O eterno desprezo sionista pelos acordos e pela paz

Perry Mason (1957-1966) – Phyllis Avery, Strother Martin

Mais uma vez, o mundo assiste à assinatura de um acordo de cessar-fogo entre Israel e a resistência palestiniana. E mais uma vez, a história repete-se. Enquanto alguns alimentam esperanças de reconstrução em Gaza, o ceticismo prevalece entre os palestinianos, sustentado por décadas de traições.

De facto, a história mostra que Israel nunca honrou os compromissos que assinou. Para a entidade sionista, cada trégua é meramente uma pausa tática, uma manobra diplomática para reorganizar a ocupação e preparar a próxima agressão.

O recente cessar-fogo não foi exceção: em poucos dias, o exército israelita, sob as ordens de Benjamin Netanyahu, lançou brutais ataques contra a Faixa de Gaza, assassinando mais de uma centena de palestinianos, entre os quais 52 crianças, 23 mulheres, 4 idosos e 7 pessoas com deficiência, sob a falsa alegação de que o Hamas tinha atacado as tropas israelitas.

O Hamas negou as acusações e denunciou a violação como uma tentativa deliberada de sabotar o acordo. O texto denunciou ainda que os atos sistemáticos de violação do cessar-fogo demonstram que a ocupação pratica uma política de assassinato em massa como uma estratégia consistente, e não como um incidente isolado.

Desde os Acordos de Oslo, em 1993, que o contraste entre a boa-fé palestiniana e o desprezo israelita pelos compromissos tem sido gritante. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) reconheceu o direito de “Israel” a existir dentro das fronteiras de 1967, acreditando que o caminho da diplomacia poderia conduzir à paz.

Em troca, o que os palestinianos receberam foram mais colonatos ilegais, mais postos de controlo, mais prisões e mais muros. A promessa de um Estado palestiniano em cinco anos nunca passou de uma ilusão. Oslo, em vez de libertar a Palestina, institucionalizou a ocupação.

Sob o comando de Benjamin Netanyahu, esta política de sabotagem atingiu o seu auge. Nenhum outro líder israelita demonstrou um desrespeito tão grande pelo direito internacional e pela própria ideia de coexistência, abraçando abertamente o projeto de anexação permanente e a eliminação da Palestina como nação. A cada cessar-fogo, Israel ganha tempo para se rearmar, reconstruir o seu aparelho militar e planear novas ofensivas, enquanto o mundo, cúmplice pelo silêncio, clama por “moderação de ambos os lados” — como se houvesse simetria entre o colonizador e o colonizado.

Desde 1948 que Israel tem vindo a violar sistematicamente as resoluções da ONU que exigem a retirada dos seus exércitos dos territórios ocupados, o fim da colonização e o regresso dos refugiados. Ignora a Carta das Nações Unidas, a Quarta Convenção de Genebra e todos os acordos de cessar-fogo que assinou.

O seu desprezo pelos tratados não é acidental, mas estrutural: faz parte da lógica sionista de expansão e exclusão, que vê o território palestiniano como um espaço a ser expurgado dos seus habitantes originais.

Mesmo perante tamanha opressão, o povo palestiniano não se rende. A cada bombardeamento, surge uma nova geração, movida pela dignidade e pelo amor à terra. A resistência — política, cultural e armada — é a resposta legítima de um povo que se recusa a desaparecer. Israel tenta transformar cada acordo num instrumento de submissão, mas os palestinianos transformam cada violação numa prova de que a sua luta é justa e inabalável. A resistência é, portanto, a continuidade da vida, a afirmação de que a Palestina existe e continuará a existir.

O desequilíbrio moral e político entre as partes é evidente: por um lado, um povo que luta pela autodeterminação e honra os seus compromissos; do outro, uma potência militar que vive da traição, da ocupação e da negação do outro. Cada cessar-fogo anunciado como esperança revela-se uma farsa.

O discurso da paz serve apenas para legitimar o opressor e silenciar a vítima. A verdadeira paz não nascerá de acordos assinados por aqueles cuja prática habitual é a desobediência, mas da derrota do sistema colonial que sustenta a entidade sionista.

Enquanto as bombas caem e os muros se erguem, o povo palestiniano continua a reconstruir a sua pátria com as suas próprias mãos. Cada casa reconstruída, cada bandeira hasteada sobre os escombros, é um ato de soberania, honra e coragem.

Mesmo com Gaza cercada, a Cisjordânia fragmentada e Jerusalém Oriental judaizada, o povo palestiniano mantém-se firme. E é esta firmeza que mantém viva a causa da libertação. Porque, apesar das vedações, dos bloqueios e das bombas, a Palestina continua a existir na resistência do seu povo, e esta resistência é a resposta mais poderosa ao fracasso moral e político de Israel.

Fonte: Middle East Monitor, 1 de novembro de 2025

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