Anúncio a Havaianas gera boicote à marca por referência a pé direito
Uma
frase num anúncio à marca de chinelos Havaianas gerou polémica no Brasil.
Muitos acusam a marca de estar a assumir uma posição política e estão a deitar
fora os chinelos que tinham
O novo anúncio publicitário da marca de chinelos Havaianas
está a gerar controvérsia no Brasil e tudo por uma questão de ideologia
política.
A protagonista da publicidade é a vencedora do Óscar para
Melhor Atriz deste ano, Fernanda Torres, que, num anúncio alusivo ao novo ano,
faz uma declaração que está a ser vista como uma posição política.
Nela, a atriz afirma que não deseja que as pessoas comecem
2026 "com o pé direito", mas sim com os dois pés.
O objetivo da frase seria fazer uma alusão ao facto de se
entrar em grande no novo ano. Contudo, muitos
acreditam que se tratou de uma afronta à Direita política.
A frase em causa foi interpretada por políticos,
influenciadores e militantes de Direita como sendo uma mensagem política
encoberta, refere a BBC Brasil, e nas redes sociais a marca tem sido
acusada de misturar publicidade com ideologia e de adotar um suposto viés à
esquerda.
Chinelos ao lixo
Em reação ao vídeo, muitos têm recorrido às redes sociais
para mostrar a sua indignação contra a marca. Alguns partilham-se a estragar ou
a deitar fora chinelos da marca que tinham adquirido.
O filho de Jair Bolsonaro, Eduardo, nas suas redes sociais,
deita fora os chinelos da marca, lamentando que a marca, outrora "símbolo
nacional" tenha escolhido "para ser garota propaganda da sandália uma
garota de esquerda".
"Isso aí não foi por acaso, peço desculpa", afirma antes de atirar com os chinelos ao lixo.
Já o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) fez um
trocadilho com o slogan da marca, "Havaianas: todo mundo usa".
"Havaianas, nem todo mundo agora vai usar",
escreveu Nikolas Ferreira nas redes sociais.
Há quem aproveite polémica
Se muitos estão a pôr de parte os chinelos, outros há que
estão a aproveitar o ódio contra a marca para fazer boas ações. É o caso de
Alexandre Frota, que diz que ao passear por São Paulo, foi recolhendo os
chinelos que foi encontrando, para doar a famílias.
"Vamos lavar, vamos dar uma reforma, e dar a pessoas
que precisam porque tem muita gente nesse país [que está] descalço",
disse.
Outros há, ainda, que recordam um anúncio antigo em que a
marca excluiu o chinelo do pé esquerdo sem que, contudo, ninguém se
pronunciasse sobre uma possível posição política da Havaianas.
Neste caso, o protagonista era Romario. Em 2014, o jogador participou num anúncio em que aparecia a calçar apenas o pé direito do chinelo e, ao ser questionado sobre o outro, afirma que mandou o pé esquerdo para Diego Maradona.
A BBC Brasil já tentou obter uma reação quer da atriz
como da marca em relação à polémica em que se viram envolvidas, sem, contudo,
ter obtido uma reação de nenhuma das partes.
As ações da Alpargatas (ALPA4) fecharam em queda na bolsa
brasileira na segunda-feira e perderam cerca de 152 milhões de reais (23,4
milhões de euros) de valor de mercado numa só sessão. Os títulos da empresa
encerraram com uma desvalorização de 2,39%, a 11,44 reais (cerca de 1,76 euros)
por ação.
Fonte: Notícias ao Minuto, 23 de dezembro de 2025
Dona da Havaianas perde 23 milhões em bolsa após anúncio
que provocou boicote da direita
“Não
comece 2026 com o pé direito”. Este anúncio publicitário, protagonizado pela
atriz Fernanda Montenegro, gerou um autêntico turbilhão político no Brasil, com
a direita a acusar a marca de se posicionar politicamente. Nem as negociações
em bolsa escaparam à polémica
A Alpargatas, dona dos chinelos Havaianas, enfrentou uma
sessão de fortes perdas no pregão da B3 desta segunda-feira (22), devido à
polémica que envolveu a última campanha publicitária da empresa.
O tombo de 2,4% nos papéis, agora cotados a R$ 11,44, levou
à perda de R$ 152 milhões (22,7 milhões de euros) em valor de mercado da
empresa, segundo a consultoria Elos Ayta. O Ibovespa, índice de referência do
mercado acionário brasileiro, caiu 0,21%.
A campanha protagonizada pela atriz Fernanda Torres passou a
ser alvo de críticas de apoiantes da direita nas redes sociais. A reação se
concentrou em um trecho do comercial em que a atriz afirma não desejar que o
público comece 2026 “com o pé direito”, mas “com os dois pés”.
A frase foi interpretada por políticos e influenciadores
como uma mensagem de cunho político. Entre os que se manifestaram estão o
ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira
(PL), que associaram o conteúdo da propaganda a uma suposta posição ideológica
da marca.
Questionada pela Folha, a Havaianas não respondeu até
a publicação desta reportagem.
A reação no mercado reflete temores de que o boicote gere
queda na faturação da Havaianas, afirma Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB
Investimentos. Ele avalia que impacto deve ser de curto prazo.
“Já vimos isso acontecer outras vezes com empresas que
tiveram alguma exposição nesse sentido, e de ambos os lados do espectro
político, como Smartfit, Madero, Magazine Luiza, JBS… Para a empresa ser
afetada porque se envolveu com alguma polémica política teria que ser algo
muito maior”, diz.
Este especialista acrescenta ainda que a companhia “deu
azar” de enfrentar uma polêmica no fim de ano, época tradicionalmente de baixa
liquidez no mercado. “Uma notícia negativa nesses momentos causa uma oscilação
maior, mas é difícil ver isso se estendendo por muito tempo.”
A polémica foi inflamada através de postagens nas redes
sociais de autoridades do lado direito do espectro político.
Num vídeo publicado em seu Instagram, Eduardo Bolsonaro
afirmou que achava que a Havaianas era um símbolo nacional. “Só que eu me
enganei, eles escolheram para ser a garota-propaganda da sandália uma pessoa
declaradamente de esquerda”, disse. Ele também criticou a frase da propaganda
sobre não começar o ano com o pé direito, afirmando que “isso não foi por
acaso”. De seguida, ele jogou os dois pés do chinelo no lixo.
No vídeo publicado nas redes, o ex-deputado ainda escreveu
que “quem lacra não lucra”. A publicação já conta com mais de 5 milhões de
visualizações e 600 mil curtidas.
Em seguida, grupos conservadores iniciaram uma campanha de
boicote acusando a cerveja de patrocinar pautas transgênero, de gozar com as
mulheres e de expor crianças à sexualidade. A polémica derrubou as vendas da
companhia e resultou na troca de dois executivos.
No X (ex-Twitter), Nikolas Ferreira comentou o caso.
“Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”, disse.
O senador por Minas Gerais Cleitinho Azevedo (Republicanos)
também publicou vídeos em suas redes sociais comentando a propaganda. Ele
afirmou que o pedido para não começar o ano “com o pé direito” funcionaria como
uma metáfora.
“A gente sabe o recado que a Havaianas quis deixar aqui, até
porque o ano que vem é um ano eleitoral e o país está extremamente polarizado.
E quem ela contrata para poder fazer essa propaganda? Uma atriz que é
declaradamente contra a direita, que faz várias entrevistas dizendo que é
contra a direita, que subiu no trio elétrico agora para dizer que é contra
amnistia”, afirmou. A publicação é a mais visualizada entre os vídeos recentes
do senador, com 2,8 milhões de visualizações e mais de 200 mil curtidas.
O empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, também
publicou conteúdo sobre o caso. Em postagem nas redes sociais, afirmou que,
neste verão, passaria a usar apenas chinelos da marca Ipanema, principal
concorrente da Havaianas.
Em 48 horas, o perfil da Ipanema no Instagram registou um
salto de mais de 490 mil novos seguidores.
Segundo o site InsTrack, que monitora estatísticas de
páginas no Instagram, o @sandaliasipanema saiu de 510 mil seguidores no sábado
(20) para 1 milhão na tarde desta segunda. A página também recebeu comentários
de apoiantes da direita, muitos deles anunciando que pretendem trocar de marca.
O movimento nas redes, em especial, pressionou mais as
ações, afirma Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom
Investimentos. “Os investidores entenderam como uma indireta, em um momento já
sensível ao considerar que o próximo ano que ela menciona [na propaganda] é um
ano de eleições”, afirma.
Apoiantes da direita também passaram a comentar publicações
da Ipanema no Instagram. A postagem mais recente da marca soma mais de 614 mil
curtidas, número superior ao registado em publicações anteriores, que
costumavam variar entre 10 mil e 30 mil curtidas. Nos comentários, utilizadores
dizem que irão começar 2026 “com o pé direito” usando Ipanema e pedem para que
a marca aproveite a “oportunidade” para vender.
No campo da esquerda, as críticas feitas por grupos da
direita também geraram reação. A deputada federal Erika Hilton (PSOL)
questionou nas redes sociais a tentativa de boicote à marca. “Como assim os
bolsonaristas tão cancelando até as Havaianas? Será que não serve direito nos
cascos deles?”, escreveu.
O vereador Pedro Rousseff (PT), sobrinho da ex-presidente
Dilma Rousseff, também comentou o episódio. Em publicação no X, disse que
apoiantes da direita passariam a usar tornozeleiras eletrónicas para deixar de
usar chinelos da marca.
Além das manifestações de políticos, usuários passaram a
compartilhar nas redes sociais imagens geradas por inteligência artificial e
montagens de chinelos em formato de ferradura.
Com a proximidade do Natal, também surgiram comentários
segundo os quais a repercussão negativa poderia, na prática, ampliar a
visibilidade da marca, além de brincadeiras sobre presentear familiares
alinhados à direita com produtos da Havaianas.
Fonte: O Jornal Económico, 23 de dezembro de 2025
A leitura dominante de muitos analistas, ainda atracados em categorias explicativas do século XX, atribui os encontrões e empurrões contemporâneos à polarização política das sociedades. Segundo essa perspetiva, os comportamentos regressivos ou infantis observados entre os homens e mulheres adultos seriam uma consequência direta da radicalização ideológica e do conflito permanente entre campos opostos.
A transformação em curso é mais profunda e estrutural. O avanço acelerado da inteligência artificial está a alterar o regime cognitivo das sociedades humanas. Funções tradicionalmente desempenhadas pelo córtex cerebral — memória de trabalho, raciocínio lógico, compreensão, planeamento, tomada de decisão, linguagem — estão a ser progressivamente externalizadas para sistemas técnicos. Como em anteriores revoluções tecnológicas, o cérebro adapta-se: aquilo que deixa de ser exigido tende a atrofiar, não por decadência, mas por economia biológica.
Estamos, assim, perante um fenómeno de desinvestimento cognitivo. A simplificação do discurso, a lógica infantil, a baixa tolerância à frustração, a impulsividade emocional, e a procura de gratificação imediata não são meros efeitos da polarização política; são sintomas de uma transição antropotécnica. O sujeito adulto começa a comportar-se como uma criança não porque radicalizou ideias, mas porque já não precisa — nem é incentivado — a sustentar processos cognitivos complexos.
Neste sentido, o emburramento do homem (e mulher) precede a plena implementação da inteligência artificial: é a fase de adaptação. A infantilização não é um desvio; é um ajuste funcional a um ecossistema em que pensar profundamente se torna redundante. Quando a IA estiver plenamente integrada, uma parte significativa das capacidades superiores do córtex humano tornar-se-á estruturalmente dispensável — não por falha, mas por obsolescência.
A polarização política é, assim, mais sintoma do que causa. O verdadeiro motor da regressão comportamental é a reconfiguração silenciosa da relação entre cérebro, técnica e poder cognitivo. Este, inútil na nova era da humanidade, que nem para abrir uma porta precisará dele, elas abrir-se-ão automaticamente.



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