Governo de Espanha lança projetos para acabar com "discurso colonial e eurocêntrico" nos museus
Perry Mason
(1957-1966) – Renee Godfrey, Woodrow Parfrey, H.M. Wynant
O governo
espanhol avança este mês com os primeiros concursos públicos para concretizar
projetos de descolonização das exposições permanentes dos museus do Estado. O
objetivo, diz, é "superar o
eurocentrismo" e a dar-lhes uma “perspetiva antirracista”
O governo espanhol avança este mês com os primeiros
concursos públicos para concretizar projetos de
descolonização das exposições permanentes dos museus do Estado, de
forma a "superar o eurocentrismo" e a dar-lhes uma "perspetiva
antirracista".
Os primeiros projetos que avançam são o do Museu Nacional de
Antropologia e o do Museu da América, apresentados publicamente no final de
novembro e orçamentados em 4,4 milhões de euros e 9,2 milhões, respetivamente.
O governo espanhol espera que estejam totalmente
concretizados no segundo semestre de 2028.
Os projetos têm a ver com mudanças
nas narrativas e na forma
como são apresentadas as coleções permanentes, não estando para já prevista a
devolução de peças a outros países, segundo o executivo e os responsáveis pelos
museus.
No entanto, nos casos de reclamação de objetos e obras de
arte por parte de comunidades ou países, será dada essa indicação nas
exposições.
"As novas abordagens museográficas permitirão abrir o olhar e contemplar a realidade a
partir de múltiplos pontos de vista, para questionar e superar o
eurocentrismo que se encontra nas raízes da formação histórica de ambos os
museus", explica o ministério da Cultura de Espanha, numa informação
escrita sobre os projetos.
O executivo sublinha que a renovação dos dois museus, ambos
em Madrid, "responde à atual definição internacional de museu como espaço
de igualdade, inclusão e participação das comunidades".
Nas palavras do próprio ministro da Cultura, Ernest Urtasun,
citado no mesmo documento, trata-se de "explicar as culturas como algo
vivo, dinâmico, contemporâneo, que dialoga" com o presente e
"reconhecer os povos e comunidades como agentes e não apenas mostrar os
seus objetos".
Os dois projetos já conhecidos preveem ainda "a incorporação de arte contemporânea",
"como ferramenta crítica e questionamento de problemas sociais" e
também "de aproximação".
"A presença da criação atual a partir da diversidade
permitirá mostrar as diferentes culturas como algo vivo e coexistente, eliminando os enviesamentos de exotismo e distância que persistem nas atuais
exposições", defende o governo.
Os projetos para o Museu Nacional de Antropologia e para o
Museu da América resultaram do trabalho de cerca de meio ano de duas comissões
formadas por peritos em diversas áreas e também representantes de
"comunidades ligadas às coleções dos museus".
No documento com o projeto para o Museu da América, por
exemplo, está definido o objetivo de "mostrar
a pluralidade das culturas americanas e suas diásporas", assim
como "os seus movimentos históricos" a partir de "uma perspetiva
'descolonial', antirracista, intercultural e contemporânea".
O projeto quer ainda "destacar o papel indígena das pessoas invisibilizadas nos conflitos armados, conquistas ou
independências", assim como "a situação de controlo ou domínio da
mulher", as "violências exercidas durante a conquista [espanhola] ou
as tensões entre culturas".
O governo insiste em que "esta atualização dos
discursos museográficos" pretende "adequar as propostas" destas
instituições "às necessidades da sociedade contemporânea".
Trata-se de "uma atualização necessária" no caso
do Museu Nacional de Antropologia, criado no século XIX "com a visão
própria dos museus etnográficos da época" e que, apesar de mudanças
posteriores, nunca teve "uma atualização integral paralela à própria
disciplina da antropologia", que teve uma origem muito ligada ao
colonialismo.
Já o Museu da América foi inaugurado em 1941 e foi alvo de
uma renovação na década de 1990 que, porém, segundo o governo espanhol, ignorou "questões fundamentais como a perspetiva de
género ou o impacto do tráfico de pessoas escravizadas",
além de lhe faltarem "parâmetros atuais" no que toca à diversidade
cultural, nomeadamente, "a igualdade de valor".
Há em Espanha 16 museus estatais (geridos diretamente pelo ministério
da Cultura). O Museu Nacional de Antropologia teve quase 87 mil visitantes em
2024 e o Museu da América, 90 410.
O museu mais visitado de Espanha é o Museu Nacional do
Prado, em Madrid, por onde passaram mais de 3,4 milhões de pessoas em 2024.
Fonte: Expresso, 6 de dezembro de 2025


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