Sem luz nem acusação: Rakefet, a prisão subterrânea onde Israel mantém palestinianos de Gaza
Perry Mason
(1957-1966) – Elaine Devry, George N. Neise
Israel mantém dezenas de palestinianos de Gaza detidos no
complexo subterrâneo de Rakefet, em Ramla, sem acusação nem julgamento, sem
acesso à luz natural e com restrições severas a alimentos e informação, segundo
advogados do Comité Público contra a Tortura em Israel (PCATI, na sigla em
inglês) que os visitaram. Entre os detidos estão um enfermeiro levado do
hospital onde trabalhava e um jovem vendedor de comida, ambos civis,
encarcerados desde janeiro no subsolo. A revelação é de uma investigação do jornal
The Guardian, publicada este sábado.
Rakefet abriu no início dos anos 80 para reclusos de alta
perigosidade e encerrou poucos anos depois por
ser considerada inumana. Foi reativada após os ataques de 7 de
outubro de 2023, por ordem do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir,
que anunciou a sua “reabilitação” para receber combatentes Nukhba do Hamas e
forças especiais do Hezbollah.
Todo o circuito — celas, um “pátio” exíguo e a sala de
advogados — fica abaixo do nível do solo, sem qualquer luz natural. Concebida
para 15 reclusos quando fechou em 1985, acolhe hoje cerca de 100 detidos, de
acordo com dados oficiais obtidos pela PCATI e revelados pelo The Guardian.
Os dois homens acompanhados por advogados — um enfermeiro de
34 anos detido em dezembro de 2023 e um jovem de 18 anos apanhado num posto de
controlo em outubro de 2024 — descreveram agressões regulares, cães com açaimes
de ferro usados em intimidação, ventilação deficiente que agrava a sensação de
asfixia e rações consideradas de fome. Os colchões são retirados de madrugada,
por volta das quatro da manhã, e devolvidos apenas à noite, e o tempo fora da
cela reduz-se a poucos minutos, dia sim dia não, num recinto também
subterrâneo.
O Supremo Tribunal israelita decidiu este mês que o Estado
tem privado prisioneiros palestinianos de alimentação adequada. E a PCATI
sublinha o impacto prolongado da ausência de luz na saúde mental e física, dos
ritmos circadianos à produção de vitamina D.
Apesar do cessar-fogo de meados de outubro ter libertado 1700
detidos de Gaza sem acusação e 250 condenados, pelo menos mil pessoas continuam
sob o mesmo regime, afirma a organização. Nos casos relatados, juízes
autorizaram a detenção em breves audiências por videoconferência, sem defesa
presente nem acesso à prova, com a indicação de que os arguidos permaneceriam
“até ao fim da guerra”.
O Serviço Prisional de Israel disse operar de acordo com a
lei e sob supervisão oficial, não sendo responsável pela política de detenções.
Enquanto o ministério da Justiça remeteu questões do The Guardian para
os militares, que as reenviaram para o serviço prisional. A PCATI afirma que,
embora a guerra tenha terminado formalmente, os palestinianos de Gaza continuam
a ser mantidos em condições que “violam” o direito humanitário internacional e
equivalem a “tortura”.
Fonte: CNN Portugal, 8 de novembro de 2025

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