Novo estudo sobre Neandertal de Altamura desvenda mistério da adaptação ao frio
Perry Mason
(1957-1966) – Arlene Martel
A
investigação encerra décadas de debate científico sobre como os Neandertais se
adaptaram aos climas frios europeus
Uma nova investigação sobre o Neandertal de Altamura
(Itália), um dos esqueletos fósseis mais excecionais e um verdadeiro símbolo da
paleoantropologia analisou as estruturas internas do nariz desta espécie
extinta e apresentou novas ideias sobre a morfologia facial desta espécie e a
sua adaptação ao frio.
O estudo, liderado por investigadores italianos e publicado
na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS),
concluiu que os Neandertais não possuíam características internas únicas na
cavidade nasal, encerrando décadas de debate científico sobre como esta espécie
se adaptou ao frio europeu.
A investigação demonstra que, apesar da grande abertura
nasal e do prognatismo médio-facial, o nariz do Neandertal era perfeitamente
eficiente para as suas necessidades energéticas.
O Neandertal mais antigo que se conhece
Durante décadas, a dificuldade de acesso à parte da gruta
onde se encontra impediu o estudo dos restos mortais, inicialmente atribuídos
ao Homo heidelbergensis, até 2015, quando uma equipa de cientistas da
Universidade Sapienza de Roma (Itália) inseriu um braço robótico e extraiu uma
amostra da omoplata direita do esqueleto.
Esta análise genética confirmou que se tratava de um
Neandertal de há entre 130 000 e 172 000 anos, um dos mais antigos conhecidos
até à data.
Os Neandertais, espécie humana extinta que habitou a Europa,
o Médio Oriente e a Ásia Central durante o Pleistoceno e coexistiu com o Homo
sapiens, são essenciais para a compreensão da evolução humana.
A sua anatomia, muito mais robusta do que a dos humanos
modernos, incluía um tórax amplo, uma bacia larga e membros curtos - uma série
de características que provavelmente permitiram à espécie adaptar-se ao clima
frio.
Contudo, embora o corpo do Neandertal reflita essa
adaptação, o seu rosto e nariz não se encaixam nesse padrão: esses humanos
possuíam uma abertura nasal muito ampla e um rosto projetado para a frente -
conhecido como prognatismo médio-facial - características aparentemente
contraditórias às adaptações usuais ao frio.
Para explicar este paradoxo, alguns cientistas propuseram
que os Neandertais desenvolveram características internas únicas na cavidade
nasal que os ajudaram a compensar a falta de adaptação externa do nariz,
argumentos que alimentaram um debate complexo e prolongado durante décadas
sobre a adaptação desta espécie ao frio.
Adaptação do Neandertal ao frio da Europa
A nova investigação liderada por Constantino Buzi,
investigador da Universidade de Perugia e afiliado no Instituto Catalão de
Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA), analisou a morfologia
nasal dos Neandertais, recorreu a tecnologia endoscópica de alta resolução e
conseguiu analisar as estruturas internas do nariz do Neandertal de Altamura
com um detalhe sem precedentes, apresentou resultados conclusivos: a espécie
não apresenta características internas únicas nem adaptações internas específicas.
Alguns cientistas fizeram suposições "baseadas em
evidências incompletas", explicou Antonio Profico, investigador da
Universidade de Pisa e coautor do estudo.
Mas tais características não existem e "mesmo sem estas
supostas adaptações, o nariz do Neandertal era perfeitamente eficiente para
satisfazer as elevadas exigências energéticas da espécie", concluiu.
"Quando incorporamos a bioenergética, o 'paradoxo' da
grande abertura nasal desaparece. É exatamente o que seria de esperar numa
espécie adaptada ao frio, mas com uma morfologia craniana arcaica",
explicou, por sua vez, o coautor Carlos Lorenzo, investigador do IPHES-CERCA e
da Universidade Rovira i Virgili.
A
equipa defende que o prognatismo médio-facial característico dos Neandertais
não se desenvolveu, provavelmente, como resposta direta às necessidades
respiratórias, mas sim como resultado de uma combinação de diversas pressões
evolutivas e restrições morfológicas que, em conjunto, moldaram um rosto
diferente dos atuais humanos, porém "totalmente funcional nos ambientes
frios da Europa do Plistocénico", salientaram os autores.
O estudo incluiu um modelo tridimensional completo da
cavidade nasal derivado de imagens endoscópicas, que permitirá futuros estudos
sobre o desempenho respiratório dos Neandertais e as suas adaptações
fisiológicas.
Fonte: SIC Notícias, 23 de novembro de 2025
A moderna substituição da população europeia inverte o padrão biológico ancestral de adaptação. Em vez do organismo se adaptar às condições climáticas, são as condições climáticas que estão a mudar para receber a nova população.

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