Proposta europeia desafia plano de paz dos EUA. Qual o caminho para a Ucrânia?

Perry Mason (1957-1966) – Noah Keen, Abigail Shelton

Vários países europeus apresentaram uma alternativa profunda ao plano de paz norte-americano para a Ucrânia, contrariando pontos considerados favoráveis a Moscovo e reforçando a necessidade de respeitar a soberania de Kiev. O novo documento surge em plena ronda de negociações internacionais na Suíça.

O que diz o plano dos EUA?

O plano dos EUA, com 28 pontos e divulgado na semana passada, prevê concessões altamente sensíveis por parte da Ucrânia: entrega de território à Rússia, limitação drástica das suas forças armadas e renúncia a perseguir judicialmente Moscovo por alegados crimes de guerra. Estas condições geraram preocupação profunda entre aliados europeus, surpreendidos pela forma como o texto norte-americano parecia alinhar com exigências vindas do Kremlin.

A tensão intensificou-se com declarações de Donald Trump, que criticou a alegada falta de gratidão de Kiev pelos esforços de Washington para encerrar o conflito. Apesar do tom hostil, Zelensky respondeu de forma conciliatória, reafirmando a sua gratidão pela ajuda militar norte-americana, salientando que armamento como os mísseis Javelin salvou inúmeras vidas ucranianas.

A polémica agravou-se quando Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, reconheceu que o plano tinha sido inicialmente “concebido em Moscovo”, embora depois tenha recuado e defendido que o documento era de autoria norte-americana, ainda que com contributos russos e ucranianos. Esta contradição alimentou desconfiança entre aliados europeus e aumentou a pressão diplomática.

E afinal que alternativa é esta que hoje surgiu?

A Europa avançou, este domingo, com uma contraproposta ao plano de paz apoiado pelos Estados Unidos, introduzindo alterações de fundo e afastando-se de várias exigências vistas como pró-russas no documento original. A iniciativa marca uma clara divergência em relação a Washington, num momento em que negociadores norte-americanos, ucranianos e internacionais se reuniam em Genebra, refere o The Guardian.

Assim, parceiros europeus da Ucrânia decidiram avançar com o seu próprio documento. No plano alternativo, defendem que qualquer negociação territorial só deverá ocorrer após um cessar-fogo, tomando como base a atual linha da frente. Propõem ainda que a monitorização da trégua fique sob supervisão dos EUA, mantendo um papel ativo de Washington, mas sem que Kiev seja forçada a ceder cidades que controla no Donbass — uma diferença substancial em relação ao esboço apresentado pela Casa Branca.

Outro ponto marcante é a recusa em excluir a possibilidade de adesão da Ucrânia à NATO, embora o texto europeu reconheça que não existe consenso sobre este tema. O plano contém ainda propostas inesperadas, incluindo a entrega da central nuclear ocupada de Zaporíjia à Agência Internacional de Energia Atómica, que administraria a infraestrutura repartindo o fornecimento elétrico entre Kiev e Moscovo. O exército ucraniano, em tempo de paz, ficaria limitado a 800 mil militares — mais 200 mil do que o previsto pelos EUA.

A reconstrução da Ucrânia, segundo a proposta europeia, seria financiada através de ativos russos congelados, ao contrário da solução norte-americana que previa canalizar parte desses recursos para investidores dos EUA. Em troca de um compromisso russo com uma “paz sustentável”, as sanções impostas desde 2014 seriam gradualmente levantadas, permitindo eventualmente o regresso de Moscovo ao G8.

O que diz a Ucrânia sobre tudo isto?

A proposta europeia parece reunir maior apoio entre os ucranianos. Olexiy Haran, professor na Academia Kyiv Mohyla, afirmou que a população rejeita amplamente o plano norte-americano, mas estaria disposta a aceitar o europeu, apesar de difícil. Concessões territoriais à Rússia, porém, são rejeitadas pela maioria.

Como salientou Haran, “qualquer acordo de paz não é sobre Zelensky; é sobre o povo ucraniano e a sua visão da Ucrânia como nação”. E, para a sociedade ucraniana, os pontos mais controversos do plano de Trump são simplesmente inaceitáveis.

Quanto ao presidente ucraniano, Zelensky afirmou, este domingo, que é positivo existirem “sinais de que a equipa de Trump nos ouve”.

Neste momento, considera-se que Zelensky vai aceitar bem a contraproposta europeia, uma vez que o presidente ucraniano tem sofrido enorme pressão para ceder às exigências dos EUA. Na semana passada, disse que o seu país enfrenta uma escolha impossível entre trair os interesses nacionais e perder um importante aliado, Washington. "O derramamento de sangue deve ser interrompido e devemos garantir que a guerra jamais seja reacendida", escreveu.

Fonte: 24 Notícias, 23 de novembro de 2025

Esta é a contraproposta da Europa com 28 pontos: Ucrânia tem de negociar territórios ocupados e Rússia será novamente convidada para o G8

Este é o plano apresentado pela Europa e que está a ser discutido em Genebra

A Europa apresentou uma contraproposta ao projeto de plano de paz entre os EUA e a Rússia para a Ucrânia.

A agência Reuters teve acesso ao documento - redigido pelo Reino Unido, França e Alemanha - que utiliza como base o plano de 28 pontos dos Estados Unidos, analisando-o ponto por ponto com sugestões de alterações e supressões.

1. A soberania da Ucrânia deve ser reconfirmada.

2. Será alcançado um acordo de não-agressão total e completo entre a Rússia e a Ucrânia e a NATO. Todas as ambiguidades dos últimos 30 anos serão resolvidas.

3. (O ponto 3 do plano dos EUA foi suprimido. Um rascunho do plano visto pela Reuters dizia: “Haverá a expetativa de que a Rússia não invadirá os seus vizinhos e a NATO não se expandirá mais”).

4. Após a assinatura de um acordo de paz, será convocado um diálogo entre a Rússia e a NATO para abordar todas as questões de segurança e criar um ambiente de desescalada para garantir a segurança global e aumentar a oportunidade de relação e de futuras oportunidades económicas.

5. A Ucrânia beneficiará de sólidas garantias de segurança.

6. Limitação do efetivo militar ucraniano a 800 000 elementos em tempo de paz.

7. A adesão da Ucrânia à NATO depende do consenso dos membros da NATO, que não existe.

8. A NATO concorda em não estacionar permanentemente tropas sob o seu comando na Ucrânia em tempo de paz.

9. Os aviões de combate da NATO ficarão estacionados na Polónia.

10. Garantia dos EUA que reflete o artigo 5º

a) Os EUA receberão uma indemnização pela garantia

b) Se a Ucrânia invadir a Rússia, perde a garantia

c) Se a Rússia invadir a Ucrânia, para além de uma resposta militar robusta e coordenada, serão restabelecidas todas as sanções globais e será retirado qualquer tipo de reconhecimento do novo território e todos os outros benefícios decorrentes deste acordo.

11. A Ucrânia é elegível para a adesão à União Europeia e beneficiará, a curto prazo, de um acesso preferencial ao mercado europeu, enquanto este está a ser avaliado.

12. Pacote robusto de reconversão global para a Ucrânia, incluindo, mas não se limitando a:

a) Criação de um fundo de desenvolvimento da Ucrânia para investir em sectores de elevado crescimento, incluindo a tecnologia, os centros de dados e os esforços da Al

b) Os Estados Unidos estabelecerão uma parceria com a Ucrânia para, em conjunto, restaurar, desenvolver, modernizar e explorar as infraestruturas de gás da Ucrânia, que incluem os gasodutos e as instalações de armazenamento

c) Um esforço conjunto para reabilitar as zonas afetadas pela guerra, a fim de recuperar, reabilitar e modernizar as cidades e as zonas residenciais

d) Desenvolvimento de infraestruturas

e) Extração de recursos minerais e naturais

f) O Banco Mundial desenvolverá um pacote especial de financiamento para acelerar estes esforços.

13. A Rússia deverá ser progressivamente reintegrada na economia mundial

a) A redução das sanções será discutida e acordada por fases e numa base caso a caso

b) Os Estados Unidos celebrarão um Acordo de Cooperação Económica a longo prazo para prosseguir o desenvolvimento mútuo nos domínios da energia, dos recursos naturais, das infraestruturas, da IA, dos centros de dados, das terras raras, dos projetos conjuntos no Ártico, bem como de várias outras oportunidades empresariais mutuamente benéficas

c) A Rússia será convidada a regressar ao G8.

14. A Ucrânia será totalmente reconstruída e compensada financeiramente, inclusive através de ativos soberanos russos que permanecerão congelados até que a Rússia compense os danos causados à Ucrânia.

15. Será criado um grupo de trabalho conjunto em matéria de segurança, com a participação dos EUA, da Ucrânia, da Rússia e dos europeus, para promover e fazer cumprir todas as disposições do presente acordo.

16. A Rússia consagrará por via legislativa uma política de não agressão em relação à Europa e à Ucrânia.

17. Os Estados Unidos e a Rússia acordam em prorrogar os tratados de não-proliferação e de controlo nuclear, incluindo o Fair Start.

18. A Ucrânia concorda em permanecer um Estado não nuclear ao abrigo do TNP [Tratado de Não Proliferação Nuclear].

19. A central nuclear de Zaporizhzhia será reiniciada sob a supervisão da [Agência Internacional da Energia Atómica] AIEA, e a energia produzida será partilhada equitativamente numa proporção de 50-50 entre a Rússia e a Ucrânia.

20. A Ucrânia adotará as regras da UE em matéria de tolerância religiosa e de proteção das minorias linguísticas.

21. Territórios: A Ucrânia compromete-se a não recuperar o seu território soberano ocupado através de meios militares. As negociações sobre trocas territoriais terão início a partir da Linha de Contacto.

22. Uma vez acordadas as futuras disposições territoriais, tanto a Federação da Rússia como a Ucrânia comprometem-se a não alterar essas disposições pela força. As eventuais garantias de segurança não serão aplicáveis em caso de incumprimento desta obrigação.

23. A Rússia não impedirá a utilização do rio Dnieper pela Ucrânia para efeitos de atividades comerciais, e serão celebrados acordos para que os carregamentos de cereais possam circular livremente através do Mar Negro.

24. Será criado um comité humanitário para resolver as questões em aberto:

a) Todos os restantes prisioneiros e cadáveres serão trocados segundo o princípio "Todos por Todos"

b) Todos os civis detidos e reféns serão devolvidos, incluindo as crianças

c) Haverá um programa de reagrupamento familiar

d) Serão adotadas disposições para fazer face ao sofrimento das vítimas do conflito.

25. A Ucrânia realizará eleições o mais rapidamente possível após a assinatura do acordo de paz.

26. Serão tomadas medidas para fazer face ao sofrimento das vítimas do conflito.

27. O presente acordo será juridicamente vinculativo. A sua aplicação será monitorizada e garantida por um Conselho de Paz, presidido pelo presidente Donald J. Trump. Haverá sanções em caso de violação.

28. Se todas as partes derem o seu acordo ao presente memorando, o cessar-fogo entrará imediatamente em vigor quando ambas as partes se retirarem para os pontos acordados para dar início à aplicação do acordo. As modalidades do cessar-fogo, incluindo o controlo, serão acordadas por ambas as partes sob a supervisão dos EUA.

Fonte: CNN Portugal, 23 de novembro de 2025

Os papagaios de serviço na lavagem de carros  

Plano de paz “não preenche requisitos mínimos”, diz Luís Montenegro

O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, afirmou hoje que o plano norte-americano para a paz na Ucrânia “não preenche requisitos mínimos” e defendeu que a articulação com a União Europeia “é obrigatória” neste processo negocial.

Falando aos jornalistas em Luanda, após visitar uma obra e a propósito da reunião dos líderes europeus convocada por António Costa à margem da cimeira UA-UE, Montenegro destacou a necessidade de “uma reflexão rápida” da Europa sobre o plano em discussão.

“A meu ver, não preenche aqueles que são os requisitos mínimos que salvaguardam uma paz justa e duradoura para a Ucrânia”, afirmou, acrescentando que o documento constitui “uma base”, mas “muito insuficiente para aquilo que são os objetivos europeus”.

O primeiro-ministro sublinhou que todos os esforços de mediação são positivos.

“A mediação dos Estados Unidos, a participação dos Estados Unidos num processo de paz é bem-vinda”, disse, frisando, porém, que “a interação com a Europa é obrigatória”.

“A Europa tem todo o interesse em poder ser uma parte ativa deste processo e é isso que nós amanhã tentaremos fazer na reunião que foi convocada para esse efeito”, afirmou.

O objetivo, continuou, é “fazer evoluir estas bases de acordo, de maneira a salvaguardar o interesse da Europa e também o interesse da Ucrânia, que não está, na minha opinião, devidamente salvaguardado”.

Fonte: CNN Portugal, 23 de novembro de 2025

Marques Mendes considera que plano de paz dos EUA é um prémio para o agressor da Ucrânia

O candidato presidencial Luís Marques Mendes defendeu hoje, em Pombal, que o plano de paz dos Estados Unidos para a guerra da Ucrânia é um prémio para o agressor e uma injustiça para os ucranianos.

Durante um almoço com cerca de 500 apoiantes, em Pombal, no distrito de Leiria, Luís Marques Mendes sublinhou que “se a Ucrânia perder esta guerra, é a Europa que perde (...) é a segurança da Europa que pode estar em causa”.

“Este plano de paz apresentado pelos Estados Unidos, parece um plano de paz escrito em Moscovo. (...) é um prémio para quem foi o agressor e o invasor da Ucrânia”, reforçou o candidato apoiado pelo PSD e CDS-PP.

Considerando o plano uma “injustiça” para os ucranianos, Marques Mendes afirmou que é também uma “discriminação para a Europa, para a União Europeia e para o Reino Unido” e criticou o facto de a Europa não ter sido “ouvida nem achada na elaboração deste plano de paz”.

Fonte: CNN Portugal, 23 de novembro de 2025

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