INEM passa a chamar-se ANEM a partir de hoje: Luís Cabral sucede a Sérgio Janeiro

 

Perry Mason (1957-1966) – John Wilder, Karl Weber

A partir desta segunda-feira, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) passa oficialmente a chamar-se Autoridade Nacional de Emergência Médica (ANEM), numa reorganização interna que o governo classifica como “refundação” da estrutura nacional de emergência pré-hospitalar

A partir desta segunda-feira, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) passa oficialmente a chamar-se Autoridade Nacional de Emergência Médica (ANEM), numa reorganização interna que o governo classifica como “refundação” da estrutura nacional de emergência pré-hospitalar. A mudança coincide com a substituição do atual presidente, Sérgio Janeiro, por Luís Cabral, nome escolhido pela ministra da Saúde, Ana Paula Martins, após concurso conduzido pela Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública (CReSAP).

A decisão foi confirmada pelo ministério da Saúde, que sublinha não se tratar de uma demissão, mas de uma substituição regular ao abrigo do procedimento concursal. “Não houve uma demissão do presidente do INEM. Na sequência de um concurso aberto pela CReSAP, com vista ao recrutamento e seleção do presidente do INEM, foi escolhido um dos três candidatos validados durante este procedimento”, explicou uma fonte oficial à Lusa.

Os três candidatos validados pela CReSAP foram Sérgio Janeiro, Nélson Pereira e Luís Cabral, tendo este último sido o escolhido por Ana Paula Martins. A decisão foi aprovada em Conselho de Ministros e entra em vigor esta segunda-feira.

Segundo a RTP, a nomeação de Luís Cabral — antigo secretário regional da Saúde dos Açores entre 2012 e 2016 — tem gerado contestação entre os profissionais do setor, que manifestaram “preocupações legítimas” quanto à escolha.

O Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH) já tinha pedido, no início da semana passada, que a nomeação fosse reavaliada, afirmando que “a escolha do médico suscita muitas e legítimas preocupações aos profissionais do setor”. Em carta dirigida ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, o sindicato solicitou que o governo “reavalie a opção”, considerando o histórico de Cabral na governação açoriana, onde a sua passagem foi marcada por críticas internas à gestão do setor da saúde.

Apesar da contestação sindical, o ministério da Saúde garante que a transição de Sérgio Janeiro para Luís Cabral decorre “com normalidade” e que a mudança de nome para ANEM insere-se num processo mais amplo de modernização institucional.

Fontes do governo referem que a nova designação visa “reforçar a autoridade e a autonomia técnica do organismo”, aproximando o modelo português de estruturas similares na Europa. A refundação da entidade, formalmente efetiva a 3 de novembro, é descrita internamente como um “marco simbólico” que procura renovar a imagem e a organização do sistema nacional de emergência médica.

O concurso público para presidente do INEM foi aberto a 6 de janeiro de 2025 e encerrado a 19 do mesmo mês, após um primeiro processo sem candidatos suficientes. A seleção ficou temporariamente suspensa devido à convocação das eleições legislativas antecipadas de maio, o que impediu nomeações definitivas durante o período eleitoral.

Sérgio Janeiro, nomeado em julho de 2024 em regime de substituição por 60 dias, manteve-se em funções durante este período transitório. De acordo com o Estatuto do Pessoal Dirigente, as designações para cargos de direção superior não podem ocorrer entre a convocação das eleições e a posse de um novo governo.

O mandato de Sérgio Janeiro fica associado a um dos períodos mais tensos na história recente do INEM, com destaque para a greve de novembro de 2024, que levou à investigação de 12 mortes relacionadas com atrasos no socorro.

Apesar das críticas, Janeiro manteve o apoio de várias equipas operacionais e chegou a defender a necessidade de “melhorar os meios humanos e logísticos do sistema de emergência pré-hospitalar”. No entanto, o governo entendeu que o novo ciclo da instituição deveria começar com uma liderança diferente.

Refundação do INEM marca nova fase da emergência médica em Portugal

Com a entrada em vigor da ANEM, o ministério da Saúde pretende reforçar a coordenação entre meios de emergência e apostar na modernização tecnológica e na capacitação dos técnicos de emergência médica.

Fontes governamentais referem que o novo modelo será acompanhado de ajustes orgânicos e administrativos, ainda em preparação, com o objetivo de “simplificar procedimentos e melhorar a resposta às emergências médicas em todo o território nacional”.

Fonte: Executive Digest, 3 de novembro de 2025

A semântica como instrumento de governo

A semântica — essa arte subtil de jogar com a polissemia para sustentar a ilusão de mudança e progresso — tornou-se o instrumento de governação mais eficaz dos nossos tempos. Como diagnosticou Michel Foucault, o discurso é o território soberano por excelência: quem define as palavras delimita o pensável; quem controla o léxico governa a imaginação política. É por isso que a política contemporânea abdicou de transformar a realidade para se dedicar a reescrever o dicionário.

Um dos triunfos fundadores desta engenharia verbal foi a substituição do Department of War pelo Department of Defense, no pós-Segunda Guerra Mundial. Orwell teria reconhecido, sem surpresa, a materialização da newspeak: a guerra deixou de ser violentação para se tornar “defensiva”, “preventiva”, “humanitária” — tudo menos o que é. Como lembra Noam Chomsky, a linguagem do poder não visa comunicar, mas ocultar; é uma “ideologia lexicalizada”, calibrada para converter agressões em altruísmo e bombardeamentos em missões de paz.

Por sua vez, Donald Trump — sempre mais maquinal do que ideológico — propõe o gesto inverso: restaurar o Department of War. À primeira vista, pareceria um ato de honestidade brutal, um regresso à clareza semântica perdida na era dos eufemismos liberais. Trump quer chamar guerra à guerra, como quem rasga o véu hipócrita da correção política.

Mas este retorno à “verdade das palavras” é, paradoxalmente, mais teatral do que sincero. Ele não desfaz a manipulação — apenas a inverte. Se o liberalismo governa pela anestesia do léxico, o populismo governa pela excitação da linguagem. Um mente ao suavizar; o outro mente ao exagerar. O Department of Defense encobre o imperialismo sob verniz diplomático; o Department of War trumpista transforma o belicismo em espetáculo, em prova de virilidade nacional... ultimamente perdida na ideologia de género.

Em ambos os casos, o que muda é apenas a superfície verbal, não o conteúdo da política. O real permanece intocado — apenas se altera o estilo da mentira. Foucault diria que se trata da mesma microfísica do poder, mas com estética distinta: a do eufemismo tecnocrático e a do insulto performativo. Orwell, por seu lado, reconheceria em ambas as tendências a mesma vocação totalitária de controlar o significado. Seja pela suavização ou pela brutalização, a linguagem continua a ser o campo de batalha.

Trump, ao reinstaurar o Department of War, não restitui a verdade, mas inaugura uma nova forma de novilíngua: a truth-speak, em que a franqueza se torna ferramenta de manipulação. Assim, o populismo de direita não liberta o discurso — apenas o torna mais agressivo, mais emotivo, mais vendável. O resultado é idêntico ao do liberalismo que o precede: um povo que fala as palavras do poder sem saber o que elas significam.

Portugal, por sua vez, mergulha também na mesma piscina semântica global. Trocar o INEM por ANEM é mais do que uma mera operação administrativa — é um ato teológico. Há um eco evidente de “Amén”, uma ironia divina: o Estado laico devolve à morte a sua dimensão litúrgica, e o sistema de emergência converte-se em sacerdócio. No fundo, é lá que as pessoas vão morrer — e o novo nome soa como uma oração antecipada.

O gesto é sintoma de uma tendência mais vasta: o governo pela cosmética verbal. Já não há cortes, há “poupanças”; não há falências, há “reestruturações”; não há desemprego, há “transições laborais”. O eufemismo tornou-se instrumento de administração pública. E, como observou Walter Lippmann há um século, o cidadão comum já não vive no mundo real, mas num “pseudoambiente” mediado pela linguagem — uma realidade sintética, fabricada pelo Estado e pela imprensa, onde a verdade é questão de design.

A nova classe política — esses esforçados navegantes de mares que não conhecem — acredita que mudar o nome é mudar a natureza da coisa. É o nominalismo transformado em programa de governo. A semântica substitui a substância; a aparência, o conteúdo. O poder já não governa corpos nem leis, governa perceções. É o triunfo do spin sobre o espírito.

Não admira, portanto, que o político moderno fale como um manual de marketing e aja como um consultor de marca. O Estado é uma empresa de imagem, e nós, cidadãos, somos tratados como “utilizadores” de um produto defeituoso com novo logótipo. A linguagem oficial já não descreve — disfarça.

Se Orwell imaginou um Ministry of Truth encarregado de reescrever o passado, nós vivemos sob ministérios de branding que rebatizam o presente. A cada reforma semântica, o poder torna-se mais invisível — e mais eficaz. Trocar o INEM por ANEM não melhora o socorro médico, mas acalma consciências: “algo mudou”, diz-se, e esse “algo” basta para mascarar o vazio.

A semântica é o novo ópio do povo: um vocabulário reconfortante que anestesia o pensamento crítico. O político fala, o povo repete, e a ilusão de progresso é preservada. No fim, resta apenas o som de uma palavra que resume tudo — amén — expressão perfeita de resignação e fé, ditada não à divindade, mas à maquinaria do Estado.

Não foi divulgado quanto custará repintar todos os veículos do serviço de emergência de INEM para ANEM. Uma letrinha apenas que não se prevê barata nesta fase de subida da inflação.  

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