Bósnia. Investigados italianos que pagaram para matar civis

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A Procuradoria de Milão, em Itália, abriu uma investigação a cidadãos italianos que terão pago para participar em tiroteios contra civis durante o cerco de Sarajevo, na Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1996. De acordo com a imprensa italiana, o objetivo é identificar suspeitos de homicídio agravado por crueldade, depois de terem surgido denúncias de que grupos de italianos e outros estrangeiros, descritos como “turistas atiradores”, pagavam a membros do exército sérvio da Bósnia para serem levados às colinas que rodeavam a cidade e atirarem sobre a população.

“Estamos a falar de pessoas que pagavam para matar por diversão”, afirmou à agência de notícias italiana ANSA o escritor e jornalista Ezio Gavazzeni, autor da queixa apresentada ao Ministério Público, acrescentando que estes indivíduos eram “ricos, de extrema direita, fanáticos por armas” e faziam viagens no estilo de “safáris humanos”.

Gavazzeni relatou que começou a aprofundar o tema depois de assistir ao documentário Sarajevo Safari (2022), do realizador esloveno Miran Zupanič. No filme, um ex-soldado sérvio afirma que grupos de cidadãos ocidentais eram levados às zonas de tiro para disparar sobre civis. O escritor refere que, após iniciar uma conversa com o realizador, “expandiu a investigação até recolher material suficiente para apresentar ao Ministério Público”. Disse, ainda, que identificou alguns dos alegados italianos envolvidos, que deverão ser ouvidos nos próximos meses. “Havia muitos, muitos italianos, alemães, franceses, ingleses. Pessoas de vários países ocidentais que pagavam para ir atirar sobre civis”, sublinhou.

Existiria também, segundo Gavazzeni, uma “tabela de preços” que facilitava os ataques: “As crianças custavam mais, depois os homens, de preferência armados ou fardados, depois as mulheres. Os idosos podiam ser mortos de graça”. Os suspeitos reuniam-se em Trieste, viajavam para Belgrado e eram então conduzidos por militares sérvios até às colinas de Sarajevo. “Era um tráfico de turistas de guerra. Eu chamo-lhe indiferença perante o mal”, declarou.

O processo inclui, ainda, um relatório enviado aos procuradores pela antiga presidente da Câmara de Sarajevo, Benjamina Karić, que afirma que “uma rede internacional de indivíduos ricos pagava para participar em atividades desumanas durante o cerco”. No entanto, veteranos sérvios e associações nacionalistas negam categoricamente as alegações, descrevendo-as como “insultuosas e fabricadas”.

Os procuradores italianos vão agora aprofundar a recolha de provas e tentar identificar os participantes. Se as acusações forem confirmadas, o Ministério Público poderá avançar com processos por homicídio agravado, um crime que, mesmo décadas depois, permanece sem prescrição no caso de crimes de guerra. Gavazzeni afirma que o objetivo é “dar nome, rosto e responsabilidade” a quem, diz, “transformou o sofrimento humano num passatempo”.

O cerco de Sarajevo, o mais longo da história moderna europeia, resultou em mais de 10 mil civis mortos entre 1992 e 1996, após a declaração de independência da Bósnia face à Jugoslávia. Durante quatro anos, a cidade esteve debaixo de fogo, com ruas inteiras a ficaram sob ameaça constante, como a Avenida Meša Selimović, conhecida como “Sniper Alley” (Beco dos Atiradores, em português), onde as pessoas circulavam correndo o risco de serem atingidos a qualquer momento. Entre as mortes mais emblemáticas está a do casal Bošco Brkić e Admira Ismić, abatido em 1993 enquanto tentava atravessar uma ponte.

Fonte: Observador, 11 de novembro de 2025

Empreendedorismo em estado puro. Tabela de preços bastante aceitável. Uma ótima ideia para rentabilizar a guerra para compensar a sangria de recursos do erário público.

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