Os tomates das Galápagos parecem estar a regredir. Eis o que isso pode significar
Perry Mason
(1957-1966) – Arlene Martel
A centenas de quilómetros da costa do Equador, precisamente
no lugar que inspirou a teoria da evolução de Charles Darwin, uma espécie
selvagem parece ter carregado no botão de rebobinar.
Um pequeno tomate encontrado no arquipélago das Galápagos,
conhecido cientificamente como Solanum pennellii, chamou pela primeira
vez a atenção dos investigadores em 2024, durante um estudo sobre alcaloides,
compostos naturais produzidos pelas plantas que funcionam como pesticidas
naturais. À medida que os cientistas analisavam tomates de várias zonas do arquipélago,
notaram algo peculiar: os Solanum pennellii das ilhas mais jovens e
ocidentais estavam a produzir compostos que não eram vistos em plantas de
tomate há milhões de anos.
Os investigadores compararam então estas plantas invulgares
com amostras de Solanum pennellii das ilhas mais antigas. Descobriram
que os tomates das ilhas orientais tinham um sistema de defesa moderno, o que
implica que as plantas ocidentais mais jovens não ficaram para trás na jornada
evolutiva da espécie, mas sim apresentaram um possível caso de “evolução
reversa”.
“Não é muito comum observarmos evolução reversa”, disse Adam
Jozwiak, bioquímico molecular da Universidade da Califórnia, em Riverside, que
fez parte da equipa responsável pela descoberta. Os cientistas publicaram as
suas conclusões em junho, na revista Nature Communications.
“Pensamos que talvez as condições ambientais tenham
pressionado estes tomates a regressar ao seu estado original, ou ancestral”,
explicou Jozwiak, acrescentando que a descoberta “mostra
que a natureza é muito flexível e que não funciona da forma que imaginávamos,
em que tudo avança apenas num sentido”.
Embora o fruto das plantas ocidentais apresentasse um aspeto
ligeiramente diferente, com uma coloração arroxeada e caules mais escuros, em
vez dos tons vivos e quentes habituais, as maiores diferenças em relação aos
tomates das ilhas orientais encontravam-se ao nível molecular.
Ao analisar mais de 30 amostras de tomate, os investigadores
observaram que o Solanum pennellii ocidental possuía uma impressão
digital molecular semelhante à da beringela, outro membro da família das
solanáceas que partilha um ancestral comum. Enquanto os tomates modernos
evoluíram de forma a deixar de produzir os alcaloides típicos da beringela, os
das ilhas ocidentais das Galápagos pareciam ter re-evoluído, ou
"de-evoluído", para conter novamente esse gene ancestral.
Ao estudar estas moléculas e investigar por que razão os
tomates voltaram a ativar genes antigos, os cientistas poderão criar culturas
agrícolas mais resistentes, pesticidas mais eficazes ou até novos medicamentos,
disse Jozwiak. A descoberta também poderá ajudar a compreender melhor a
evolução em várias espécies, incluindo os seres humanos, e perceber se é mais
flexível do que se pensava.
A reativação das defesas ancestrais do tomate
O Solanum pennellii tem origem na América do Sul e
terá chegado às ilhas Galápagos transportado por aves que levaram as suas
sementes entre 1 a 2 milhões de anos atrás, antes de as ilhas mais jovens se
formarem devido à atividade vulcânica, segundo Jozwiak. Embora os especialistas
não saibam ao certo quando os tomates chegaram às ilhas mais jovens, a evolução
da planta terá ocorrido nos últimos 500 mil anos, aproximadamente o tempo desde
que essas ilhas emergiram, disse Jozwiak.
Nas ilhas orientais, o ambiente é mais estável e
biologicamente diverso, enquanto as ilhas jovens têm uma paisagem árida e solos
pouco desenvolvidos. O mistura tóxica de moléculas produzida pelos tomates com
genes antigos não só ajuda as plantas a afastar predadores, como também,
segundo Jozwiak, pode auxiliar as raízes a absorver mais nutrientes ou a
proteger-se de doenças.
Ao analisar os tomates, os investigadores descobriram que
uma simples alteração na composição dos aminoácidos foi suficiente para fazer a
planta regressar a traços ancestrais. Depois, modificaram geneticamente plantas
de tabaco da mesma forma para observar a produção dos compostos antigos e
confirmar o mecanismo.
Mas são necessários mais estudos para compreender o
benefício desta transformação, e por que motivo a reversão está a acontecer,
afirmou Jozwiak.
O caso do Solanum pennellii lança luz sobre a forma
como as plantas desenvolvem diferentes químicas sob condições distintas,
segundo Anurag Agrawal, ecólogo evolucionário e professor de Estudos Ambientais
na Universidade Cornell, em Ithaca, Nova Iorque. Ainda assim, acrescentou que
não considera particularmente surpreendente a ideia de evolução reversa nos
tomates.
“A maioria dos biólogos evolucionários rejeita a noção de
que a evolução é um processo em linha reta, é antes um processo de
experimentação que frequentemente faz desvios e regressões”, disse Agrawal por
email.
Apontou exemplos como a perda de visão em animais que vivem
em cavernas, a perda da capacidade de voo em aves que descendem de antepassados
voadores, como pinguins, avestruzes e kiwis, e a perda de patas traseiras em
mamíferos aquáticos como baleias, golfinhos e botos, cujos antepassados de
quatro patas regressaram ao mar.
Mais pesquisas, incluindo experiências que determinem o
momento e as condições em que os tomates evoluíram para este estado ancestral,
ajudariam a confirmar o que causou a reversão.
Os alcaloides em altas concentrações não são seguros para
consumo humano, o que torna valioso o estudo destes compostos e a forma de os
controlar, explicou Jozwiak. No entanto, os tomates selvagens das Galápagos não
têm qualquer impacto na saúde humana, uma vez que não são cultivados para
alimentação.
Jozwiak afirmou que espera regressar às ilhas para procurar
respostas a estas questões, bem como para estudar outros traços potencialmente
influenciados pelas moléculas ancestrais, como as interações com insetos ou a
taxa de decomposição das plantas.
Desafiar uma lei da evolução
É comum certas espécies desenvolverem características
específicas em ilhas. Darwin observou esse fenómeno durante o seu trabalho nas
Galápagos, em 1835, reparando, por exemplo, que os tentilhões apresentavam
diferentes formatos de bico adaptados às fontes de alimento disponíveis em cada
ilha.
Ainda assim, o termo “evolução reversa” é considerado
controverso no campo da biologia evolutiva, já que a evolução normalmente não é
entendida como um processo que pode andar para trás, disse Jozwiak.
Além disso, “como a evolução não tem um objetivo
predeterminado, é um pouco problemático falar em ‘avanço’ ou ‘reversão’.
Mudança é mudança”, afirmou Eric Haag, professor de biologia na Universidade de
Maryland, em College Park, num email. Haag não esteve envolvido no estudo.
Haag referiu-se à chamada Lei de Dollo, um princípio da
biologia evolutiva que estabelece que, uma vez perdido um traço ao longo da
evolução, este não pode ser recuperado exatamente da mesma forma. Por exemplo,
os golfinhos evoluíram de mamíferos terrestres que regressaram ao mar há
milhões de anos, mas as suas caudas ficaram posicionadas de forma diferente, e
continuam a precisar de respirar ar, explicou Haag.
Por isso, o artigo “representa, de certo modo, um desafio à
Lei de Dollo”, acrescentou. “Parece que as alterações específicas dos
aminoácidos… nas espécies das Galápagos são algumas das mesmas que existiam em
ancestrais muito distantes. Chegar novamente a esse ponto é, sem dúvida,
interessante.”
Mas o caso é complexo, observou Haag, porque também parece
que os tomates diferem dos seus antepassados: os tomates das ilhas mais jovens,
que readquiriram o gene ancestral, produzem tanto os alcaloides modernos como
os antigos. É necessário estudar mais para compreender o que está realmente a
acontecer e se a seleção natural favoreceu as mutações ancestrais, disse.
Embora não estude seres humanos, Jozwiak afirmou que, ao
encarar a evolução como algo mais flexível, os cientistas poderão observar
outras espécies onde este fenómeno possa estar a ocorrer, e até explorar a possibilidade de os humanos um dia
“evoluírem ao contrário”, reativando genes ancestrais ao longo do tempo.
O conceito é semelhante aos raros casos de pessoas que
nascem com caudas rudimentares, um traço presente nos antepassados primatas há
mais de 25 milhões de anos, explicou Brian Hall, professor emérito de biologia
celular evolutiva na Universidade de Dalhousie, no Canadá. O que resta
atualmente são ossos da cauda que ainda têm potencial para se desenvolver,
acrescentou.
Contudo, o termo “evolução reversa” é “sem sentido, porque
implica que regressámos a um estado ancestral, o que é obviamente impossível”,
disse Hall à CNN por email. Preferiu descrevê-lo como uma “retenção do
potencial evolutivo”. Isto também se observa em cavalos, que normalmente têm um
só dedo, mas ocasionalmente podem nascer com três, como os seus antepassados,
notou.
“O que se perdeu nos cavalos modernos são os três dedos. O que se manteve dos ancestrais é o potencial para formar três dígitos”, acrescentou Hall.
Por outro lado, Beth Shapiro, professora de ecologia e
biologia evolutiva na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, afirmou
considerar o termo uma boa forma de envolver mais pessoas no conceito de
evolução.
“É apenas uma maneira de falar mais centrada no ser humano
do que puramente científica. A evolução não é
direcional; é aleatória”, disse Shapiro num email. “À medida que o
tempo avança, a evolução continua, e, por vezes, isso significa que variantes
genéticas que deixaram de ser comuns voltam a sê-lo. Mas continua a ser
evolução.”
Embora o conceito de que a evolução “pode seguir qualquer
direção” não seja amplamente aceite por alguns cientistas, Jozwiak disse que
continua a ser um tema importante que merece mais investigação.
“A evolução foi sempre impulsionada pelas condições
ambientais, pela competição”, acrescentou. “Seria interessante demonstrar que
as características que as espécies tinham no passado eram perfeitas para essas
condições, e que, se o ambiente mudar agora, podemos voltar a ter esse traço,
ou outro, que nós, ou outras espécies, já tivemos.”
Fonte: CNN Portugal, 23 de novembro de 2025

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