Gronelândia: cientistas preveem queda iminente do nível do mar apesar de subida global
Perry Mason
(1957-1966) – Marianna Hill, Faith Domergue
Cientistas
dizem que a descida do nível do mar na Gronelândia terá efeitos em cadeia sobre
comunidades costeiras, rotas marítimas, pesca e infraestruturas
A subida das temperaturas está a fazer aumentar o nível do
mar em todo o mundo, colocando milhões em risco de inundações graves e de
erosão costeira. Mas, na Gronelândia, acontece o contrário.
Investigadores do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, que
integra a Columbia Climate School, alertam que o nível do mar à volta da ilha
autónoma deverá, na verdade, descer, apesar de as emissões que aprisionam o
calor estarem a provocar derretimento recorde do gelo.
Publicado na Science Communications, o estudo prevê
que, num cenário de baixas
emissões, a queda do nível do mar deverá rondar 0,9 metros até 2100. Num
cenário de elevadas emissões, poderá atingir 2,5 metros.
Por que está o nível do mar na Gronelândia prestes a descer?
Pode parecer paradoxal que um território maioritariamente
coberto de gelo enfrente uma descida do nível do mar num mundo em aquecimento,
mas é precisamente isso que torna a Gronelândia uma anomalia. À medida que a camada de gelo perde massa, a terra por
baixo eleva-se, liberta do seu enorme peso.
A coautora do estudo, Jacqueline Austermann, compara o
efeito à descompressão de um colchão de espuma viscoelástica quando quem nele
está se levanta.
Os investigadores atribuem a elevação do terreno na
Gronelândia tanto à perda recente como histórica de gelo, explicando que, à
medida que a camada de gelo perde massa, o nível do mar desce ainda mais devido
à gravidade.
"Quando a camada de gelo é muito grande, tem muita
massa", diz a autora principal, Lauren Lewright.
"A superfície do mar é atraída para a camada de gelo
por essa força gravítica. À medida que a camada perde massa, a sua atração
sobre a superfície do mar diminui, o que se traduz numa descida do nível do
mar."
Ambos os efeitos poderão representar até 30% da futura queda
do nível do mar na Gronelândia e são, tecnicamente, conhecidos como
"ajuste isostático glacial".
Comunidades costeiras deixadas em seco
A subida do nível do mar está há muito associada a mais
inundações costeiras e à erosão acelerada do litoral. Por cada centímetro de
subida do nível do mar, cerca de seis milhões de pessoas no planeta ficam
expostas a inundações costeiras.
Quando acontece o contrário, também há consequências. As
comunidades costeiras na Gronelândia constroem as suas infraestruturas a pensar
no nível do mar atual, o que poderá deixá-las "em seco" caso se
registe uma queda assinalável.
"O maior impacto recai sobre as comunidades locais e
sobre as rotas marítimas, a pesca e as infraestruturas", afirma
Austermann.
Há a possibilidade de que a descida do nível do mar ajude
certos glaciares a estabilizar quando entram no oceano, o que poderá abrandar o
seu recuo. Porém, os investigadores dizem não saber se a queda prevista do
nível do mar é suficiente para que esse efeito de estabilização ocorra.
Fonte: Euronews, 28 de janeiro de 2026


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