O que os homens chamam de “humor” e as mulheres reconhecem como desprezo
Perry Mason (1957-1966) – Cindy Ames
O humor — essa arte subtil do riso — é muitas vezes tratado
como um privilégio social. Mas quando assenta em clichés sexistas, torna-se
tudo menos inofensivo. Porque, por detrás da piada, esconde-se muitas vezes o
desprezo. E quando as mulheres riem amargamente,
raramente é por serem “demasiado sensíveis”.
Humor sexista: um riso que divide
Quando falamos de humor sexista, não se trata de um simples
mal-entendido cultural ou de um constrangimento pontual. Falamos de um sistema.
Aquele que, através de “piadas” sobre mulheres ao volante, “histéricas”,
loiras, menstruadas ou “carreiristas frígidas”, continua a reproduzir os mesmos velhos clichés. Estas “piadas” não são
triviais — perpetuam imagens degradantes, papéis rígidos e uma hierarquia
social bem definida.
Dizer “é humor” não apaga a intenção nem suaviza o impacto.
Uma “piada” que se vira contra alguém, que o diminui ou o transforma numa
caricatura, não é apenas uma piada — é uma microagressão.
E se for a única pessoa na sala que não se ri, não é por falta de ironia: é
porque percebeu onde está o problema.
O famoso “estava só a brincar”: a camuflagem do
desprezo
Na boca de certos homens, o humor transforma-se numa
ferramenta de dominação subtil. Sob o disfarce da ironia, testam-se limites e
avaliam-se reações. Vê-se até onde se pode ir a diminuir alguém sem
consequências. E se alguma mulher ousar reagir, a sentença é imediata: “Não
tens sentido de humor, caramba!”
Isso chama-se gaslighting humorístico. Estás a
reagir? És “demasiado sensível”. Não te ris? És “fechada”. Protestas? “Não
percebes nada de humor.” No fim de contas, o que está em causa aqui não é o
sentido de humor — é o respeito.
Quando o humor se institucionaliza: foco no mundo do
trabalho
Nos escritórios, open spaces ou reuniões de equipa,
as piadas sexistas são muitas vezes banalizadas. Um ambiente de “camaradagem”
onde as mulheres têm de se adaptar — ou afastar-se da mesa. Goza-se com as
emoções de uma colega, ri-se da estagiária que “obviamente não sabe ligar um cabo
HDMI”, troça-se da licença de maternidade. Tudo isto, para alguns, continua a
ser considerado humor.
Mas este tipo de “brincadeira” tem efeitos muito concretos:
cria um ambiente hostil, mina a autoestima e leva muitas pessoas a calar-se e a
retrair-se. Pior ainda, legitima comportamentos discriminatórios — porque, se
podemos rir de um estereótipo, porque
não acreditar um pouco nele?
Sexismo “benevolente”: o estratagema do patriarcado
O sexismo já não grita, sussurra. Já não dá murros, faz
“piadas”. Já não diz “uma mulher não consegue”, diz “deixa lá, eu ajudo-te”.
Esse sexismo “benevolente” é ainda mais pernicioso porque se esconde sob a máscara da cortesia. Um estudo
de Greenwood e Isbell (2002) mostrou que até homens que se consideram
“porreiros” — ou seja, não agressivos com as mulheres — tendem a apreciar o
humor sexista. Porque este continua a lisonjear a sua posição dominante, sem os
fazer sentir verdadeiramente culpados.
Nessa dinâmica, as mulheres são vistas como frágeis,
emocionais, dependentes — e, acima de tudo, como alvo fácil de troça. Isso
ajuda a manter o desequilíbrio e, ao mesmo tempo, a consciência limpa.
Quando o humor se torna uma arma: o caso da “Liga do
LOL”
O caso da Liga do LOL é uma prova contundente disso. Por
detrás de um verniz de humor cáustico e de uma ironia geracional, escondiam-se
práticas reais de assédio dirigido. Jornalistas, comunicadoras e bloguers foram
ridicularizadas e atacadas pela aparência, pelo feminismo e pelas suas vozes.
Não se respondeu às suas ideias — gozou-se com elas. O humor tornou-se então um
projétil: uma forma de as desacreditar sem sujar as mãos.
Este caso levantou o véu sobre uma cultura em que o humor
serve de correia de transmissão do sexismo. Onde fazer rir os colegas é uma
maneira de reforçar a própria superioridade. Onde a troça se transforma em
emblema de conivência masculina.
Porquê redefinir o humor
O humor não é neutro. Ele constrói, desconstrói, fere ou
cura. Pode ser subversivo, brilhante, libertador — mas também pode perpetuar
sistemas de opressão. A questão não é proibir as piadas, mas perguntar: quem
está a rir? de quê? a que custo? E, sobretudo, porquê é que isso te faz rir?
Pode-se ter um sentido de humor mordaz sem nunca ser
desdenhoso. Pode-se fazer rir com as próprias experiências — não à custa das
dos outros. Porque sim, é possível ser engraçado sem ser ofensivo. E é aí que
está o verdadeiro talento.
É tempo de dizer basta às piadas que apenas servem para
disfarçar o desprezo. De afirmar em voz alta que o humor não desculpa tudo. Que
recusar ser alvo de troça não é falta de autoironia. E que aqueles que não se
riem podem, afinal, ser os mais lúcidos da sala. Numa sociedade que idolatra a
réplica e o cinismo, rejeitar o desprezo mascarado de humor é quase um ato de
coragem.
Fonte: The Body Optimist, 10 de maio de 2025
Como é que se aumenta os horizontes de uma mulher?
Aumentando a área da cozinha.
Porque é que Deus inventou o álcool?
Para que as mulheres feias também tenham prazer.
Porque é que a mulher nunca foi à Lua?
Porque ainda lá não há nada para limpar.


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