Mulher-objeto
Há
mulheres nas listas só para cumprir a Lei da Paridade. A lei exige equilíbrio
nas listas, mas não garante que as substituições respeitam a paridade.
Resultado: mulheres eleitas, homens no poder. O espírito da lei? Derrubado nos
bastidores e pelos urinóis
Em Portugal, acontecem dezenas de renúncias de mulheres em
cargos eleitos por pressão do nó de gravata e ninguém fala disso. Não há por aí
um jornalista que faça o que lhe compete e pesquise esta miséria?
Vejamos: há mulheres que entram nas listas partidárias (por
exemplo, nas autárquicas), só e apenas para cumprir a Lei da Paridade. Depois
de eleitas, desaparecem, desistem, e as suas cadeiras ficam ocupadas por...
homens. Em Famalicão — um dos poucos episódios desta farsa que foi há anos
investigado — uma eleita do CDS-PP e outra do PSD suspenderam o mandato. Quem
entrou? Homens. Suspeita-se até de acordo prévio, situações de renúncias
pré-programadas com direito a documento firmado: “Senta-te, sorri para a
fotografia, assina... e depois entro eu.”
A lei exige equilíbrio nas listas, mas não garante que as
substituições respeitem a paridade. Resultado: mulheres eleitas, homens no
poder. O espírito da lei? Derrubado nos bastidores e pelos urinóis. O regime
assiste, de pipocas na mão.
Não se iludam. Estas renúncias raramente são livres. Muitas
mulheres são usadas como adereço. Constam em listas apenas para cumprir quotas,
sabendo que não terão voz. Algumas são jovens, várias simplesmente sujeitam-se,
outras são dependentes dos partidos, outras ainda inteligentes o suficiente
para perceber que resistir custa caro. Mais vale aceitar uma qualquer
compensação. Há pressão, promessas veladas, chantagem subtil — violência política
de género dispensando insultos: basta tratá-las como peças descartáveis. Em
meios pequenos, funciona na perfeição.
O que era democratização transformou-se em ritual
burocrático. A campanha parece diversa; o poder permanece igual.
Cada renúncia fraudulenta subverte a vontade dos eleitores,
perpetua a exclusão feminina e reforça o poder masculino, com as mulheres a
entrar apenas para serem usadas. Figuras de cera. Jarras. E o sistema?
Tolerante. Cúmplice.
Como é evidente, garantir
paridade real não é colocar mulheres nos cartazes. É dar-lhes condições,
autonomia e apoio para exercer o mandato até ao fim. É impedir que
renúncias estratégicas viciem os órgãos públicos. É combater a fraude
institucionalizada que transforma candidatas em figurantes e homens em
sucessores automáticos com direitos adquiridos. Tipo monarquia. Caramba, que
retrocesso! Pior a emenda do que o soneto!
Durante anos, defendi as quotas, embora sonhasse com a
evolução natural da participação feminina que, na realidade, era lenta demais.
Este mecanismo artificioso surgiu para corrigir desigualdades estruturais. O
problema é que as quotas foram adulteradas, enviesadas, instrumentalizadas. As
renúncias estratégicas são uma das deformidades, mas em alguns países já se
testam esquemas ainda mais criativos — indivíduos
que se declaram homens trans para entrar nas quotas femininas. É um
patriarcado 2.0.
Quantas desistências falseadas de eleitas acontecem em
Portugal? Esta burla, esta perversão que envenena a democracia e a luta pelos
direitos das mulheres, devia ser alvo de uma investigação séria, nacional e
independente, caso a caso. Será que as quotas ainda fazem sentido? Objeto à
mulher-objeto!
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 19 de novembro
de 2025

Comentários
Enviar um comentário