A Comissão Europeia quer pôr as nossas contas bancárias e o dinheiro das nossas pensões em risco?
Knock Knock (2015) - Keanu Reeves, Ignacia Allamand, Ana de
Armas
Nos
últimos meses, tanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen,
como a comissária para os serviços financeiros, Maria Luís Albuquerque, têm
andado a apregoar a ideia de que o dinheiro
parado nos depósitos bancários não serve para quase nada e que os cidadãos
deviam apostar muito mais em produtos financeiros de maior rendimento, mesmo
que impliquem risco. A opinião de José Gomes Ferreira.
As duas responsáveis planearam desenvolver uma grande
campanha de literacia financeira na
Europa (considerando implicitamente que a maior parte dos cidadãos é ignorante
nesta matéria) e querem convencer os governos a dar mais benefícios fiscais a
quem invista o seu dinheiro nos mercados.
Ao mesmo tempo, a Comissão
Europeia anunciou um projeto de revisão das regras de supervisão bancária e
financeira na União, cujo objetivo último é dar mais liberdade aos
bancos, fundos, seguradoras e outras entidades do setor para investir em ativos
mais rentáveis, logo com maior risco.
O Banco Central Europeu acaba de dar uma resposta seca a
esta última iniciativa da dupla Ursula/Maria Luís: o
BCE rejeitará toda e qualquer iniciativa da Comissão e do Parlamento Europeu
para mexer nas leis da supervisão bancária na União Europeia que
ponha em causa a estabilidade que o atual quadro normativo traz a todos os
agentes, sejam depositantes investidores ou responsáveis dos próprios bancos.
Por cá, numa atitude de seguidismo provinciano, o governo já admitiu estar a estudar uma forma de
atribuir mais benefícios fiscais a quem tire o dinheiro das contas bancárias e
o invista nos mercados financeiros e de capitais.
Maria
Luís Albuquerque vai ao ponto de considerar que, em Portugal, os mais de
180 mil milhões de euros que se encontram em depósitos nos bancos deviam estar
a render muito mais, dizendo coisas como: “Pensamos
que os depósitos bancários são seguros, mas seguro é que perdemos dinheiro com
eles”.
No seu afã de favorecer os mercados financeiros e promover
mais investimentos nas bolsas, a ex-ministra das Finanças de Portugal e atual
comissária europeia vai ainda mais longe: no fórum Eurofi, que junta os maiores
bancos, seguradoras, fundos e consultoras do mundo, afirmou recentemente que: “Temos de
desbloquear o acesso ao financiamento privado para estas empresas, e os bancos
e os investidores institucionais devem também considerar a possibilidade de
investir no sector da defesa.”
Isto é, para Maria Luís Albuquerque, o dinheiro das
poupanças dos cidadãos que está guardado nos bancos deve ser apostado em ações
de empresas, incluindo do ramo militar. E a dimensão da declaração da
comissária não se limita ao dinheiro dos depósitos, indica também que os
investidores institucionais como os fundos geridos pelos institutos da
Segurança Social devem investir nestes ativos de risco.
A resposta à pergunta que faz o título deste artigo é: sim,
a Comissão Europeia quer pôr o dinheiro das nossas contas bancárias e das
reservas da Segurança Social em risco.
Mas há mais perguntas para fazer...
- Maria Luís Albuquerque está segura de que a mobilização
massiva do dinheiro dos depósitos bancários e das reservas das pensões na
Europa para investimentos em ações e títulos de dívida vai mesmo beneficiar as
empresas europeias e ajudá-las a crescer e inovar mais? Não terá pensado nem um
segundo que esse dinheiro em vez de ir reforçar o tecido empresarial europeu
acabará por ir parar às grandes tecnológicas americanas, às bolsas asiáticas, à
bolha das moedas digitais, ou ao mercado imobiliário, agravando ainda mais a
crise de preços da habitação?
- Maria Luís Albuquerque terá lido as declarações dos
presidentes executivos dos maiores bancos, Goldman Sachs e Morgan Stanley, que
há poucos dias disseram que há uma sobrevalorização dos índices bolsistas e que
as ações cotadas em bolsa poderão vir a cair em breve mais de 15 ou mesmo 20
por cento?
- Maria Luís Albuquerque e a sua mentora Ursula von der
Leyen não terão lido os alertas de cada vez mais especialistas que consideram
que uma correção desta dimensão não ficará por aqui, acabará por contagiar a
capacidade de bancos, fundos e grandes investidores de pagar os compromissos
aos seus clientes?
- Maria Luís Albuquerque não terá percebido que a recente
recomendação do Banco de Portugal para as famílias manterem algum
dinheiro vivo em casa indica que o banco central sabe algo mais do que todos
nós?
- Não saberá a comissária europeia que em caso de crise
financeira grave as diretivas europeias já preveem a limitação parcial do
levantamento de dinheiro aos balcões dos bancos e nas caixas multibanco?
Recordo bem que, na
primeira década deste século, gestores de vários bancos portugueses andavam a
telefonar insistentemente aos seus clientes para transformar os respetivos
depósitos em investimentos financeiros que davam muito mais juros,
sem avisar para o risco inerente. E recordo também que muitos portugueses,
grande parte sem saber que tinham investido em risco, começaram a ver os saldos
das respetivas contas a cair. Num dos casos, um trabalhador fabril que tinha
feito uma aplicação de 20 mil euros, recebeu uma carta com um saldo de… 13 mil
euros! Isto passou-se no Portugal de 2013, há 12 anos…
Se muitos portugueses forem convencidos pela Comissão
Europeia e pelo governo português, através de campanhas de alegada literacia e
de benefícios fiscais manhosos, a mudar o dinheiro das suas contas bancárias
para investimentos de risco e de repente começarem a perder 15, 20, ou 25 por
cento, que vai Maria Luís Albuquerque dizer-lhes? Ficará refugiada no silêncio
dos corredores de Bruxelas?
Da minha parte as principais perguntas estão feitas.
Fica também a minha declaração de vontade: não toquem na
minha conta bancária que não rende nada. Quero que continue como está.
E não toquem nas reservas da Segurança Social para investir
nas bolsas.
Se o fizerem terão uma revolta generalizada nas ruas de
Portugal.
José Gomes Ferreira
Fonte: SIC Notícias, 14 de novembro de 2025

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