Depois da Noruega, pânico na Dinamarca devido aos autocarros sob controlo chinês
Perry Mason
(1957-1966) – Raymond Burr
Após a
Noruega descobrir que a China pode parar os seus autocarros remotamente, a
Dinamarca recordou-se que também ela adquiriu uma enorme quantidade destes
veículos. E instalou-se o pânico
Na passada semana, a Noruega apercebeu-se que a sua rede de
autocarros de transporte público possui uma quantidade enorme de veículos elétricos
adquiridos à chinesa Yutong e que estes têm um sistema de gestão que incluía um
cartão SIM, curiosamente de uma empresa romena, que concedia controlo remoto a
partir da China e que, inclusivamente, permitia desligá-los à distância. Este controlo
indevido e indesejado que, até à data, não era conhecido dos clientes
— no caso a empresa Ruter, o maior operador de transportes públicos da Noruega
—, foi descoberto durante um teste de rotina para determinar a capacidade de
defesa destes veículos face a ciberataques. Depois do alerta lançado pela
Noruega, instalou-se o pânico na vizinha Dinamarca, também ela com algumas
centenas de autocarros elétricos chineses da Yutong ao serviço da sua frota
nacional de transporte público.
Após a Noruega ter
descoberto esta falha de segurança, a vizinha Dinamarca, surpreendida pelos
resultados dos testes, entrou praticamente em pânico, uma vez
que a empresa nacional de transportes públicos possui ao seu serviço 469
autocarros elétricos chineses, 262 dos quais são fabricados pela Yutong, uma
empresa controlada diretamente pelo Estado. É
certo que a esmagadora maioria dos automóveis modernos são conectados e,
sobretudo os elétricos, têm a capacidade de comunicar com a fábrica enviando e
recebendo informações, a começar por atualizações de software, para melhorar o
desempenho de sistemas delicados como os de controlo de estabilidade,
funcionamento dos motores e gestão de energia das baterias e, em alguns casos,
até os travões e a direção. Mas uma situação é um país estrangeiro
controlar centenas ou milhares de veículos particulares, outra é um país
permitir que os seus transportes públicos, sejam eles autocarros, comboios ou
aviões, possam ser controlados remotamente por um país estrangeiro, sobretudo
um que se teme e com quem, potencialmente, se pode entrar numa guerra comercial
ou reacender a polémica em torno da situação de Taiwan. E este
temor não é específico dos países nórdicos, como se pode ler em baixo.
O receio de que a China possa colocar em causa a segurança
nacional dinamarquesa, bloqueando as grandes cidades ou o país — com ações como
parar os autocarros ou trancar os passageiros no seu interior —, levou as
autoridades locais a lançar uma investigação urgente para determinar a dimensão
da ameaça e os potenciais riscos. De ressaltar que há autocarros da Yutong a
circular noutros países, como Portugal e Espanha, sem que as respetivas
autoridades tenham, até ao momento, tomado uma posição sobre o assunto.
Fonte: Observador, 9 de novembro de 2025
A obsolescência por atualização: como o software herdou o cinismo das fábricas
Durante décadas, o progresso tecnológico foi apresentado como um caminho inevitável para o conforto e a eficiência. O mito era simples: cada novo produto trazia melhorias reais, libertava o consumidor das limitações do anterior e colocava a humanidade um passo mais perto do futuro dourado. Hoje, porém, o cenário parece ter-se invertido. Vivemos uma era em que as atualizações que prometem melhorar os nossos dispositivos acabam por transformá-los em lixo — não por falha técnica, mas por decisão comercial.
A obsolescência programada, conceito surgido nos anos 1920, nasceu precisamente como estratégia económica para contrariar o “defeito” da durabilidade. Após a crise de 1929, alguns industriais norte-americanos começaram a discutir formas de acelerar o consumo e reanimar a economia estagnada. A ideia era simples e espertalhona: fabricar produtos com vida útil limitada, de modo a obrigar o consumidor a comprar novamente. O exemplo clássico é o do cartel da lâmpada Phoebus (1924–1939), formado por empresas como Philips, Osram e General Electric, que reduziu deliberadamente a duração das lâmpadas de 2500 para 1000 horas. A durabilidade deixou de ser uma virtude técnica e passou a ser um obstáculo económico.
Com o avanço do século XX, esta lógica foi-se refinando. Nos anos 1950 e 1960, a obsolescência tornou-se não apenas técnica, mas também estética: produtos eram substituídos não porque deixassem de funcionar, mas porque já não correspondiam ao novo “estilo” promovido pela publicidade. O automóvel do ano anterior tornava-se símbolo de fracasso social; o frigorífico branco do pós-guerra cedia lugar a cores pastel; o televisor a válvulas era suplantado por um de ecrã mais largo. A modernização era, acima de tudo, uma pedagogia do consumo.
Mas o século XXI trouxe uma mutação mais sofisticada e insidiosa. O desgaste físico foi substituído pelo desgaste digital: a obsolescência programada passou a residir no software, nas atualizações e nos sistemas operativos. Já não é preciso que o aparelho se estrague — basta que o fabricante interrompa o suporte técnico, retire compatibilidade ou introduza uma atualização que, em nome da “segurança”, torna o dispositivo mais lento, menos funcional ou totalmente inútil.
A Microsoft, por exemplo, anunciou o fim das atualizações de segurança do Windows 10 para outubro de 2025, o que significa que milhões de computadores perfeitamente funcionais, fabricados antes de 2017, ficarão sem proteção e gradualmente fora de uso. O caso é paradigmático: o produto físico não morre, mas o software que o anima é retirado, deixando o consumidor diante de uma escolha forçada entre a vulnerabilidade e a substituição.
Na esfera dos smartphones, o mecanismo é idêntico. A Apple é frequentemente acusada de descontinuar versões de iOS para modelos antigos, tornando-os incompatíveis com aplicações essenciais. Em 2017, a empresa foi mesmo condenada em França por “obsolescência programada” após admitir que certas atualizações reduziam intencionalmente o desempenho de iPhones antigos — uma manobra disfarçada de “gestão de bateria”.
O fenómeno estende-se a outros dispositivos: impressoras que rejeitam cartuchos genéricos após uma simples atualização de firmware; frigoríficos “inteligentes” que perdem conectividade porque a aplicação foi descontinuada; televisores que deixam de aceder a plataformas de streaming porque o fabricante cessou o suporte. O resultado é o mesmo: produtos tecnicamente funcionais transformam-se em lixo digital, vítimas de uma espécie de morte por software.
As consequências são múltiplas. Economicamente, o consumidor é induzido a comprar repetidamente bens que não precisava de substituir. Psicologicamente, instala-se um ciclo de ansiedade tecnológica: a constante sensação de estar “atrasado”, de possuir um objeto que já não acompanha o mundo. Ambientalmente, o impacto é devastador. Segundo a ONU, o lixo eletrónico global ultrapassou 60 milhões de toneladas em 2022 — e apenas 17% foi reciclado. Cada telemóvel descartado representa não só um desperdício de recursos raros como lítio e cobalto, mas também o prolongamento das cadeias de exploração mineira em África e da poluição industrial na Ásia.
O mais perverso, contudo, é que esta obsolescência contemporânea já não é assumida como tal. Ao contrário do século XX, em que o produto estragava e era substituído, hoje o processo é revestido de linguagem moral e técnica. As empresas falam de “segurança digital”, “melhoria da experiência do utilizador”, “sustentabilidade de desempenho”. O vocabulário da inovação serve de véu para práticas que, no fundo, perpetuam o mesmo princípio de 1924: criar a necessidade artificial da substituição.
Há, contudo, sinais de resistência. A União Europeia aprovou recentemente legislação sobre o “direito à reparação”, impondo que smartphones e tablets tenham peças de substituição durante sete anos, atualizações garantidas e um índice de reparabilidade visível. Marcas como Fairphone, que oferecem telemóveis modulares e suporte prolongado, mostram que outro modelo é possível — embora ainda representem uma minoria num mercado dominado pelo descartável.
No fundo, a obsolescência programada é a ideologia invisível do capitalismo tecnológico: uma pedagogia do consumo perpétuo disfarçada de progresso inevitável. Hoje, ela já não se expressa no desgaste da matéria, mas no controlo invisível do código. Não é preciso que o frigorífico avarie; basta que a aplicação deixe de reconhecer a rede Wi-Fi. Não é preciso que a impressora pife; basta que o cartucho deixe de ser “autenticado”. E o consumidor, exausto, obedece, convencido de que o problema é seu — quando, na verdade, é o sistema que foi desenhado para o falhar.
A obsolescência moderna é o casamento entre o marketing e o algoritmo. O primeiro cria o desejo, o segundo impõe a necessidade. O que antes era feito com parafusos e temporizadores faz-se agora com linhas de código e termos de serviço. E é precisamente por isso que a luta pela durabilidade — o direito de usar o que funciona — é hoje uma forma de resistência política.



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