Bósnia. Investigados italianos que pagaram para matar civis
Perry Mason
(1957-1966) – Karl Swenson, Dennis Patrick
A Procuradoria de Milão, em Itália, abriu uma investigação a
cidadãos italianos que terão pago para participar em tiroteios contra civis
durante o cerco de Sarajevo, na Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1996. De acordo
com a imprensa italiana, o objetivo é identificar suspeitos de homicídio
agravado por crueldade, depois de terem surgido denúncias de que grupos de
italianos e outros estrangeiros, descritos como “turistas
atiradores”, pagavam a membros do exército sérvio da Bósnia para
serem levados às colinas que rodeavam a cidade e atirarem sobre a população.
“Estamos a falar de pessoas que pagavam para matar por diversão”,
afirmou à agência de notícias italiana ANSA o escritor e jornalista Ezio
Gavazzeni, autor da queixa apresentada ao Ministério Público, acrescentando que
estes indivíduos eram “ricos, de extrema
direita, fanáticos por armas” e faziam viagens no estilo de “safáris
humanos”.
Gavazzeni relatou que começou a aprofundar o tema depois de
assistir ao documentário Sarajevo Safari (2022), do realizador esloveno
Miran Zupanič. No filme, um ex-soldado sérvio afirma que grupos de cidadãos
ocidentais eram levados às zonas de tiro para disparar sobre civis. O escritor
refere que, após iniciar uma conversa com o realizador, “expandiu a
investigação até recolher material suficiente para apresentar ao Ministério
Público”. Disse, ainda, que identificou alguns dos alegados italianos
envolvidos, que deverão ser ouvidos nos próximos meses. “Havia muitos, muitos italianos, alemães, franceses,
ingleses. Pessoas de vários países ocidentais que pagavam para ir
atirar sobre civis”, sublinhou.
Existiria também, segundo Gavazzeni, uma “tabela de preços” que facilitava os
ataques: “As crianças custavam mais, depois
os homens, de preferência armados ou fardados, depois as mulheres. Os idosos podiam ser mortos de
graça”. Os suspeitos reuniam-se em Trieste, viajavam para
Belgrado e eram então conduzidos por militares sérvios até às colinas de
Sarajevo. “Era um tráfico de turistas de guerra. Eu chamo-lhe indiferença
perante o mal”, declarou.
O processo inclui, ainda, um relatório enviado aos
procuradores pela antiga presidente da Câmara de Sarajevo, Benjamina Karić, que
afirma que “uma rede internacional de indivíduos ricos pagava para participar
em atividades desumanas durante o cerco”. No entanto, veteranos sérvios e
associações nacionalistas negam categoricamente as alegações, descrevendo-as
como “insultuosas e fabricadas”.
Os procuradores italianos vão agora aprofundar a recolha de
provas e tentar identificar os participantes. Se as acusações forem
confirmadas, o Ministério Público poderá avançar com processos por homicídio
agravado, um crime que, mesmo décadas depois, permanece sem prescrição no caso
de crimes de guerra. Gavazzeni afirma que o objetivo é “dar nome, rosto e
responsabilidade” a quem, diz, “transformou o sofrimento humano num
passatempo”.
O cerco de Sarajevo, o mais longo da história moderna
europeia, resultou em mais de 10 mil civis mortos entre 1992 e 1996, após a
declaração de independência da Bósnia face à Jugoslávia. Durante quatro anos, a
cidade esteve debaixo de fogo, com ruas inteiras a ficaram sob ameaça
constante, como a Avenida Meša Selimović, conhecida como “Sniper Alley” (Beco
dos Atiradores, em português), onde as pessoas circulavam correndo o risco de
serem atingidos a qualquer momento. Entre as mortes mais emblemáticas está a do
casal Bošco Brkić e Admira Ismić, abatido em 1993 enquanto tentava atravessar
uma ponte.
Fonte: Observador, 11 de novembro de 2025
Empreendedorismo em estado puro. Tabela de preços bastante aceitável. Uma ótima ideia para rentabilizar a guerra para compensar a sangria de recursos do erário público.

Comentários
Enviar um comentário