"Sérios apuros". Trump nega ameaça de morte a congressistas por apelo à desobediência militar
O.P.J.
Pacific Sud (2019) - Lola Dewaere
Donald Trump escreveu na sua rede social que os
congressistas que desafiaram num vídeo os militares a desobedecer a ordens
"ilegais" da Administração incorreram em "comportamento
sedicioso, punível com morte!" Perante o clamor dos democratas, que
afirmaram que o presidente tinha apelado, quinta-feira, ao castigo com a pena
de morte, a Casa Branca negou que Trump queira
que os membros do Congresso sejam executados.
E, esta sexta-feira, aos microfones radio da Fox News,
o presidente norte-americano esclareceu que "não está a ameaçar de
morte" os congressistas.
"Não estou a ameaça-los,
mas penso que estão em sérios apuros. Diria que estão em sérios apuros. Não os
estou a ameaçar de morte, mas acho que estão em sérios apuros",
explicou.
O vídeo de 90 segundos, que circula nas redes sociais desde
terça-feira, apresenta seis congressistas democratas, que já serviram nas
Forças Armadas ou em funções de informação, os senadores Elissa Slotkin e Mark
Kelly, e os deputados Maggie Goodlander, Chris Deluzio, Chrissy Houlahan e
Jason Crow.
Dirigem-se diretamente aos militares que, afirmam, estão a
ser instrumentalizados pela Administração Trump para executar ordens
"ilegais". Desafiam-nos a que não as cumpram.
"Tal como nós, vocês juraram proteger e defender esta Constituição", referem no vídeo. "E agora, as ameaças à nossa Constituição não vêm apenas do estrangeiro, mas de dentro do nosso próprio país".
"As nossas leis são claras: podem recusar-se a cumprir
ordens ilegais, devem recusar-se a cumprir ordens ilegais. Ninguém é obrigado a
cumprir ordens que violem a lei ou a nossa Constituição", acrescentam.
"Prendam-nos???"
A reação de Trump não deixou margens para dúvidas,
considerando-os "traidores da nossa pátria" e defendendo que sejam
presentes em tribunal.
"Isto chama-se
COMPORTAMENTO SEDICIOSO NO MAIS ALTO NÍVEL. Cada um destes traidores da nossa
pátria deve ser PRESO E LEVADO A JULGAMENTO". escreveu
quinta-feira o presidente norte-americano numa publicação na sua rede Truth
Social.
Noutra publicação, considerou, "isto é realmente mau e perigoso para o nosso país. As
suas palavras não podem ser toleradas. COMPORTAMENTO SEDICIOSO DE TRAIDORES!!!
PRENDAM-NOS??? Presidente DJT."
A indignação presidencial mereceu uma terceira publicação.
"COMPORTAMENTO SEDICIOSO, punível com a
MORTE!", escreveu.
Donald Trump republicou ainda uma declaração a dizer "ENFORQUEM-NOS, GEORGE WASHINGTON FA-LO-IA!!"
Em resposta, os democratas cerraram fileiras na denúncia
destas declarações.
Contra-ataque democrata
Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado,
publicou a sua opinião no X. "Sejamos claros: o presidente dos Estados
Unidos está a incitar à execução de autoridades eleitas", escreveu.
E acrescentou: "Isto é uma AMEAÇA direta. Todos os
senadores, todos os representantes, todos os americanos – independentemente do
partido - devem condenar isto imediatamente e sem reservas".
Apelo igual feito pelo líder democrata na Câmara, Hakeem
Jeffries, pela líder da minoria democrata na Câmara, Katherine Clark, e pelo
presidente do caucus democrata, Pete Aguilar, numa declaração conjunta.
"A violência política não tem lugar na América",
escreveram.
"Os deputados Jason Crow, Chris DeLuzio, Maggie
Goodlander e Chrissy Houlahan, e os senadores Mark Kelly e Elissa Slotkin,
serviram o nosso país com enorme patriotismo e distinção. Condenamos
veementemente as repugnantes e perigosas ameaças de morte de Donald Trump
contra os membros do Congresso e apelamos aos republicanos da Câmara para que
façam o mesmo com a mesma veemência", acrescentaram.
Os líderes democratas afirmaram ainda ter contactado o
sargento de armas da Câmara e a polícia do Capitólio dos Estados Unidos
"para garantir a segurança destes membros e das suas famílias".
"Donald Trump deve apagar imediatamente estas
publicações descontroladas nas redes sociais e retratar-se da sua retórica
violenta antes que alguém seja morto", acrescentaram no comunicado.
Os congressistas que apareceram no vídeo também divulgaram
um comunicado.
"Somos veteranos e profissionais de segurança nacional
que amamos este país e juramos proteger e defender a Constituição dos Estados
Unidos", afirmaram. "Este juramento dura toda a vida e pretendemos
cumpri-lo. Nenhuma ameaça, intimidação ou incitamento à violência nos
dissuadirá desta obrigação sagrada".
"O mais revelador é que o presidente considera punível
com a morte o facto de reiterarmos a lei", prosseguiram.
"Os nossos militares devem saber que os apoiamos
enquanto cumprem o seu juramento à Constituição e a sua obrigação de seguir
apenas ordens legais. Não é apenas a coisa certa a fazer, mas também o nosso
dever", defenderam.
E acrescentaram, "todos os americanos devem unir-se e
condenar os apelos do presidente ao assassinato e à violência política. Este é
um momento que exige clareza moral".
"Ordens legais"
Mike Johnson, presidente republicano da Câmara dos
Representantes, defendeu por seu lado a alegação de Trump, de que os democratas
tinham cometido "sedição".
Johnson descreveu o vídeo como "extremamente
inapropriado" e acrescentou que "é muito perigoso ter membros
importantes do Congresso a ordenar às tropas que desobedeçam às ordens. Penso
que isto não tem precedentes na história americana".
Johnson terá ainda dito ao Independent que, pelo que
leu das publicações de Trump, o presidente estava a "definir o crime de
sedição".
"Mas, obviamente, os advogados precisam de analisar a
linguagem e determinar tudo isto. O que estou a dizer e direi, inequivocamente,
é que, foi extremamente inapropriado que os chamados líderes do Congresso
incentivassem os jovens soldados a desobedecer às ordens", acrescentou
Johnson.
Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, foi
questionada quinta-feira se o presidente "queria executar membros do
Congresso". "Não", respondeu sucintamente.
"Vamos deixar claro a que é que o presidente está a
responder", acrescentou Leavitt. "Temos membros do Congresso dos EUA
que conspiraram para orquestrar uma mensagem em vídeo para os membros das
Forças Armadas dos EUA, para os militares no ativo, incentivando-os a
desobedecer às ordens legais do presidente".
"A integridade das nossas Forças Armadas reside na
cadeia de comando, e se essa cadeia de comando for quebrada, isso pode levar a
mortes, pode levar ao caos, e é isso que estes membros do Congresso... estão
essencialmente a encorajar", explicou.
Investigação
Na rádio da Fox News, Trump negou ainda esta
sexta-feira que estivesse a apelar à execução dos congressistas, ressalvando
que, "antigamente", este comportamento dos legisladores teria sido
passível de pena de morte. Mas, reconheceu, "hoje é um mundo diferente".
"É um mundo mais manso e ameno. Mas devo dizer o seguinte: acho que o que fizeram foi realmente muito mau."
"Se analisar a sedição,
se analisar este tipo de coisas... é uma forma muito grave de traição. É uma
coisa terrível de se dizer, devo dizer", referiu o presidente,
para depois acrescentar que pensou de início que se tratava de uma piada.
"Ouvi e pensei que fosse alguma coisa cómica",
admitiu.
O presidente pensa que, tanto o Pentágono como o
Departamento de Justiça, estarão a investigar o vídeo. "Não sei ao certo,
mas acho que os militares estão a investigar", disse Trump.
Fonte: RTP, 21 de novembro
de 2025

Comentários
Enviar um comentário