Por dentro da economia da fome de Israel: Como a fome em Gaza foi orquestrada para gerar lucro

 

Uma nova e chocante investigação do Mada Masr, um meio de comunicação social egípcio independente conhecido pelas suas reportagens aprofundadas e trabalho anticorrupção, revelou que uma rede de empresários egípcios e palestinianos explorou o genocídio em Gaza, lucrando com a fome, o cerco e as restrições à ajuda humanitária enquanto os palestinianos comuns passavam fome.

A reportagem intitulada “Reis da Fome” expõe um sistema altamente organizado de obtenção de lucro — impulsionado por empresas com fortes laços tanto com o exército israelita como com o Estado egípcio — que controlava a importação de bens comerciais e ajuda humanitária para a sitiada Faixa de Gaza enquanto Israel cometia genocídio.

Entre os principais indivíduos citados na reportagem está Ibrahim al-Argany, um poderoso empresário egípcio e líder tribal da Península do Sinai. Argany chefia, alegadamente, o grupo Sons of Sinai, um conglomerado com fortes laços com o exército e os serviços de informação do Egito. A sua empresa geria o armazenamento, o transporte e a coordenação das mercadorias que entravam em Gaza através da passagem de Rafah, a principal rota terrestre do Egito para a Faixa.

Em parceria com Argany estiveram cinco empresas comerciais palestinianas, todas aprovadas por Israel para coordenar as importações comerciais. Estas empresas, incluindo a Saqqa e a Khoudary, a Emad Eddin Nijm, a Ezzo Akl, a Gaza Oil Company (Três Irmãos) e a Ibrahim al-Taweel, cobravam taxas exorbitantes aos vendedores locais, apesar de estarem, em grande parte, desqualificadas para gerir as importações essenciais de alimentos ou medicamentos.

Outra figura importante mencionada é Amr Hadhoud, um operador logístico egípcio que dirige a Aqsa for Transport, Security and Guarding Services, uma empresa que fornece escoltas armadas de mercadorias dentro de Gaza. Hadhoud está intimamente ligado a Argany e ao seu império empresarial, e a sua empresa tornou-se um ator central na distribuição de ajuda e bens, muitas vezes sob o pretexto de trabalho humanitário.

Neste esquema, conhecido localmente como “coordenação de mercadorias”, os vendedores palestinianos em Gaza eram obrigados a utilizar intermediários aprovados por Israel para trazer mercadorias comerciais, pagando muitas vezes 10 000 a 25 000 dólares em taxas de coordenação por camião. Estes intermediários, por sua vez, trabalhavam com a Sons of Sinai, que cobrava taxas adicionais de 7000 a 13 000 dólares por camião, para além do armazenamento. Os atrasos e os custos de “acesso prioritário” elevavam o preço final para 60 000 dólares ou mais.

Entretanto, a empresa Aqsa, de Hadhoud, assumiu a tarefa de fornecer segurança dentro de Gaza, cobrando até 30 mil dólares por camião para garantir a entrega aos comerciantes.

Quando Israel restringiu as mercadorias comerciais, mas permitiu a entrada de “ajuda”, a rede adaptou-se. Os vendedores passaram a coordenar-se com funcionários de organizações internacionais de ajuda humanitária, que alegadamente falsificavam documentos para disfarçar remessas privadas como ajuda humanitária. Isto permitiu que bens comerciais como chocolate, pastilhas elásticas e maçãs entrassem em Gaza como “ajuda”, enquanto os alimentos e medicamentos essenciais continuavam a ser escassos. Os custos inflacionados foram repercutidos nos palestinianos comuns em Gaza. O Programa Alimentar Mundial informou que os preços dos produtos básicos aumentaram mais de 1000%, transformando os bens de primeira necessidade em artigos de luxo e forçando as famílias à fome.

De acordo com dados da Câmara de Comércio da Província de Gaza, os lucros obtidos com a coordenação de mercadorias durante o genocídio atingiram níveis impressionantes. Entre o final de 2024 e o início de 2025:

A Sons of Sinai terá lucrado aproximadamente 177 milhões de dólares. As empresas de coordenação palestinianas e israelitas lucraram cerca de 155 milhões de dólares.

A Sons of Sinai garantiu ainda quase 50 milhões de dólares em contratos com agências da ONU, segundo dados oficiais de compras, para gerir a logística, apesar das queixas das organizações humanitárias sobre os preços inflacionados e a falta de transparência da empresa.

Os palestinianos comuns sofreram o impacto mais severo deste sistema corrupto. Num caso, coordenar o envio de um único camião de frango congelado custou até 200 mil dólares, e a carne foi vendida nos mercados locais por 40 dólares por quilo, gerando até um milhão de dólares por envio. Nenhum dos lucros chegou à população faminta.

Até os esforços humanitários foram sequestrados. Os campos para deslocados internos, construídos com o apoio do Estado egípcio, foram eventualmente entregues ao Grupo Aqsa, que os utilizou como plataformas para distribuir mercadorias e consolidar a sua reputação, enquanto a ajuda era reempacotada e vendida com fins lucrativos.

A investigação do Mada Masr conclui que a fome em Gaza não foi apenas uma consequência da guerra, mas também um modelo de negócio, viabilizado pelo cerco israelita, pela cumplicidade egípcia e pela ganância de elites influentes de ambos os lados da fronteira.

Fonte: Middle East Monitor, 12 de dezembro de 2025

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