Do escarro de Nixon ao enxofre de Bush, de aliado a ameaça: como a Venezuela perdeu os Estados Unidos e chegou ao ponto de rutura
Perry Mason
(1957-1966) – Barbara Hale, Mala Powers
Na
manhã de maio de 1958, em Caracas, a visita do vice-presidente norte-americano
Richard Nixon deixou de ser protocolo e passou a ser instinto
Uma multidão cercou a comitiva, entalou os carros, bateu nos
vidros com punhos e pedras, cuspindo tanto que o motorista ligou as escovas do
para-brisas para conseguir ver a rua. “Por um instante, ocorreu-me que podíamos
ser mortos”, escreveria Nixon mais tarde, numa lembrança que ficou como
fotografia de uma relação antiga entre Washington e a Venezuela. Os carros
conseguiram escapar ao fim de minutos tensos, Nixon prosseguiu a viagem e saiu
do país no dia seguinte. Em Washington, porém, a Casa Branca não quis arriscar
e pôs um grupo de porta-aviões a caminho, pronto para uma eventual operação de
resgate que nunca chegou a ser necessária. Em Caracas, as autoridades
venezuelanas, horrorizadas com o motim, pediram ao vice-presidente que não
encurtasse a visita, colocaram tropas ao longo do percurso de saída e tentaram
fechar, à pressa, a ferida antes de ela se tornar símbolo.
O paradoxo é que a crise de 1958, em vez de quebrar a
ligação, acabou por reforçá-la. A Venezuela iniciava então uma transição
democrática e Nixon atribuiu a emboscada a “agitadores comunistas” e à
fragilidade do novo poder, descrevendo o episódio como um “choque necessário”
que despertou Washington de uma “perigosa complacência”. Seguiram-se décadas de
aproximação, até que uma mudança política profunda em Caracas, há
aproximadamente 25 anos, travou essa proximidade de forma abrupta.
A ligação, anterior à mudança política profunda, e viragem à
esquerda, assentou em duas colunas simples e pesadas: a Guerra Fria, a
competição com a União Soviética, e o petróleo, a importância das reservas
petrolíferas da venezuelanas. A Venezuela democrática, no período pós-ditadura
militar de Marcos Pérez Jiménez, derrubado em janeiro de 1958, com crude
abundante, parecia a Washington um aliado quase feito por medida e, depois de
1959 e da revolução de Fidel Castro em Cuba, a palavra “anticomunista” passou a
separar amigos de problemas — e o presidente Rómulo Betancourt era um amigo da
América.
Em 1963, no rescaldo da crise dos mísseis e do confronto com
Havana, John F. Kennedy ofereceu um jantar de Estado ao presidente venezuelano
(Betancourt foi presidente de 1959 a 1964) e chamou-lhe “o melhor amigo da
América” na América do Sul. Depois de Rómulo Betancourt, com Raúl Leoni ou
Rafael Caldera, vieram anos de vendas de armamento e de presença forte de
empresas energéticas norte-americanas no crude venezuelano, com política e
negócio a tocar-se sem pudor. Em 1971, era Caldera o presidente, Nixon (aqui já
era o presidente e não um vice) ponderava vender caças F-4 Phantom II à
Venezuela. Um assessor da Casa Branca alertou-o para o impacto que a decisão
poderia ter num debate legislativo em Caracas “que pode afetar negativamente os
interesses petrolíferos dos EUA”. Nixon decidiu fazer ouvidos moucos — e a
venda avançou, com aeronaves ainda mais modernas.
Mas a história do petróleo tinha a sua própria cadência.
Poucos anos depois, em 1976, no mandato do presidente Carlos Andrés Pérez,
Caracas nacionalizou a indústria petrolífera. Washington, com Gerald Ford na
Presidência, reagiu com contenção, numa altura em que vários países em
desenvolvimento faziam o mesmo com os seus recursos, e a Venezuela pagou às
petrolíferas norte-americanas mais de mil milhões de dólares em compensações.
Havia um cálculo por baixo da diplomacia: interessava aos Estados Unidos manter
boas relações com um membro central da Organização dos Países Exportadores de
Petróleo (OPEP, criada em 1960) e, com os soviéticos como pano de fundo, ainda,
Caracas continuava a contar.
Nos anos 80, Ronald Reagan apresentou publicamente a
Venezuela como “inspiração democrática para o hemisfério” enquanto enfrentava
movimentos comunistas na América Latina, causa que o governo venezuelano (com
Luis Herrera Campins, primeiro, e Jaime Lusinchi depois) apoiava, em particular
em El Salvador. A luta continuava. E, claro, os negócios. Em 1981, os EUA
venderam 24 caças F-16 à Venezuela, um dos negócios militares mais
significativos dos americanos na região em mais de uma década, avaliado hoje em
cerca de 1,75 mil milhões de dólares.
Esta narrativa da “democracia modelo” convivia com falhas
políticas e económicas na Venezuela que a retórica americana preferia empurrar
para fora de plano. Depois, com o fim da União Soviética, a atenção de
Washington afastou-se da América Latina. Mas o crude manteve a Venezuela no
mapa. O país abriu espaço a acordos de exploração e partilha de lucros com
empresas privadas, incluindo grandes grupos norte-americanos. E no final dos
anos 90, Caracas já tinha ultrapassado a Arábia Saudita como principal fornecedor
de petróleo aos Estados Unidos.
O chavismo, de mansinho
Enquanto o petróleo segurava a relação, a política mudava o
chão. Em Washington, poucos acompanharam de perto a ascensão de Hugo Chávez,
vencedor das presidenciais de dezembro de 1998. Com discurso inflamado e
inspiração castrista-cubana, Chávez canalizou a raiva popular perante a
corrupção e a pobreza persistentes num país rico em petróleo, prometendo
reformas constitucionais e económicas profundas.
A reação norte-americana foi prudente. A administração
Clinton apostou na hipótese de moderação e recebeu Chávez na Casa Branca no
início de 1999. Chávez garantiu que queria manter boas relações e deixou sinais
de não pretender um corte brusco. Só que o choque chegou em abril de 2002, com
uma tentativa de derrube do presidente venezuelano. Uma aliança de políticos,
militares e líderes empresariais deteve Chávez num contexto de protestos de
rua, mas o golpe falhou quando multidões ainda maiores exigiram o seu regresso.
Chávez voltou ao poder em dois dias e voltou diferente, mais desconfiado, mais
duro, com a máquina do Estado virada contra adversários e com o país a deslizar
para um autoritarismo cada vez mais assumido.
Instalou-se um ciclo de acusações e suspeita com os Estados
Unidos. Chávez culpou a administração de George W. Bush por tentar derrubá-lo.
A Casa Branca negou, mas documentos desclassificados em 2004 mostraram que
autoridades norte-americanas tinham conhecimento prévio do plano e que, ao
mesmo tempo, alertaram líderes da oposição contra a remoção de Chávez por vias
inconstitucionais.
Bush tornou-se o alvo perfeito de Chávez, sobretudo depois
da invasão do Iraque em 2003 e da política antiterrorista que gerou críticas
globais. Em 2006, na Assembleia-Geral das Nações Unidas, Chávez fez o seu
discurso mais citado, no dia seguinte a Bush ter falado no mesmo púlpito: “O
diabo esteve aqui ontem e ainda cheira a enxofre”. A frase correu o mundo e
ajudou a fixar uma narrativa de confronto, dentro e fora do país, com um
inimigo externo útil e fácil de nomear, a América.
Petróleo, petróleo e mais petróleo
Em 2007, o governo venezuelano reforçou o controlo estatal
sobre o petróleo, revertendo passos anteriores em direção à privatização e
obrigando empresas estrangeiras a aceitar participações minoritárias em novas
joint ventures dominadas pela petrolífera estatal. Quando as gigantes Exxon
Mobil e ConocoPhillips recusaram, Chávez confiscou ativos das duas empresas. A
decisão foi popular internamente e fortaleceu a mão do presidente.
Após a morte de Chávez, em março de 2013, Nicolás Maduro,
apresentado como seu protegido, prosseguiu a mesma linha, com o país a entrar
em anos de isolamento crescente e de punição por parte dos Estados Unidos. As
sanções dos Estados Unidos à Venezuela foram-se adensando ao longo da última
década, atingindo responsáveis do regime e sectores-chave como o petróleo, com
Washington a justificar a medida com a erosão democrática e violações de
direitos humanos — e Caracas a descrevê-la como um cerco económico. Nesse
caminho, a Venezuela passou a depender cada vez mais de rivais de Washington,
incluindo Rússia e China, além de Cuba e sempre Cuba.
A tensão voltou a subir com Donald Trump, mais até neste
mandato que no seu primeiro, que aponta a Venezuela como ameaça à segurança
nacional, ligada à migração e ao tráfico de droga, e admite o recurso à força
militar. Alguns dos seus conselheiros, incluindo o secretário de Estado Marco
Rubio, defendem a remoção de Maduro como forma de aumentar a pressão sobre o
governo cubano — também aqui, sempre Cuba. E essa pressão, agora, já não vive
apenas de discursos e sanções no papel. Traduz-se em músculo no Caribe, numa
presença naval e operacional reforçada, e numa linha de atuação que mistura
“guerra às drogas” com estrangulamento financeiro do regime, sobretudo pelo
lado onde mais dói, o petróleo que sustenta o Estado e compra lealdades.
Nas últimas semanas, a administração norte-americana apertou
o cerco à chamada frota sombra venezuelana e a intermediários que levam crude
venezuelano para fora do país, enquanto, no mar, as abordagens e apreensões de
navios passaram a funcionar como aviso prático, e não apenas como ameaça
abstrata. Do lado de Caracas, a resposta tem sido a previsível mistura de
denúncia e desafio, com Maduro a falar em “pirataria” e a prometer proteger
carregamentos, sabendo ele que cada barril que sai é receita e cada barreira
que se levanta é também mensagem política para dentro: para as chefias
militares, para a oposição, para o país inteiro.
No início deste ano, Trump colocou um porta-aviões em águas
perto da Venezuela, posicionando-o para uma eventual ofensiva. O gesto lembrava
o movimento feito há cerca de meio século, quando Dwight D. Eisenhower
mobilizou um grupo de porta-aviões para um possível resgate de Nixon que nunca
aconteceu. A diferença é que, desta vez, o porta-aviões não está ali para
salvaguardar um vice-presidente encurralado, está ali para pressionar e
encurralar um presidente. A diferença é que, desta vez, a frota não é um plano
de emergência, é um sinal político. Em 1958 e agora, o porta-aviões aparece
quando Washington quer lembrar que aquele petróleo e aquela geografia não são
um assunto interno de Caracas; são um problema estratégico. E quando o problema
é estratégico os Estados Unidos preferem ser compreendidos à primeira.
Fonte: CNN Portugal, 21 de dezembro de 2025

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