Dinamarca já vendeu território aos EUA: foi em 1917 e a “ilha de Epstein” estava incluída no negócio
Morangos com açúcar – Sílvia Chiola
A
aquisição diz respeito às Ilhas Virgens Americanas e aconteceu em 1917, altura
em que os EUA aceitaram a soberania dinamarquesa sobre a Gronelândia
Os Estados Unidos da América (EUA) já compraram território à
Dinamarca, um facto histórico que ganha novo relevo num momento em que há uma
grande pressão por parte da administração Trump para ter o controlo da
Gronelândia. Aconteceu em 1917 e, curiosamente, o acordo previa o
reconhecimento pelos americanos de que a Gronelândia era uma colónia
dinamarquesa - passou a ser um território autónomo em 1979 e com soberania
alargada em 2009.
A transação ocorreu no âmbito do Tratado das Índias
Ocidentais Dinamarquesas, que previa a compra de
cerca de 60 ilhas pelos EUA por 25 milhões de dólares (fazendo um cálculo da inflação, tal
corresponderia a 628 milhões de dólares, ou 536 milhões de euros). Em troca, os
EUA tinham ainda de aceitar a soberania dinamarquesa sobre a Gronelândia. Desse
negócio fazia parte a ilha de Little Saint James, que mais tarde seria
apelidada de “Ilha de Epstein”, em referência a Jeffrey Epstein e aos crimes de
tráfico sexual, pedofilia e abuso de menores que ali terão sido cometidos.
Os territórios são hoje conhecidos como Ilhas Virgens Americanas, um arquipélago localizado a leste de Porto Rico. As ilhas mais importantes são Saint Thomas, Saint John e Saint Croix, além de dezenas de ilhotas e recifes.
A transação aconteceu numa fase em que os Estados Unidos
queriam afirmar a sua força no continente americano e reduzir a influência das
potências europeias, em plena I Guerra Mundial - a ameaça alemã sobre o
território acelerou a compra. Em linha com a Doutrina Monroe, os EUA investiram
na expansão territorial e fortalecimento naval. Nesse sentido, o porto de Saint
Thomas era de interesse estratégico para os EUA.
Jeffrey Epstein comprou uma das Ilhas Virgens
Americanas
Little Saint James, de 28 hectares, foi comprada por Jeffrey
Epstein em 1998 por 7,95 milhões de dólares. O multimilionário fez dela um
espaço para festas sexuais, onde terão ocorrido crimes como tráfico sexual e
abuso de menores, num caso cuja dimensão até hoje não está totalmente clara. [Em
2016, Epstein também comprou a ilha maior adjacente, Great Saint James, por
aproximadamente 17,5 milhões].
Foi devido aos escândalos sexuais que Little Saint James
ficou conhecida como "ilha de Epstein". O multimilionário foi
encontrado morto na sua cela, em Nova Iorque, em 2019, antes de ser julgado. O
caso foi tratado como suicídio.
Há milhões de documentos ainda por ser revelados e outros a
ser analisados, dos quais constam nomes, imagens, emails, datas e outras
informações sobre o que terá acontecido naquela ilha. O presidente
norte-americano, Donald Trump, é mencionado, mas insiste que nunca esteve
envolvido em crimes ligados a Epstein, que desconhecia o esquema de tráfico de
menores e que se afastou do empresário no início dos anos 2000.
Quanto à Gronelândia, passou a estar no centro das atenções
dos média após Trump repetir que os EUA precisam do território autónomo do
Reino da Dinamarca por questões de “segurança nacional”. Muitos congressistas
americanos, incluindo republicanos, opõem-se a um eventual uso da força contra
a Dinamarca, um aliado da NATO - uma hipótese que Trump negou esta
quarta-feira, em Davos. A nível internacional, vários líderes têm vincado que a
soberania dinamarquesa sobre a Gronelândia não é negociável.
Fonte: Expresso, 21 de janeiro de 2026



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