Macron apela a reequilíbrio nas relações económicas com a China e admite protecionismo
Perry Mason (1957-1966) – Ellen Burstyn
O presidente
francês, Emmanuel Macron, defendeu um reequilíbrio urgente nas relações
económicas entre a União Europeia (UE) e a China, alertando que, sem
progressos, Bruxelas poderá ser forçada a adotar medidas mais protecionistas
Num artigo de opinião publicado hoje no jornal britânico Financial
Times, Macron sublinha que o excedente comercial da China com o resto do
mundo atingiu já um bilião de dólares (850 milhões de euros), e que o
desequilíbrio com a UE duplicou na última década, ascendendo a 300 mil milhões
de euros.
"Esta situação não é sustentável, nem para a Europa,
nem para a China", observa.
O chefe de Estado francês
reconhece que a atual vaga de exportações chinesas para o mercado europeu se
deve, em parte, às tarifas impostas pelos Estados Unidos e ao fraco consumo
interno na China. No entanto, afirma que "responder com tarifas
e quotas seria uma solução não cooperativa".
Macron apela antes a uma abordagem
coordenada que passe por três frentes: reforçar a competitividade
europeia, mobilizar a poupança para investimento interno e incentivar reformas
estruturais na economia chinesa.
"O primeiro passo da
Europa deve ser implementar uma nova agenda económica baseada na
competitividade, inovação e proteção", defende.
Entre as prioridades, destacou a conclusão do mercado
interno nos setores da energia, saúde e digital, investimentos em investigação
disruptiva e tecnologias com elevado potencial de crescimento, e uma estratégia
clara de redução dos riscos nas cadeias críticas de matérias-primas e
tecnologias.
Macron defendeu também o direito da Europa a adotar uma
"preferência europeia" para apoiar setores estratégicos como o
automóvel, energia, saúde e tecnologia, desde que em conformidade com as regras
internacionais. "Proteger contra a concorrência desleal é a base da
resiliência", sustenta.
Quanto ao financiamento desta transformação, o presidente
francês propõe canalizar parte dos cerca de 30 biliões de euros em poupança
acumulada na UE -- dos quais 300 mil milhões são investidos anualmente no
estrangeiro -- para empresas europeias. "Está na hora de nós, europeus,
assumirmos o risco de investir nas nossas próprias empresas", defende.
Para isso, propõe
simplificação regulatória, maior integração dos mercados financeiros e a
implementação de uma União de Poupança e Investimento. Defende ainda o reforço
do papel internacional do euro, através da introdução de um euro digital e da
emissão de ativos líquidos para financiar a defesa e a inovação tecnológica.
Macron sublinha, porém, que também a China tem
responsabilidades. "Pequim precisa de corrigir os seus desequilíbrios
internos", afirma, defendendo uma política fiscal mais favorável ao
consumo e à transição para uma economia de serviços.
O presidente francês apela ainda a um reequilíbrio nos
fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE), recordando que a UE investiu
cerca de 240 mil milhões de euros na China, enquanto o investimento chinês na
Europa ficou abaixo dos 65 mil milhões.
"A Europa deve continuar aberta ao investimento chinês
nos setores onde a China lidera, desde que isso contribua para o emprego,
inovação e partilha tecnológica", escreve.
Macron reitera o apelo a um quadro de cooperação económica
entre UE, China e EUA, advertindo que, na ausência de progressos, a Europa terá
de recorrer a "medidas mais firmes".
"Prefiro a cooperação. Mas, se necessário, defenderei o
uso de medidas protecionistas", avisa, acrescentando que a presidência
francesa do G7, no próximo ano, colocará o reequilíbrio das assimetrias globais
no topo da agenda.
"Acredito que, se tivermos verdadeiramente em conta as
necessidades e interesses de cada um, podemos construir uma agenda
macroeconómica internacional que beneficie a todos", afirma.
Fonte: RTP, 17 de novembro
de 2025

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