afirmava ter manipulado uma eleição
Wizards Beyond Waverly Place (2024)
No novo
livro Devils' Advocates, um operacional astuto chamado Robert Stryk
dá-nos uma introdução sobre como vender a influência de Washington a clientes
estrangeiros num 'mundo de merda' (shitbag world)
"Ajudei a manipular uma eleição? Sim."
Ou pelo menos é o que afirma o lobista estrangeiro Robert
Stryk em "Devils' Advocates: The Hidden Story of Rudy Giuliani, Hunter
Biden, and the Washington Insiders on the Payrolls of Corrupt Foreign Interests",
um novo livro do repórter do New York Times Kenneth Vogel sobre o
funcionamento interno dos lobistas americanos que trabalham para governos
estrangeiros.
Na narrativa de Stryk, este abriu caminho para que a
primeira administração Trump aceitasse um acordo de partilha de poder para o
então presidente da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, arrecadando,
entretanto, 1,8 milhões de dólares de uma empresa de vigilância israelita com
interesse em manter o acesso às minas congolesas. Kabila, então a enfrentar
ameaças americanas de sanções e confisco de bens, manteria o controlo do
parlamento e de cargos importantes e assumiria o título de "senador
vitalício" em troca da transferência da presidência para o candidato da
oposição, Felix Tshisekedi.
Embora o livro de Vogel esteja repleto de reportagens
originais sobre rostos conhecidos da política norte-americana, como Rudy
Giuliani e Hunter Biden, o seu pouco conhecido lobista, Stryk, rouba a cena.
Stryk apresenta-se como um cowboy lobista estrangeiro, viajando pelo mundo para
se encontrar com clientes estrangeiros e promover a política americana a seu
favor (por um preço), enquanto veste botas, calças de ganga e uma camisa de
gola em V.
Superficialmente, Stryk parece ter um talento natural na
arte da influência estrangeira.
Quase da noite para o dia, passou de cuidar da sua vinha no
Oregon a garantir mais de 19 milhões de dólares em honorários de lobbying
durante a primeira administração Trump. E, muitas vezes, Stryk entregava
resultados convincentes aos seus clientes — a tal ponto que a número dois da
embaixada da Nova Zelândia se referiu a ele como o seu “anjo da guarda”, depois
de este ter apresentado diplomatas da embaixada a várias figuras do círculo de
Trump.
Naturalmente, Stryk acabou por se aproximar de regimes
autoritários na Somália, em Angola, no Bahrein e na Arábia Saudita. Uma análise
do Quincy Institute sobre o lobbying estrangeiro entre 2022 e 2023 revelou que
65% dos governos mais ativos nesse campo foram classificados como “Não Livres”
pela Freedom House. Regimes autoritários contratam frequentemente lobistas como
Stryk para encobrir abusos de direitos humanos, colocar rivais em listas de
sanções ou facilitar acordos chorudos de armamento.
Stryk não é exceção. Ele gabou-se de ter conseguido bloquear
um projeto de lei apresentado pelo senador norte-americano Rand Paul
(republicano do Kentucky), que visava impedir a venda de 300 milhões de dólares
em rockets e mísseis ao Bahrein — um dos principais apoiantes da intervenção
militar liderada pela Arábia Saudita no Iémen. Paul, um dos mais destacados
críticos dessa intervenção, “passou-se completamente” com um dos funcionários
de Stryk por este representar a Arábia Saudita e o Bahrein, segundo contou o
próprio funcionário.
Noutra ocasião, Stryk afirmou ter conseguido travar uma
tentativa dos Estados Unidos de impor sanções à multimilionária angolana Isabel dos Santos, que estava a ser
investigada por desviar mil milhões de dólares durante a presidência do pai.
Stryk orgulha-se desse tipo de trabalho — aquilo a que ele próprio chama o
“mundo dos canalhas” (shitbag world).
O que torna o livro de Vogel tão convincente é que Stryk é
também um mestre na arte da ilusão de influência. Pontos de encontro políticos
de alto nível servem de palco para Stryk ostentar acesso perante potenciais
clientes. Para isso, o restaurante Café Milano, em Georgetown, surge quase com
tanto destaque como outras personagens secundárias em “Devils’ Advocates",
de Vogel.
Um exemplo disso é o trabalho de Stryk para a República
Democrática do Congo (RDC). Stryk pode ter exagerado, ao dizer aos congoleses
que o Conselho de Segurança Nacional dos EUA prometera evitar qualquer processo
judicial ou confisco dos bens de Joseph Kabila caso houvesse uma transição
pacífica de poder — algo que a administração Trump negou. No entanto, a sua
empresa, Stryk Global Diplomacy, reuniu-se de facto com responsáveis do
Conselho de Segurança Nacional para discutir a possibilidade de Kabila escapar
a sanções.
Além disso, Stryk organizou um evento no terraço do hotel
Hay-Adams, em Washington, com a presença de responsáveis congoleses e figuras
próximas de Trump (incluindo uma participação paga de Rudy Giuliani), com o
objetivo de estreitar laços entre ambos os lados.
Mas será que Stryk realmente “manipulou uma eleição”, como
afirma?
Os seus potenciais clientes certamente acreditavam que sim. Nicolás Maduro, da Venezuela, tentou
contratá-lo para convencer os Estados Unidos a levantarem as sanções em troca
da abertura da economia. “Fiz isso por Kabila. Farei isso por Maduro”, disse
Stryk, que chegou a reunir-se com o presidente venezuelano no Palácio de Miraflores.
No entanto, quando Stryk e os seus sócios tornaram público o trabalho para a
Venezuela, a reação furiosa dos setores anti-Maduro levou-o a rescindir o
contrato. Há limites, mesmo no chamado “mundo dos canalhas” (shitbag world).
Na verdade, é muitas vezes impossível avaliar o impacto real
de um lobista num resultado concreto. Esses profissionais têm todo o interesse
em exagerar a sua influência perante os clientes — e, por vezes, a perceção
conta mais do que os resultados. Stryk, por exemplo, levava frequentemente os
seus clientes ao Grand Havana Room, um clube privado, apenas porque sabia que
Rudy Giuliani estaria lá. “O simples facto de eu poder sentar-me com ele e
dizer ‘Ei, Robert, fuma um charuto!’ — isso bastava para o cliente acreditar
que eu tinha proximidade com a pessoa mais poderosa a seguir ao presidente dos
Estados Unidos”, explicou Stryk.
Entretanto, o governo dos Estados Unidos tem todo o
interesse em negar que figuras externas, como Stryk, desempenham qualquer papel
na formulação de políticas. Como escreve Vogel, “essa ambiguidade e confusão em
torno da influência e dos resultados é uma característica definidora do lobby
estrangeiro — e serve a todos os envolvidos.”
A crítica do The New York Times ao livro de Vogel,
assinada pelo professor David Greenberg, da Universidade Rutgers, parece
encarar essa ambiguidade como uma espécie de contradição reveladora. Greenberg
escreve que “Vogel nunca demonstra que a política externa americana está, como
ele afirma logo no início, ‘à venda’. E Vogel nunca reflete plenamente sobre o
grau em que os decisores políticos têm em conta imperativos como os interesses
económicos dos Estados Unidos, as preocupações de segurança, os equilíbrios
regionais de poder e a opinião pública.”
É claro que esses fatores são relevantes para o governo
norte-americano — mas, como observa Vogel, a política externa é um terreno
especialmente fértil para o lobby, em comparação com outras áreas. Ele escreve:
“Com algumas exceções notáveis — o apoio militar
a Israel ou a oposição ao regime socialista cubano — as causas de política
externa carecem, em geral, de bases eleitorais internas.” Isso torna
muito mais fácil para governos estrangeiros contratar lobistas que saibam como
encantar e influenciar os altos funcionários de Washington.
E, fosse a sua influência real, percebida ou algo entre as
duas, Stryk recebia sempre o pagamento. Numa das ocasiões, recebeu quase 6
milhões de dólares por um contrato com o príncipe herdeiro saudita Muhammad bin
Nayef (MBN), destinado a minar o então vice-príncipe herdeiro Mohammed bin
Salman (MBS) — contrato esse que acabou por ser rescindido poucas semanas
depois.
O livro Devils’ Advocates conduz o leitor pelos
bastidores do mundo do lobby estrangeiro — os lobistas, os think tanks, os
alvos estratégicos no Congresso, e os governos estrangeiros envolvidos. Embora
seja fácil perder-se nas histórias de Stryk sobre passeios de Jaguar no Bahrein
ou tiroteios em Mogadíscio, o leitor não deve esquecer que esse “mundo de
canalhas” tem consequências reais para pessoas reais.
Vogel é explícito na conclusão: o lobby estrangeiro é uma
“fórmula vencedora para os lobistas e os seus clientes endinheirados, que
procuram proteger fortunas frequentemente mal adquiridas — mas não para os
cidadãos comuns dos Estados Unidos, cujo governo gasta os seus impostos em
políticas que não refletem os seus interesses, nem para as populações distantes
que são oprimidas ou mal servidas por essas mesmas políticas.”
Nick
Cleveland-Stout
Fonte: Responsible Statecraft, 23 de outubro de 2025



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