O escândalo de Ana Caldas e o argumento para a verificação sexual nas modalidades femininas

A saga tragicómica de dezasseis anos de Ana Caldas — passando por quebras de recordes em quatro modalidades desportivas — demonstra até que ponto alguns atletas do sexo masculino estão dispostos a ir para esconder as suas verdadeiras identidades

Em 2016, uma atleta luso-americana chamada Hannah Caldas participou na categoria feminina dos “Monstar Games”, uma grande competição de fitness realizada no Rio de Janeiro. Os Jogos incluíam um desafio de halterofilismo promovido pela cadeia brasileira de lojas de artigos desportivos Fortify Equipamentos, em que as competidoras eram pontuadas pela quantidade de vezes que conseguiam levantar bolas pesadas acima da cabeça num minuto.

Um responsável do evento pediu a Caldas que escolhesse entre duas bolas — com 13 e 32 quilos, respetivamente.

“Que tal a de 54?”, respondeu Caldas, apontando para uma terceira bola, muito maior.

De acordo com o relato posterior de Caldas, o responsável explicou que esta não era uma opção realista para as concorrentes inscritas na categoria feminina, uma vez que “nenhuma rapariga o tinha conseguido levantar”.

“Desafio aceite!”, escreveu Caldas mais tarde no Instagram. Enquanto uma colega atleta chamada Joyce Rodrigues filmava, Caldas levantou o peso de 54 quilos no ar nada menos que dezasseis vezes.

Como em muitas das suas vitórias, Caldas apresentou o episódio como um exemplo de empoderamento feminino. “Por vezes, fico ofendida com a expressão ‘como uma rapariga’”, gracejou Caldas. “Gostava que essa expressão fosse reformulada para ‘como um atleta’, porque não importa se és rapariga ou rapaz. Se és atleta, tens a mentalidade — e competes.”

Mas, claro, quando se trata de competição atlética, importa muito se “é homem ou mulher”. E Hannah Caldas, nascida como “Hugo”, é, biologicamente falando, a última opção — ainda que Caldas tenha passado a maior parte de duas décadas a tentar apagar qualquer vestígio desse facto.

“Hugo” Caldas tornou-se “Hannah” em 2008. Cinco anos depois, “Hannah” começou gradualmente a transformar-se em “Ana” (por vezes apresentada como “Ana C.” ou “Ana do Carmo”).

De forma curiosa — e algo surreal — “Ana” é também o nome da única irmã de Caldas, uma mãe de dois filhos que continua a viver em Portugal. O resultado é uma espécie de adaptação real da piada recorrente Daryl-and-Daryl da série de comédia Newhart dos anos 1980, mas em versão de metamorfose de género. Em 2015, quando a “Ana” biologicamente masculina publicou no Facebook (onde o nome da conta ainda aparecia como “Hannah”) a mensagem “hoje é o dia em que faço o teste de cidadania [americana]”, a irmã comentou em tom brincalhão: “agora já me podes patrocinar [para eu ir para os Estados Unidos].”

Desde 2009, Caldas acumulou uma abundância de prémios monetários, vitórias em torneios e recordes mundiais de natação, remo, CrossFit e Grid League (uma competição de halterofilismo já extinta). Durante todo este tempo, Caldas manteve uma presença hiperativa nas redes sociais, publicando um fluxo constante de selfies de ginásios, competições, balneários e férias à beira da piscina; geralmente em roupas justas que acentuavam um físico musculado e meticulosamente depilado.

Este tipo de exibicionismo maníaco não é incomum no mundo atlético, claro (especialmente entre os halterofilistas). Mas as fotos de moda fitness cuidadosamente selecionadas de Ana Caldas sinalizavam algo para além da mera egomania no ginásio. Pareciam também fazer parte de uma campanha contínua de relações públicas, com o objetivo de silenciar os céticos que não acreditavam que Caldas fosse realmente mulher.

Esta campanha provou ser extremamente eficaz. Como detalhado abaixo, só na semana passada — dezasseis anos e meio depois de Caldas ter começado a competir em categorias femininas — é que alguém em posição de autoridade em qualquer desporto exigiu explicações definitivas a Caldas por se fazer passar por uma atleta nascida mulher.





Hugo Caldas nasceu há 48 anos, filho de pais portugueses. Além disso, nada sabemos sobre a infância e juventude do atleta, uma vez que todos os pormenores desta fase da vida parecem ter sido meticulosamente apagados das redes sociais e de outras fontes online de Caldas.

Em 2006, após ter concluído os estudos em Inglaterra e na Escócia, Caldas — então com quase trinta anos — começou a trabalhar como professor associado de Neurocirurgia na Universidade de Wake Forest, na Carolina do Norte. Durante este período, Caldas competiu como atleta masculino em eventos organizados sob os auspícios da U.S. Masters Swimming (USMS), uma organização recreativa sem fins lucrativos dedicada a "capacitar adultos dos 18 aos mais de 100 anos para melhorarem as suas vidas através da natação" nos Estados Unidos.

Hugo Caldas, como então era conhecido o atleta, era também assumidamente homossexual. Sabemos isto porque uma das três fotografias de “Hugo” que Caldas nunca conseguiu apagar da internet mostra um homem de cabelo curto a posar com outros membros do Ohio Splash, um clube de natação exclusivamente gay, durante o Campeonato Aquático Gay e Lésbico de 2001, realizado em Toronto (onde, segundo consta, a equipa Splash ficou em terceiro lugar).

À esquerda: foto de 2021 de Hugo Caldas. À direita: foto contemporânea de Ana Caldas

É difícil determinar o momento exato em que Hugo se tornou Hannah, mas há indícios relevantes em documentos universitários. O Boletim de 2007–08 da Wake Forest University menciona “Hugo Caldas” como professor assistente em dois departamentos distintos. Já na edição de 2008–09, Caldas surge como “Hugo” num departamento e “Hannah” noutro. Ambos os nomes apresentam formação académica idêntica no Reino Unido, e um pedido de patente apresentado durante esse período, relativo a investigação académica conduzida por Caldas, identifica a mesma pessoa com ambas as designações: “Hugo (Hannah)”.

Não se sabe se Caldas fez uso de hormonas durante e após a transformação de Hugo em Hannah. Mas, se o fez, a sua utilização não parece ter afetado significativamente o seu desempenho atlético. Em 2022, um investigador perspicaz da comunidade CrossFit descobriu que "Hugo" e "Hannah" registaram tempos semelhantes nas mesmas provas de natação.

Os registos da USMS (United States Masters Swimming) indicam que foi a 23 de janeiro de 2009 que uma nova sensação das piscinas, identificada como “Hannah Caldas”, surgiu repentinamente no circuito feminino da organização. Apesar de ser uma completa desconhecida, Caldas começou de imediato a dominar a competição na categoria dos 30–34 anos, vencendo cinco das seis provas no seu torneio inaugural, em Charlotte, Carolina do Norte. As suas prestações foram tão impressionantes que, segundo relatos, Caldas ficou a apenas 0,3 segundos de atingir o tempo mínimo exigido para integrar a equipa olímpica feminina de natação de Portugal.

Esta seria uma trajetória atlética incrivelmente impressionante para qualquer pessoa, quanto mais para uma (nominal) estreante como Caldas, que conseguiu superar com facilidade as antigas estrelas da natação da NCAA, apesar de não ter tido qualquer treino universitário como atleta feminina. e que, nesta altura da vida, já tinha passado a idade ideal para nadadoras de nível olímpico há uma década.

Mas, claro, isto torna-se muito menos impressionante quando nos lembramos que, ao contrário de todas as outras pessoas que estavam na piscina naquele momento, Caldas não era uma mulher biológica.

Fonte: Quillette, 30 de outubro  2025

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