BBC censura crítica do historiador Rutger Bregman a Donald Trump e assume decisão por aconselhamento legal

Perry Mason (1957-1966) – Richard Erdman, Marshall Kent, Mabel Rea, Ann Staunton

Historiador neerlandês descreveu Trump como o "presidente mais abertamente corrupto da história americana", mas a frase acabou cortada da sua palestra transmitida pela BBC

A ‘novela’ entre a BBC e Donald Trump parece não ter fim à vista, com a estação britânica a ser agora atacada pelo historiador e escritor neerlandês Rutger Bregman por censurar uma crítica mais dura ao presidente dos Estados Unidos.

A frase “o presidente mais abertamente corrupto da história americana” integrava o discurso de Bregman no âmbito de uma palestra organizada pela BBC. No entanto, foi cortada esta terça-feira na transmissão na BBC Radio 4 e nas suas diferentes plataformas, após o aconselhamento dos advogados da estação nos Estados Unidos, conforme o próprio historiador revelou na rede social X.

Na origem deste novo episódio está a ameaça ainda pendente de um potencial processo judicial de Trump, no valor de mil milhões de dólares, pela edição do seu discurso no dia 6 de janeiro de 2021, em Washington, num programa da série documental Panorama. A estação pública britânica assumiu, na sequência da revelação de um memorando interno pelo jornal The Telegraph, que as palavras de Trump foram editadas, dando a entender que apelou diretamente aos seus apoiantes para invadirem o Capitólio.

Desta feita, Rutger Bregman, um dos intelectuais de esquerda mais conhecidos da atualidade, disse ter sido informado na passada quarta-feira que a palestra que tinha gravado há cerca de quatro semanas, perante 500 pessoas no BBC Radio Theatre, estava a ser analisada pelos advogados nos EUA e pelas mais altas figuras da administração da BBC.

“Fui informado de que a decisão veio da cúpula da BBC”, afirmou, sem deixar de lembrar que tinha sido convidado para dar a palestra e que a mesma já teria sido alvo de revisão editorial.

Na referida palestra, intitulada “Um Tempo de Monstros”, Bregman descreve inclusivamente Trump como um “Calígula dos tempos modernos”, em alusão ao antigo imperador romano lembrado como um tirano ou um louco que se via a si próprio como um deus, acrescentando: “Ele rodeia-se de leais, vigaristas e bajuladores”.

Para Bregman, que se mostrou “genuinamente consternado” com esta situação, a decisão da BBC revela-se “especialmente irónica” e preocupante, por ocorrer num contexto de receio de represálias do poder de Trump e pelo desenvolvimento de uma “autocensura” dos órgãos de comunicação.

Aliás, a Casa Branca já tinha arrasado a escolha do filósofo neerlandês para as prestigiadas Palestras Reith (Reith Lectures, no inglês original), organizadas desde 1948 pela estação pública britânica e que contaram no passado com oradores muito diversos, como Carlos III (então apenas enquanto Príncipe), os físicos J. Robert Oppenheimer e Stephen Hawking ou as escritoras Hilary Mantel e Chimamanda Ngozi Adichie. “Um indivíduo raivosamente anti-Trump”, escreveu a Casa Branca no passado dia 15 de novembro.

Numa série de publicações no X, Bregman denunciou que “a palestra é exatamente sobre a ‘covardia paralisante’ das elites de hoje” e que uma medida destas deve preocupar todos, quer sejam de esquerda, do centro ou de direita.

Confrontada com as alegações do intelectual neerlandês que convidou para um dos seus mais importantes eventos anuais, a BBC justificou à imprensa britânica o corte da crítica a Trump com razões editoriais e aconselhamento jurídico: “Todos os nossos programas devem cumprir as diretrizes editoriais da BBC, e tomámos a decisão de remover uma frase da palestra por recomendação jurídica”.

Rutger Bregman — que ganhou mediatismo internacional após a sua aparição no Fórum Mundial de Davos, em 2019, onde atacou a fuga aos impostos pelos mais ricos — não perdeu tempo a rebater e a considerar que as duas teses “não se encaixam”.

“A edição foi feita no último minuto, após aprovação editorial e quatro semanas depois da gravação ao vivo. Uma edição editorial padrão não requer dias de revisão jurídica de alto nível ou o envolvimento de muitas pessoas no topo da hierarquia. A verdade é que a frase não era imprecisa — ela foi removida por causa de receios jurídicos. E essa é exatamente a preocupação que a minha palestra levanta: quando as instituições começam a se censurar por medo dos que estão no poder”.

De acordo com o jornal The Independent, o episódio desta terça-feira vem adensar ainda mais a pressão sobre a administração da BBC, designadamente do chairman Samir Shah. O líder da estação britânica compareceu na segunda-feira perante os membros da Comissão de Cultura da Câmara dos Comuns e garantiu que não iria abandonar o cargo e que pretendia “estabilizar o barco” e “consertá-lo”.

Todavia, a líder da Comissão de Cultura, Caroline Dinenage, acabou por colocar em causa se a liderança de Shah deixa ou não a BBC “em boas mãos” para o futuro, admitindo a sua preocupação com a falta de “controlo no cerne da governação” da estação pública.

Recorde-se que o polémico caso com Trump já provocou duas demissões na estrutura de topo da BBC há cerca de duas semanas: o diretor-geral da BBC, Tim Davie, e a CEO da BBC News, Deborah Turness. Além da controvérsia com o presidente dos EUA, a estação enfrentou ainda denúncias graves sobre erros, enviesamentos e falta de imparcialidade.

Fonte: Observador, 26 de novembro de 2025

Durante a Segunda Guerra Mundial, a BBC tornou-se uma arma estratégica: um instrumento de propaganda cuidadosamente calibrado para sustentar o moral britânico, moldar narrativas e influenciar audiências internacionais. Era propaganda, mas da boa, do lado certo da história, enquadrada num contexto de guerra existencial. Nesse período, apesar do controlo estatal, a instituição ainda cultivava um certo ideal de rigor e dignidade jornalística.

O problema surgiu no pós-guerra: a BBC nunca abandonou realmente essa vocação imperial de moldar perceções. Apenas lhe mudou o uniforme. O que poderiam ter sido as imperfeições normais de um serviço público transformou-se, ao longo das décadas, numa máquina pesada, autorreferencial e integrada no que Mencius Moldbug denominou a Catedral — uma rede distribuída de instituições formadoras de opinião (universidades, meios de comunicação, ONG, agências governamentais, think tanks) que, segundo ele, foram criadas ou capturadas por progressistas. “Catedral” é apenas a abreviatura de jornalismo + academia, o núcleo intelectual da sociedade moderna, desempenhando um papel semelhante ao da Igreja na Idade Média.

O que antes era propaganda de guerra tornou-se, insidiosamente, manipulação estrutural da informação: omissões seletivas, enquadramentos convenientes, uma aparência de neutralidade que esconde prioridades editoriais previsíveis.

Hoje, a BBC já não dita apenas como o mundo deve ver a Grã-Bretanha; dita também como os britânicos devem ver o mundo. Ao fazê-lo, abandonou o seu antigo compromisso de pluralidade e tornou-se mais um ator político, cuidadosamente embalado na estética da imparcialidade. O declínio não é apenas institucional — é epistemológico. Onde antes se procurava informar, agora se gere perceções.

No fim, a BBC não caiu por incompetência, mas por confiança excessiva no seu próprio mito de autoridade. Um serviço público nacional financiado através de uma taxa de licença anual de 174,50 libras (198,72 euros) paga por todas as famílias que veem televisão em direto ou qualquer conteúdo da BBC também pode declinar — quando, se não aumentar  a taxa, não tiver dinheiro para pagar a Donald Trump.

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