Investigações inconvenientes
Perry Mason
(1957-1966) – Diana Reese, Raymond Burr, William Hopper, Gary Hart
Paula
Coelho é o último caso. Há demasiadas mortes súbitas, demasiados diagnósticos
fulminantes a surgirem em pessoas muito longe da idade da esperança média de
vida. Sem dúvida, motivo de inquietação
A morte de Paula Coelho não pode ser apenas mais um nome
numa lista silenciosa de perdas prematuras, como a de tantos outros, de dezenas
de jovens atletas e milhares de anónimos.
Há demasiadas mortes súbitas, demasiados diagnósticos
fulminantes a surgirem em pessoas muito longe da idade da esperança média de
vida. Sem dúvida, motivo de inquietação. Não me cabe estabelecer nexos causais,
nem produzir explicações. Mas enquanto cidadã e ativista, psicóloga e
observadora da realidade social, não posso ignorar o padrão — nem o silêncio.
O que assusta não são apenas estas situações dramáticas,
mortes súbitas ou cancros agressivos e em estado avançado. É a ausência de
respostas. É constatar que quem tem obrigação institucional de investigar,
esclarecer e comunicar parece pouco interessado em fazê-lo. Vejo demasiada
gente a assobiar para o lado, a tratar perguntas legítimas como incómodas, a
confundir dúvida com heresia. Questionar não é negar. Pedir dados não é
conspirar. Auditar não é atacar — é compreender.
A
mortalidade em dezembro deste ano é quase 20% mais elevada do que no ano
passado. Trata-se do valor mais alto da década, com exceção dos anos
covid.
Entre 1 e 10 de dezembro, morreram mais quase 600 pessoas do
que no mesmo período de 2024. Já a mortalidade infantil em Portugal, aumentou
20% em 2024, atingindo o valor mais alto desde 2019. Enfim, estes números e
muitos outros também suscitam desassossego e ignorá-los é que pode, realmente,
designar-se de negacionismo.
No Reino Unido, essa compreensão começou a ser feita. O
relatório oficial do UK Covid-19 Inquiry foi claro e severo: a resposta à
pandemia falhou: houve governação baseada no medo, atrasos decisórios,
confinamentos prolongados e mal preparados, e a incapacidade do Estado para
avaliar devidamente os impactos colaterais — na saúde mental, no acesso aos
cuidados de saúde, na economia e na própria coesão social. O relatório
reconhece que muitas mortes e danos poderiam ter sido evitados com decisões
diferentes e mais transparentes. Isto não é negacionismo. É escrutínio
democrático.
Também nos EUA algo mudou. A Food and Drug Administration
(FDA), a autoridade reguladora máxima do medicamento, reforçou recentemente os
avisos associados às inoculações covid, admitindo riscos específicos que exigem
vigilância acrescida. Houve mesmo a discussão pública sobre a eventual
aplicação de um black box warning, o alerta mais grave da agência. O sinal é
inequívoco: a ciência não se fecha à revisão nem à reavaliação.
Em Portugal, pelo contrário, continua adiada uma auditoria
independente, séria e abrangente aos anos covid. Falta avaliar decisões
políticas, estratégias sanitárias, impactos indiretos, efeitos adversos,
silêncios e excessos. É urgente restaurar a confiança pública e aprender com os
erros.
Devemos isso à memória de pessoas como Paula Coelho. Devemos
isso às famílias e aos sobreviventes que vivem com perguntas sem resposta.
Devemos isso a uma sociedade que não pode aceitar que o medo substitua o
pensamento crítico.
Silenciar perguntas nunca protegeu ninguém. Investigar é um
dever. Auditar é um ato de responsabilidade democrática.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 17 de dezembro de 2025

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