Bruxelas quer chineses fora das redes de telecomunicações, mas operadores contestam proposta
Morangos com açúcar – Leonor Seixas
Comissão
Europeia apresentou uma revisão da Lei da Cibersegurança com regras mais
restritivas. O objetivo, não declarado, é banir as empresas chinesas. Os
operadores já vieram alertar que isso vai enfraquecer o setor
A Comissão Europeia apresentou uma revisão da Lei da
Cibersegurança (CSA, na sigla inglesa), a legislação europeia de 2019 que visa
reforçar a cibersegurança, que prevê restringir a participação de empresas
chinesas nas redes de telecomunicações, o que os operadores já vieram criticar
avisando que o setor vai ficar mais fraco.
A proposta deixa a possibilidade de as recomendações feitas
em 2020 se converterem em obrigatórias, visando “reduzir os riscos nas cadeias
de abastecimento tecnológico da Europa provenientes de fornecedores de países terceiros com preocupações de
cibersegurança”, defende a Comissão Europeia, em comunicado.
Os alvos definidos, mas não nomeados, são empresas chinesas
como a Huawei e a ZTE, que fornecem componentes para as redes de
telecomunicações.
As recomendações da Comissão Europeia feitas em 2020 levaram
a que alguns países restringissem empresas
chinesas no desenvolvimento de redes 5G, como a Huawei. Portugal
acatou esta medida e em 2023 expulsou a marca chinesa das redes móveis de
quinta geração.
“Os recentes incidentes de cibersegurança destacaram os
grandes riscos que as vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento de TIC, que
são essenciais para o funcionamento de serviços e infraestruturas críticas”,
afirma a Comissão.
“No atual cenário geopolítico, a segurança da cadeia de
abastecimento não se limita só à segurança técnica de produtos ou serviços, mas
também abrange os riscos relacionados a
fornecedores, particularmente dependências e interferências estrangeiras”,
explica.
Em resposta, a Connect Europe, que representa diversos
operadores de telecomunicações europeus, incluindo a portuguesa Meo, e que diz
representar cerca de 70% do investimento total do setor, critica o caminho que
está a ser feito por Bruxelas.
“Alertamos contra políticas que possam enfraquecer
significativamente o próprio sector que visam proteger”, dizem as empresas de
telecomunicações, em comunicado.
“Os operadores de telecomunicações enfrentam requisitos de
investimento substanciais para concluir a implementação do 5G e da fibra ótica,
enquanto as atuais condições regulamentares e a falta de escala limitam a sua
capacidade de investimento”, acrescentam.
“Neste contexto, a Connect Europe adverte que a adoção da
atual versão da CSA irá agravar o fardo imposto ao sector, com custos
regulamentares adicionais de vários milhares de milhões de euros que estão
provavelmente a ser subestimados”, reforçam.
O ministro das Relações Exteriores chinês já se tinha
pronunciado sobre o anterior relatório da UE, tendo classificado as restrições
impostas como “protecionismo puro e simples”,
referindo que não têm fundamento legal.
Contudo ainda nada está perdido para estas empresas, uma vez
que as novas medidas vão ainda ser debatidas pelo Parlamento Europeu e pelo
Conselho da União Europeia (UE), e só depois de serem aprovadas é que vão ser
aplicadas.
Aliás, por isso a Connect Europe “apela aos legisladores da
UE para que corrijam a proposta de CSA durante o processo legislativo e
garantam que esta produz resultados de segurança eficazes sem comprometer a
competitividade digital da Europa”.
“Atualmente, a Europa necessita urgentemente de mais, e não
menos, investimento em conectividade”, defendem os operadores.
A Europa tem vindo a endurecer a sua posição sobre o uso de
equipamentos estrangeiros, tendo a Alemanha nomeado uma comissão de
especialistas para repensar a política comercial em relação a Pequim e proibiu
o uso de componentes chineses em futuras redes 6G.
Já os Estados Unidos
proibiram a aprovação de novos equipamentos de telecomunicações da Huawei e da
ZTE, em 2022, e recomendaram
que a Europa fizesse o mesmo.
Fonte: O Jornal Económico, 21 de janeiro de 2026




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