Olímpicas XX

Perry Mason (1957-1966) – Jay Novello

O corpo masculino não é uma opinião, é uma realidade genética. Defender que homens biológicos possam competir com mulheres, mesmo após terapias hormonais, é negar esse facto e fazer da arena do mérito, a praça da batota

Em 2025, pela primeira vez, uma mulher casada e com filhos ganhou a competição Miss Portugal porque, finalmente, as regras mudaram e autorizam a tal. Embora já anteriormente tivesse ganho um homem transgénero. Primeiro venceu um homem XY e só depois uma mãe. Ainda falta permitir a inclusividade de não solteiras ou com descendência na Miss Universo, até porque, como disse Camila Vitorino, a vencedora deste ano: “Uma mulher que é casada e mãe não deixou de ser mulher”.

Lá está. Continuamos a ter de constatar evidências.  Entretanto, o Comité Olímpico Internacional está prestes a decidir o óbvio: o desporto feminino deve ser reservado às mulheres.

Menos cancro da próstata no Desporto Feminino? Também são boas notícias ainda que, por vezes, o jornalismo, as instituições, os especialistas e até a ciência pareçam “os últimos a saber”. A sério que precisavam de mais estudos para terem a certeza de que só existem dois sexos, anatómica e fisiologicamente muito distintos?!

O desporto feminino nasceu precisamente para equilibrar o que a biologia diferencia — força, densidade óssea, estrutura corporal, velocidade, potência. O corpo masculino não é uma opinião, é uma realidade genética: XY. Defender que homens biológicos possam competir com mulheres, mesmo após terapias hormonais, é negar esse facto e fazer da arena do mérito, a praça da batota.

Aliás, a ciência é clara: as vantagens físicas decorrentes da puberdade masculina mantêm-se, mesmo depois da supressão de testosterona. Ignorar isso é cilindrar as atletas que treinam duro todos os dias de uma vida inteira para chegar ao pódio — apenas para serem destronadas por quem esteve em vantagem desde a conceção.

E há um segundo direito que precisa também de ser reafirmado alto e bom som: o das crianças. Fala-se hoje em travar a puberdade de miúdos de 10 ou 12 anos, para que mais tarde possam competir sem “vantagem masculina”. Eis a barbaridade. E outra evidência: uma criança nessa idade não decide se come sopa ou a que horas se deita, quanto mais se quer alterar o seu desenvolvimento biológico sem bilhete de volta.

Encharcar crianças saudáveis em químicos, manipular-lhes o corpo e o futuro, é uma agressão, não uma libertação. Nenhuma causa — por mais nobre que se proclame — justifica violar a integridade física e psicológica de seres humanos frágeis e sem autodeterminação.

O que está em causa é simples: aceitar a biologia e proteger mulheres e crianças. Defender que mulheres a competir com mulheres não é discriminação — é justiça. Proteger crianças de decisões irreversíveis não é intolerância — é humanidade. A igualdade não nasce de fingir que não há diferenças; nasce de as reconhecer e garantir que ninguém é prejudicado por elas.

Há mais de um século, em 1921, deu-se o 1.º Encontro Internacional de Educação Física Feminina, evento precursor das primeiras Olimpíadas da era moderna exclusivamente de mulheres. O desporto feminino é uma conquista civilizacional. E nós, mulheres, olimpicamente, não abdicaremos delas. Nem uma única. Solteiras, casadas, sem filhos ou com meia dúzia. Bonitas, mais ou menos, atléticas ou nem por isso. XX.

Joana Amaral Dias

Fonte: SAPO, 12 de novembro de 2025  

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