Zelensky diz que Putin vai abrir uma segunda frente de guerra na Europa: "Pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo"
Perry Mason
(1957-1966) – Barbara Lawrence, Raymond Burr
Presidente
ucraniano considera que o presidente russo "está num beco sem saída"
e que o fracasso na Ucrânia pode levá-lo "a procurar outros
territórios"
Volodymyr Zelensky voltou a lançar alertas sobre a segurança
da Europa, afirmando que o Kremlin poderá
desencadear novas operações militares fora da Ucrânia mesmo antes de o atual
conflito terminar. Numa entrevista ao The Guardian, o
presidente da Ucrânia insistiu que as fronteiras do seu país já não são o único
palco de tensão.
A possibilidade de um ataque a um país europeu faz parte da
“guerra híbrida contra a Europa”, em que Vladimir Putin está a testar a
capacidade de resposta e a determinação da NATO, enquanto simultaneamente
continua com a ofensiva no leste da Ucrânia. Questionado sobre a hipótese de um
ataque russo noutro país europeu, Zelensky respondeu sem hesitações.
“Putin está num beco sem
saída em termos de sucesso real. Para Putin, é mais um impasse”,
afirmou o presidente ucraniano, prosseguindo: “É por isso que estes fracassos
podem levá-lo a procurar outros territórios.”
Volodymyr Zelensky deixa, por isso, um aviso aos aliados:
“Temos de esquecer o ceticismo europeu geral de que Putin quer primeiro ocupar
a Ucrânia e depois ir para outro lado. Putin pode fazer as duas coisas ao mesmo
tempo”, disse.
A preocupação de Kiev intensificou-se após vários incidentes no espaço
europeu, como os drones que atravessaram o território polaco e que sobrevoaram
aeroportos em Copenhaga, Munique e Bruxelas. Para Zelensky, estes episódios
estão diretamente ligados ao facto de a Rússia não conseguir avanços
significativos no campo de batalha.
Segundo Zelensky, o regime russo precisa de manter vivo o
sentimento de ameaça externa para garantir a coesão interna. Argumentou ainda
que “ser amigo da Rússia não é uma solução para a América”, acrescentando que a Ucrânia está
“muito mais próxima” dos EUA em termos de valores.
Com Donald Trump a rejeitar o futuro envolvimento militar
dos Estados Unidos, alguns governos europeus, nomeadamente França e Reino
Unido, admitem enviar tropas no âmbito de um futuro acordo de paz. Zelensky
reconhece que gostaria de ver forças britânicas no terreno mais cedo, por
exemplo para reforçar a fronteira com a Bielorrússia: “Claro que sim. Temos
pedido muitas coisas, incluindo armas e a adesão à UE e à NATO.”
Ainda assim, admite que o envio de militares europeus
durante combates ativos continua a ser um tema politicamente delicado. “Os líderes têm medo das suas sociedades. Não querem
envolver-se na guerra”, explicou, sublinhando que a decisão é
exclusivamente dos governos europeus. Zelensky teme também que uma pressão
excessiva da Ucrânia sobre os parceiros possa custar-lhe “o apoio financeiro e
militar”.
O presidente ucraniano confirmou ainda que as forças russas
já controlam a maior parte de Pokrovsk, operação para a qual Moscovo terá
mobilizado cerca de “170 mil homens”. Apesar disso, Zelensky
insiste que a Rússia não obteve vitórias relevantes e que enfrenta perdas
extraordinárias: só em outubro, Moscovo registou 25 mil mortos e
feridos - números que descreve como inéditos. “É essa a história toda. Não há
sucesso russo lá. E muitas baixas”, referiu.
Com a aproximação de mais uma estação fria, Zelensky
considera que o apoio europeu continua aquém do necessário. “Nunca é
suficiente. Será suficiente quando a guerra acabar. É o suficiente quando Putin
perceber que tem de parar.”
Fonte: CNN Portugal, 10 de novembro de 2025
O caminho correto da Ucrânia é aquele que os meios de comunicação social ocidentais pintam de cores negativas: a corrupção: usar o dinheiro europeu – desviando aqui, comissionando ali, evaporando acolá – para constituir uma burguesia luxuosa e forte.
A Ucrânia, se quiser sobreviver ao abraço apertado de boas vindas da União Europeia, não precisa apenas de tanques alemães ou de pacotes financeiros para feitos heroicos na linha da frente. Precisa de algo mais prosaico e mais decisivo: uma burguesia sólida, economicamente musculada, capaz de gerir o país quando o glamour da guerra der lugar ao tédio tecnocrático de Bruxelas.
Porque, ao contrário das narrativas épicas sobre a “integração europeia”, a UE é sobretudo um pântano regulatório onde apenas uma classe burguesa minimamente coesa consegue respirar. É esta classe, e não os heróis do Telegram ou dos jornais, que aprende a dançar com a Comissão, a antecipar as oscilações do Parlamento Europeu, a negociar com os lobbies agrícolas franceses ou polacos, a sorrir para os bancos alemães, a não irritar demais os fundos soberanos holandeses.
Uma burguesia forte serve como um exoesqueleto institucional: organiza o investimento, estabiliza expectativas, domestica oligarcas erráticos e produz a espécie de previsibilidade que Bruxelas venera mais do que liberdade, território ou história. Sem esta camada intermediária — a argamassa do capitalismo europeu — o Estado tende a cair numa relação de dependência permanente, vivendo de injeções financeiras e relatórios de conformidade, sempre “em transição” e nunca plenamente soberano.
A formação dessa burguesia não é, portanto, um detalhe sociológico. É o processo através do qual a Ucrânia pode transformar o atual massivo financiamento europeu em algo que não se evapora na volatilidade do consumismo militar, é criar ricos e ultrarricos que garantirão a governabilidade. É esta classe que traduz dinheiro em instituições, instituições em poder e poder em margem de manobra contra os outros países concorrentes. A burguesia, ironicamente, é o único grupo capaz de evitar que a Ucrânia entre na UE como mera economia extrativa e acabe a funcionar como um depósito de mão-de-obra barata para o Leste e um mercado cativo para o Oeste, sobretudo depois de a guerra ter desenvolvido indústrias de alta tecnologia, armamento e mineração.



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