Itália: Crise no mercado de trabalho e sistema de pensões em colapso obrigam governo anti-imigração a procurar imigrantes
Perry Mason
(1957-1966) – Evelyn Ward, Everett Glass
O
envelhecimento da população italiana, a queda a pique da taxa de natalidade e a
crescente emigração de jovens italianos, três fenómenos que se têm reforçado ao
longo dos últimos anos, estão a criar uma grave crise demográfica em Itália
O discurso anti-imigração do atual governo de direita
radical em Itália contrasta com a necessidade imperiosa do país atrair
imigrantes, para sustentar o mercado de trabalho e o sistema de pensões, em
risco de colapso, dá conta um estudo do Observatório de Contas Pública de Itália.
O envelhecimento da população italiana, a queda a pique da
taxa de natalidade e a crescente emigração de jovens italianos, três fenómenos
que se têm reforçado ao longo dos últimos anos, estão a criar uma grave crise
demográfica em Itália. E, de acordo com a generalidade dos analistas, citados
pela Lusa, esta situação só pode ser
combatida com a chegada de
imigrantes em números bem mais significativos do que aqueles que se registam
atualmente.
O próprio governo, liderado por Giorgia Meloni, resultante
de uma coligação que junta os Irmãos de Itália (partido pós-fascista), a Liga
(extrema-direita) e a Força Itália (direita), e que tem as ideias
anti-imigração como ‘bandeira’ e retórica, reconhece
o problema, tendo anunciado em junho que emitirá cerca de 500 mil novos vistos
de trabalho para cidadãos de países não pertencentes à União Europeia (UE) para o período entre 2026 e 2028.
Em novembro, o governo italiano publicou também uma lei que
permite aos descendentes de italianos de sete países — Brasil, Argentina,
Estados Unidos, Austrália, Canadá, Venezuela e Uruguai — obterem vistos de
trabalho sem limitações de número por país.
10 milhões de imigrantes em 25 anos para combater
despovoamento e garantir serviços públicos
A investigação levada a cabo pelo Observatório de Contas
Públicas de Itália estimou que, para combater o atual processo de despovoamento
e manter os níveis atuais de população, o país precisaria de receber pelo menos
10 milhões de imigrantes nos próximos 25 anos, até 2050. Há ainda outros estudos que apontam que, “para manter o sistema em equilíbrio”,
reforçando a população ativa, seriam necessários
350 mil imigrantes líquidos por ano até 2035 e 480 mil por ano até
2050, o que resultaria num total de 13,5 milhões de entradas líquidas nos
próximos 25 anos.
De acordo com a investigação levada a cabo pelo Observatório
das Contas Públicas Italianas, o terceiro maior país da UE, com cerca de 59
milhões de habitantes, corre o risco de, no ano de 2100, ter menos habitantes
do que os registados após a unificação nacional de 1861 e não ter trabalhadores
suficientes para sustentar o sistema de pensões, a saúde, a educação e os
serviços públicos, advertindo a instituição que, sem um plano migratório
estruturado, o país não suportará a transição demográfica já em curso.
Os economistas Giampaolo Galli, Nicolò Geraci e Francesco
Scinetti, que realizaram o estudo do observatório, com base nas projeções do
Grupo de Trabalho sobre Envelhecimento, da Comissão Europeia, sustentam que o cenário é alarmante mas absolutamente plausível, já que,
sem imigrantes, Itália perderá mais de 10 milhões de habitantes a cada 25 anos
e, mesmo com um ligeiro aumento da natalidade, passará a ter uma população de
menos de 50 milhões já em 2050 e de menos de 30 milhões em 2100.
Itália perdeu quase dois milhões de habitantes em dez
anos e é o segundo país mais envelhecido do mundo
Efetivamente, a dramática redução demográfica já está em
curso em Itália: depois do pico de 2014, quando o país tinha 60,8 milhões de
habitantes, a população baixou para menos de 59 milhões em 2024, com a
agravante de o índice de envelhecimento ter duplicado nos últimos 20 anos,
sendo hoje Itália o segundo país mais envelhecido do mundo, apenas atrás do
Japão.
De acordo com dados divulgados este ano pelo Eurostat,
gabinete oficial de estatísticas da UE, Itália é
o país do bloco comunitário com uma população mais envelhecida, com
uma média de idade de 48,7 anos e um quarto da população com mais de 65 anos,
registando-se hoje em dia duas pessoas acima desta idade para cada pessoa com
menos de 15 anos.
Por outro lado, a natalidade está em mínimos históricos em
Itália, tendo-se registado no ano passado 370 mil nascimentos (contra mais de
um milhão em 1964). A taxa de fertilidade fica-se pelos 1,18 filhos por mulher.
Em 2024 houve cerca de 281 mil mortes a mais do que nascimentos.
A estes dados junta-se o fenómeno
da ‘fuga de cérebros’, que representa a emigração de jovens
qualificados. Este problema tem vindo paulatinamente a crescer e ameaça
prosseguir essa tendência, com uma recente sondagem a revelar que cerca de um
terço dos jovens italianos gostaria de emigrar, em busca de melhores
oportunidades.
Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (ISTAT)
mostram que, em 2024, a Itália registou a sua taxa de emigração mais elevada em
25 anos, com mais de 190 mil pessoas a deixarem o país - um aumento de 36,5%
face ao ano anterior -, sendo que, entre 2013 e 2022, mais de um milhão de
pessoas emigraram de Itália, cerca de um terço dos quais jovens entre os 25 e
34 anos. Os jovens licenciados representam quase metade dos emigrantes dos
últimos anos.
“A Itália está a envelhecer, as taxas de natalidade estão a
cair, regiões inteiras do país estão a esvaziar-se. Estes números implacáveis
devem servir de estímulo para a ação”, admitiu este ano o ministro das
Finanças, Giancarlo Giorgetti, perante o Parlamento.
Contudo, e porque as políticas de incentivo às famílias para
terem filhos obviamente estão a falhar — nem seriam por si só suficientes —
para manter os números da população ativa, ou seja, a faixa etária dos 20 aos
67 anos, essencial para o funcionamento da segurança social, são assim necessários milhões de imigrantes, caso
contrário a percentagem de trabalhadores na população total passará de 62% em
2023 para 49% em 2100, o que representará uma carga social insustentável.
No poder desde outubro de 2022, o governo de Meloni enfrenta
assim um desafio que constitui também um paradoxo, na medida em que precisa de
atrair imigrantes para Itália, quando a sua política migratória tem sido
marcada, tal como prometido, pelo endurecimento das regras, tanto a nível de
combate às chegadas ilegais, como de regularização, expulsões e repatriamentos
de migrantes, aliada a um discurso anti-imigração, sobretudo por parte da Liga,
de Matteo Salvini, e dos Irmãos de Itália, da primeira-ministra.
Fonte: Expresso, 7 de dezembro
de 2025

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