A grande mentira por detrás dos ataques navais de Trump
Perry Mason
(1957-1966) – Sarah Marshall, Ray Boyle
A
administração Trump está a treinar a imprensa e o público americano para
associarem os ataques militares a pequenas embarcações em águas internacionais
ao combate ao tráfico de fentanil e outras drogas. Esta falsidade é um exemplo
paradigmático das mentiras que os imperialistas contam antes de lançarem
guerras de agressão condenadas ao fracasso
Ao anunciar uma política agressiva, o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, costuma apresentar alguma justificação grotesca — uma
ficção absurda destinada a fixar-se na nossa mente como racionalização da
violência. Quanto mais engolirmos estas mentiras agora, mais difícil será
questionar as falsidades futuras, pois isso colocaria em causa a nossa própria
imagem de seres inteligentes.
Esta é a magia da Grande Mentira, como Hitler explicou em Mein
Kampf: contar uma mentira tão absurda que as pessoas simplesmente não
consigam acreditar que seja mentira. A maior mentira de Hitler foi afirmar que
uma conspiração judaica internacional era a origem dos problemas da Alemanha –
um bode expiatório que pudesse ser culpado por qualquer problema e absolver os
outros de qualquer responsabilidade. Em 1939, Hitler e os seus propagandistas
espalharam mentiras descaradas também sobre a Polónia – que esta não existia de
facto como Estado e que era a agressora que tinha desencadeado a Segunda Guerra
Mundial.
As grandes mentiras de Trump são quase incontáveis. Talvez a
mais versátil seja a de que o seu foco político é conter o comércio ilícito de
fentanil. No início do seu segundo mandato, Trump afirmou que o Canadá atacou
primeiro os Estados Unidos, permitindo que o fentanil circulasse livremente
através da fronteira. E, na verdade, não deveria tornar-se o 51.º estado
americano?
Esta alegação foi um pretexto para a imposição de tarifas
sobre as exportações canadianas. Mas quando Trump coloca o Canadá e o México no
mesmo saco e afirma que o fentanil está a "entrar em grande
quantidade" nas fronteiras com ambos os países, está a mentir. Em 2024,
apenas cerca de 0,2% do fentanil apreendido pelas autoridades fronteiriças dos
EUA veio do Canadá, que não foi sequer mencionado na Avaliação Nacional de
Ameaças de Drogas de 2024 da Drug Enforcement Administration (DEA).
Mas, nos últimos meses, a administração Trump construiu uma
fantasia geopolítica ainda mais sinistra: são necessários ataques militares
contra pequenas embarcações em águas internacionais para travar o tráfico de
droga. Estes ataques, que muitos especialistas consideram flagrantemente
ilegais, concentraram-se na costa da Venezuela e já
mataram pelo menos 61 pessoas. Embora seja amplamente reconhecido
que os ataques não impedirão o fluxo de fentanil para os EUA, Trump afirmou que
a sua administração continuará “a matar pessoas que trazem drogas para o nosso
país”.
A execução extrajudicial de alegados traficantes de droga
tem menos a ver com tráfico de droga e mais com projeção de poder – e talvez
até com uma mudança de regime. Embora os vídeos dos bombardeamentos se tenham
tornado assunto frequente nas redes sociais, não há provas de que os alvos
fossem traficantes de droga. (Aliás, o vice-presidente J.D. Vance chegou a
fazer uma piada em setembro sobre matar pescadores inocentes, dizendo que “não
iria pescar naquela região do mundo naquele momento”.)
Além disso, a administração Trump terá autorizado ações
secretas da CIA na Venezuela e enviado o seu porta-aviões mais avançado para o
Mar das Caraíbas. Esta demonstração de poderio militar visa servir de
espetáculo político. O perigo reside na possibilidade de se transformar num
conflito insolúvel e sem fim definido.
A tragédia é que a crise dos opiáceos tem sido um elemento
essencial da experiência americana nas últimas duas décadas e meia. Os Estados
Unidos têm a taxa mais elevada de mortes por opiáceos do mundo, em grande parte
devido ao sistema de “cuidados de saúde” orientado pelo lucro, que conduz as
pessoas para a medicação contra a dor, mas não incentiva os cuidados intensivos
e prolongados necessários para tratar a dependência.
A crise começou com um esquema de enriquecimento da Purdue Pharma, a empresa farmacêutica
norte-americana que desenvolveu e promoveu agressivamente o popular analgésico
opioide OxyContin. Embora o OxyContin tenha sido responsável pelo aumento
inicial das mortes por overdose, muitos consumidores acabaram por recorrer à
heroína e, mais recentemente, ao fentanil — uma substância cerca de 50 vezes
mais potente do que a heroína — quando deixaram de conseguir obter receita para
o produto mais vendido da Purdue Pharma.
Os americanos que vivem nos epicentros da crise de
dependência tendem a votar no Partido Republicano; sem o apoio deles, Trump
nunca teria sido eleito. Trump e Vance estão sintonizados com a epidemia dos
opiáceos, no sentido em que veem essa fonte de miséria como um recurso político
que pode ser direcionado contra o inimigo de conveniência — seja um aliado,
como o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, ou um adversário, como o
presidente venezuelano Nicolás Maduro.
No seu livro de memórias de 2016, "Hillbilly Elegy",
Vance relata como a sua mãe, uma enfermeira com fácil acesso a medicamentos
sujeitos a receita médica, se tornou viciada em medicamentos. Mas a sua
mensagem política sobre imigração e segurança conta uma história diferente, na
qual Vance culpa os outros países – "o veneno que atravessa a nossa
fronteira" – pelos seus problemas. Conclui-se, assim, que os americanos devem encarar os seus vícios como um ataque
externo.
É importante compreender a psicologia que Trump e Vance
estão a explorar. Os toxicodependentes tendem a culpar os outros pela sua
condição. A ascensão da extrema-direita na política norte-americana elevou esta
mentalidade a um patamar nacional. A crença de que alguém deve ser
responsabilizado pelos problemas do país começou a influenciar a política
externa, com a administração Trump a inventar histórias cada vez mais absurdas,
como a de que cada ataque a um barco venezuelano
salva 25 mil vidas americanas.
As mentiras funcionam porque deslocam a culpa.
Responsabilizar outros países pela crise dos opiáceos é uma forma tentadora de
terceirização moral para os americanos. Mas uma ficção dessa magnitude exige a
construção de uma realidade alternativa completa em seu redor. Trump e a sua
administração estão a treinar a imprensa e o público norte-americano para
associarem os ataques a barcos ao combate ao tráfico de fentanil e outras
drogas — um exemplo paradigmático das falsidades que os imperialistas contam antes
de lançarem guerras de agressão condenadas ao fracasso.
As guerras começam com palavras — o que implica que as
palavras devem ser levadas a sério antes de o conflito eclodir. Só denunciando
os grandes mentirosos e dizendo as pequenas verdades poderemos ter alguma
esperança de conter a presidência cada vez mais agressiva de Trump.
Timothy Snyder



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