Uma das guerras que Trump diz ter acabado está prestes a regressar em força. O que aconteceu?
Perry Mason (1957-1966)
Os confrontos armados entre a Tailândia e o Camboja entraram
no segundo dia esta terça-feira, disseram ambos os lados, desafiando os apelos
dos Estados Unidos para que parassem de lutar e respeitassem
um acordo de paz apoiado por Trump há meses, que agora parece à
beira de um colapso total.
Pelo menos oito pessoas morreram desde o início das últimas
escaramuças, de acordo com relatos de ambos os lados. Até esta terça-feira, os
combates tinham-se espalhado para mais pontos ao longo da fronteira disputada,
com acusações de ataques com rockets e drones em algumas áreas.
Cerca de 400 mil pessoas que vivem ao longo da fronteira que
divide os países do Sudeste Asiático foram retiradas na última escalada de
violência.
E o ministro dos Negócios Estrangeiros da Tailândia, Sihasak
Phuangketkeow, sugeriu que os confrontos poderiam escalar, dizendo à CNN numa
entrevista que a ação militar continuaria “até sentirmos que a soberania e a
integridade territorial não estão a ser desafiadas.”
Os combates, relacionados com reivindicações territoriais
antigas ao longo da fronteira terrestre de 800 quilómetros, são os mais
intensos entre a Tailândia e o Camboja desde um conflito mortal de cinco dias
em julho.
O já frágil acordo de paz, assinado em outubro na presença
do presidente dos EUA, Donald Trump, que o saudou como prova da sua capacidade
de acabar com guerras, agora parece em risco de se desintegrar.
O que é preciso saber.
Por que estão a lutar novamente?
Não se
sabe exatamente. Ambos os lados acusam-se mutuamente de terem disparado
primeiro, e a CNN não consegue verificar quem o fez.
O Camboja tinha mobilizado armamento pesado e reposicionado
unidades de combate, disse a força aérea tailandesa. O ministério da Defesa
Nacional do Camboja negou as alegações.
O exército cambojano afirmou que as forças tailandesas
“realizaram inúmeras ações provocatórias durante muitos dias”, sem especificar
detalhes.
Esta terça-feira, foram reportados disparos em seis das sete
províncias tailandesas que fazem fronteira com o Camboja, de acordo com o
exército tailandês.
A marinha disse que tropas cambojanas dispararam armas
pesadas, incluindo rockets BM-21, em áreas civis, e acusou o Camboja de enviar
unidades de operações especiais e franco-atiradores para a fronteira, de
escavar trincheiras para fortificar posições e de avançar para território
tailandês na província costeira de Trat, “numa ameaça direta e séria à
soberania da Tailândia.”
O exército cambojano afirmou esta terça-feira que os
militares tailandeses realizaram “disparos ininterruptos durante toda a noite”
em várias áreas fronteiriças usando “drones em grande escala” e “fumo
venenoso.”
Sete civis cambojanos foram mortos e cerca de 20 outros
feridos, segundo o ministério do Interior do país. A Tailândia disse que um dos
seus soldados foi morto.
Quão grave pode isto tornar-se?
O secretário-geral das Nações Unidas e a União Europeia
pediram contenção a ambos os lados. Um alto funcionário da administração dos
EUA disse à CNN na segunda-feira que “o presidente Trump está comprometido com
a cessação contínua da violência e espera que os governos do Camboja e da
Tailândia cumpram plenamente os seus compromissos para acabar com este
conflito.”
Mas parece ter havido pouca desescalada no terreno.
O ministro dos Negócios Estrangeiros tailandês, Sihasak,
disse à CNN que a Tailândia não descartaria novos ataques, afirmando que a ação
militar continuaria “até sentirmos que a soberania e a integridade territorial
não estão a ser desafiadas.”
Na segunda-feira, o primeiro-ministro da Tailândia, Anutin
Charnvirakul, disse aos jornalistas em Banguecoque que “o Camboja deve cumprir
(com a Tailândia), para parar os combates.”
Quando
questionado sobre o acordo de paz apoiado por Trump, assinado na Malásia,
disse: “Já não me lembro disso.”
Hun Sen, o influente ex-líder do Camboja e atual presidente
do Senado, disse numa publicação no Facebook esta terça-feira: “As nossas
forças armadas de todos os tipos devem contra-atacar em todos os pontos onde o
inimigo ataque.”
A retórica inflamável sublinha a suspeita e desconfiança
enraizadas entre os dois vizinhos, que passaram a definir a sua relação desde o
conflito mortal de julho, que matou dezenas de pessoas e deslocou cerca de
200.000 pessoas em ambos os lados da fronteira.
E quanto ao cessar-fogo?
O acordo foi assinado na Malásia em outubro. Trump, que
presidiu à cerimónia, ajudou a mediá-lo – em parte, ameaçando que não faria
acordos comerciais com nenhum dos países se se recusassem a assinar.
Mas as tensões vinham a acumular-se há semanas, incluindo a
explosão de uma mina terrestre que feriu quatro soldados tailandeses em
novembro.
Após essa explosão, a Tailândia suspendeu todos os trabalhos
relativos ao acordo de paz e acusou o Camboja de violar a declaração conjunta
ao colocar novas minas terrestres – alegação que o Camboja nega veementemente.
A libertação provisória de 18 prisioneiros de guerra cambojanos capturados
durante os combates de julho também foi interrompida.
Trump considerou o acordo de paz como uma grande vitória
diplomática e outro impulso para a sua muito aclamada – e frequentemente
exagerada – campanha de ter acabado com várias guerras.
A disputa tem origem na cartografia da fronteira do Camboja
feita pelo seu antigo colonizador, França, e os analistas alertaram para um
longo caminho antes de se alcançar um acordo de paz duradouro. A declaração de
paz não resolveu essa disputa territorial.
Questionado pela CNN se a Tailândia planeava discutir os
últimos confrontos fronteiriços com Trump, Sihasak, o ministro dos Negócios
Estrangeiros da Tailândia, disse que cabia ao Camboja e à Tailândia “resolverem
as coisas.”
Fonte: CNN Portugal, 9 de dezembro
de 2025

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