FMI manda o Canadá fazer o trabalho de casa para se tornar mais barato e responder melhor às tarifas
Fundo
critica políticas internas da décima maior economia do mundo e segundo maior
parceiro económico dos EUA que, diz, prejudicam a resposta do país no atual
ambiente de guerra comercial
O Canadá, o segundo maior parceiro comercial dos Estados
Unidos (a seguir ao México) e principal vizinho e aliado territorial do país
liderado por Donald Trump, está a ser alvo de fortes críticas do Fundo
Monetário Internacional (FMI) por ter uma economia
interna pouco integrada e até desigual, o
que faz com que a produção do país seja demasiado cara, prejudicando
o seu desempenho no atual ambiente de guerra comercial e reduzindo a sua
capacidade de resposta aos ataques do governo dos Estados Unidos que é
presidido por Trump.
A ideia do FMI – divulgada, esta terça-feira, no blog da
instituição, num estudo da série "Country Focus" assinado pelos
economistas Federico Díez e Yuanchen Yang – é que a economia canadiana, a
décima maior do mundo (com um PIB - Produto Interno Bruto na ordem dos dois
biliões de dólares ou 1,7 biliões de euros ao câmbio atual), ainda tem muita
margem para fazer grandes reformas estruturais e, assim, reduzir barreiras internas que, pelas
contas dos investigadores, correspondem a tarifas equivalentes a 40%.
Um custo proibitivo que arrasa com a capacidade competitiva
do país e que o amarra na capacidade de resposta a um agente hostil, como hoje
se tornou Trump em relação ao Canadá.
Como referido, este fardo, argumentam os peritos, prejudica
de forma severa a competitividade do Canadá. Ato contínuo, também acaba por
dar argumentos a Donald Trump, que tem dito que o Canadá é um parceiro
comercial oportunista, desleal e altamente subsidiado pelos EUA via importações.
Aliás, o último ataque de Trump ao vizinho canadiano (foi
neste último fim-de-semana de 24 e 25 de janeiro) passa pela ameaça de impor
tarifas de 100% (em cima das que já existem) em jeito de retaliação contra o
acordo comercial que o governo do primeiro-ministro Mark Carney fez
recentemente com a China.
De acordo com o novo artigo publicado pelo FMI, é verdade
que o Canadá "é uma das economias mais abertas do mundo" e que
"ao longo de décadas, construiu laços profundos e resilientes com os
mercados globais, ancorados na abertura, na
previsibilidade e no comércio
baseado em regras".
Ou seja, baseado em regras, mas esta realidade terminou em março do ano passado, quando Trump abriu fogo, anunciado tarifas sobre dezenas de países do mundo, muitos deles seus grandes aliados e amigos.
Segundo o artigo do Fundo, "no entanto, internamente, a
economia canadiana continua muito menos integrada do que a sua presença global
sugere".
"Os bens, os serviços e os trabalhadores enfrentam
barreiras significativas ao transitarem entre províncias e territórios – uma
fragmentação que afeta a produtividade, a competitividade e a resiliência
geral", alertam os economistas.
Ou seja, "o mercado
interno do Canadá reflete há muito a sua estrutura federal, com as províncias a
exercerem autoridade constitucional sobre muitas das políticas que moldam o
comércio", agravando custos domésticos e de contexto através de
um rol de "licenciamentos, normas, compras e regulamentação de
serviços".
"Ao longo do tempo, estas diferenças regulamentares e
os atritos administrativos foram-se acumulando, atuando como barreiras à
escala, à concorrência e à mobilidade – especialmente nos serviços, onde as
oportunidades económicas e os custos são mais elevados".
Segundo os investigadores, "com o crescimento global
sob pressão e as restrições de produtividade a tornarem-se mais vinculativas, a
necessidade de integrar o mercado interno do Canadá eventualmente nunca foi tão
premente".
Tarifas elevadíssimas geradas por disfunções internas
As "novas evidências" trabalhadas e analisadas
pelos autores levam a estimar "que as
barreiras não geográficas e relacionadas com políticas dentro do Canadá
equivalem, em média, a uma tarifa de cerca de 9% a nível nacional".
"Estes custos concentram-se sobretudo nos serviços —
que representam a maior parte do comércio interprovincial —, com barreiras em
alguns setores, incluindo os serviços de educação e saúde, que ultrapassam o
equivalente a uma tarifa de 40%".
Uma base de custos desproporcionalmente elevada como esta
compromete ou inviabiliza o sucesso do país no comércio internacional.
"Tal nível seria proibitivo na maioria dos acordos comerciais
internacionais", avisam os economistas.
O ónus interno que estes custos implicam "também é
desigual", observam. "As províncias
maiores, com economias diversificadas e redes densas, enfrentam custos de
comércio interno relativamente baixos", mas "as províncias
mais pequenas e os territórios do norte [como Terra Nova, Labrador, Nova
Escócia, etc.] enfrentam custos muito mais elevados, especialmente em serviços
como comércio de retalho, saúde, educação e serviços profissionais".
"O resultado é uma economia fragmentada, onde a
geografia e a regulamentação moldam conjuntamente as oportunidades — e onde as
vantagens normalmente associadas à escala são atenuadas".
Assim, para o FMI, fazer grandes reformas trará
"grandes benefícios" aos canadianos. Têm é de se avançar já.
"A eliminação completa
das barreiras comerciais internas não geográficas poderá aumentar o PIB real do
Canadá em quase 7% a longo prazo —
aproximadamente 210 mil milhões de dólares canadianos [cerca de 130 mil milhões
de euros] em valores atuais".
Para os autores, "estes ganhos são impulsionados não
pelos efeitos da procura a curto prazo, mas por uma maior produtividade:
alocação mais eficiente de capital e trabalho, concorrência mais feroz e uma
maior escala para as empresas de alto desempenho".
Conclusão. "As
evidências são claras: as barreiras internas continuam a ser grandes,
economicamente dispendiosas e cada vez mais incompatíveis com as necessidades
de uma economia moderna, vibrante e com uma forte presença no sector dos
serviços. Eliminá-las oferece uma das alavancas mais poderosas — e
menos dispendiosas em termos orçamentais — para aumentar a produtividade,
reforçar a resiliência e apoiar o crescimento inclusivo. A oportunidade é
agora. A recompensa é grande. Transformar 13
economias [13 províncias e territórios do Canadá] numa só já não é apenas uma
aspiração — é um imperativo económico", remata o estudo.
O segundo maior parceiro, agora inimigo
Como referido, o Canadá é o segundo maior parceiro comercial
dos EUA (bens ou mercadorias)
Segundo dados oficiais do gabinete de estatísticas
norte-americano (Census Bureau), o Canadá importou
em 2024 (último ano completo) cerca de 350 mil milhões de dólares (295 mil milhões de
euros) em mercadorias dos EUA. E exportou
412 mil milhões de
dólares (347 mil milhões de euros) para o vizinho norte-americano.
A relação é deficitária e desfavorável aos EUA, mas o
défice anda muito longe
dos 200 mil milhões
de dólares que Trump tem vindo a brandir.
O défice anual foi de 61 mil milhões. De janeiro a outubro
de 2025, esse défice ia em 39 mil milhões de dólares.
O Canadá é assim o segundo maior parceiro comercial dos EUA:
somando exportações e importações estas correspondem a 13% do total. O México
está em primeiro lugar, com 16% do comércio total entre os EUA e o resto do
mundo.
Paul Krugman, o
reputado economista do MIT e prémio Nobel da Economia, escreveu esta terça no
seu Substack num artigo titulado "Como o Canadá se tornou num
inimigo" que Trump tem vindo a criticar o país vizinho "desde o
início do ano passado, quando falsamente afirmou que o Canadá tinha um
excedente comercial de 200 mil milhões de dólares e, de forma bizarra, insistiu
que a importação de energia e peças automóveis com origem no Canadá constituía,
de alguma forma, um subsídio dos EUA ao nosso vizinho do norte".
"Para que fique claro, o comércio entre os EUA e o
Canadá é praticamente equilibrado, e a sua interrupção seria extremamente
prejudicial para ambas as economias", defende Krugman.
"Então, o que é que irritou Trump outra vez? O Canadá,
que vinha impondo tarifas de 100% sobre as importações de automóveis elétricos
chineses, fechou um acordo que permite a entrada de um número limitado destes
automóveis com tarifas muito mais baixas em troca da compra, por parte da
China, de alguns produtos agrícolas canadianos".
"Numa publicação na sua rede Truth Social, ameaçando
com tarifas proibitivas, Trump declarou que o Canadá se tornará um porto de
desembarque para a entrada de mercadorias chinesas no mercado americano e que a
China vai devorar o Canadá vivo, consumi-lo por completo, destruindo os seus
negócios, tecido social e modo de vida em geral".
Para Krugman, o acordo terá na verdade consequências mínimas
para os EUA. "O acordo China-Canadá é limitado: a China só pode vender 49
mil automóveis com a tarifa reduzida, o que representa cerca de 3% do total das
vendas de automóveis no Canadá e 0,3% do total das vendas nos EUA".
Fonte: Diário de Notícias, 27 de janeiro de 2026

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