Ministro da Cultura de Israel reclama Gaza e considera palestinianos meros convidados
Henry Danger (2014-2020) – Amiah Miller
“Estamos
apenas a permitir que eles [palestinianos] fiquem lá como convidados até certo
ponto, mas Gaza é nossa”, declarou o político do partido maioritário Likud
O ministro da Cultura e Desporto israelita, Miki Zohar,
defendeu que a Faixa de Gaza pertence a Israel e que os mais de dois milhões de
habitantes palestinianos são meros convidados no território.
"Estamos apenas a
permitir que eles [palestinianos] fiquem lá como convidados até certo ponto,
mas Gaza é nossa", declarou o político do partido maioritário
Likud numa entrevista na quinta-feira à emissora pública Kan, citada hoje pelo
jornal The Times of Israel.
Segundo o jornal israelita, as declarações do ministro
surgiram no âmbito de uma reação à atribuição do mais prestigiado galardão do
cinema israelita, o Prémio Ophir, ao filme "The Sea", de Shai
Carmeli-Pollak, que conta a história de um rapaz palestiniano da Cisjordânia a
quem é negada a entrada em Israel para ver o mar pela primeira vez.
O galardão, prossegue o The Times of Israel, levou
Miki Zohar a criar uma cerimónia de entrega de prémios alternativa e a ameaçar
com cortes no financiamento para a indústria de cinema nacional e ainda a
recomendar aos cineastas do seu país que produzam
"filmes que os israelitas gostem de ver e não o que os europeus gostam de
ver".
Quando questionado na entrevista sobre os cortes, o ministro
da Cultura sugeriu que o filme retratava as Forças de Defesa de Israel de forma
negativa e fazia o Estado judaico parecer um "país de 'apartheid' que mata
palestinianos".
O jornal relata uma troca de argumentos entre o
entrevistador e o político, que foi confrontado com o comportamento do soldado
no filme, que cumpriu as ordens que recebe ao recusar a entrada de
palestinianos, levando Zohar a apontar os menores mortos nos ataques dos
islamitas do Hamas em 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, que "nunca
mais verão o mar".
Zohar reforçou que não permitirá que os filmes "contra
os soldados das Forças de Defesa de Israel" recebam financiamento estatal,
rebatendo as palavras de condenação sobre a ocupação dos territórios
palestinianos.
Israel "não está a
ocupar nada", segundo o governante, ao sustentar que
"não pode ser um ocupante nas suas próprias terras", referindo-se à
Judeia e a Samaria, as designações oficiais NBO seu país para a Cisjordânia.
"Gaza também é nossa", insistiu o ministro da
Cultura, sobre o enclave palestiniano, onde vigora desde 10 de outubro um
cessar-fogo com o Hamas, após dois anos de uma ofensiva militar em grande
escala das forças israelitas.
De acordo com o The Times of Israel, Zohar preparou
recentemente uma cerimónia de entrega de prémios alternativa e vários
profissionais de renome do cinema que inicialmente ameaçaram com um boicote
acabaram por participar no evento, realizado na terça-feira.
A trégua na Faixa de Gaza, promovida pelos Estados Unidos
com apoio da comunidade internacional, encontra-se num impasse, após uma
primeira fase que inclui a troca de reféns e prisioneiros, a retirada parcial
do exército israelita e a entrada de ajuda humanitária no território.
No entanto, a transição para a segunda fase nas negociações
está paralisada, com Israel e o Hamas a acusarem-se mutuamente de sucessivas
violações do entendimento.
Israel alega também que aguarda a devolução do corpo do
último dos reféns mantidos na Faixa de Gaza antes de voltar ao diálogo com os
mediadores internacionais.
A guerra foi desencadeada pelos ataques liderado pelo Hamas
em 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1200
pessoas e 251 foram feitas reféns.
[Diz a sabedoria antiga que são necessários dois para dançar o tango. Nesse caso, não é evidente se os acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia — e consolidar território na Palestina. (Os outros, a Jordânia ou a Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).
A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais: Netanyahu exibia então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns. A operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha. A lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo. A recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada. Reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris. Os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra num Starbucks.
Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.
A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais ficções fundadoras cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).
Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.
Numa abordagem mais de acordo com a realidade no terreno, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, pelo lado absurdo, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.
A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro.”
Uma variante da versão da “soneca do embaixador” afirma que, em Israel, predominava um deslumbrado otimismo gerado pelos Acordos de Abraão, e que ninguém acreditava que o Hamas pudesse parar o ímpeto negocial de Donald Trump na conciliação dos países árabes com os israelitas.
A outra justificação, a do erro informático é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.
A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito.
Finalmente, o relatório oficial, que encerra o caso, prime a tecla da sequência de azares. Concluiu que havia uma "falha sistémica e organizacional de longa data" no seio do Exército, nomeadamente uma "discrepância entre a realidade estratégica e operacional e a perceção (...) da realidade relativa à Faixa de Gaza e ao Hamas".
O documento destacou igualmente uma "falha de inteligência" militar na sua "incapacidade de dar o alerta", mesmo quando o Exército dispunha de informações "excecionais e de elevada qualidade".
Lamentando os "processos deficientes de tomada de decisão e de destacamento das forças na noite de 7 de outubro de 2023", o comité apontou falhas ao nível do Estado-Maior, da direção de operações, da direção de informações militares, do Comando Sul, mas também da Força Aérea e da Marinha].
Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande
escala na Faixa de Gaza, que provocou mais de 70 mil mortos, segundo as
autoridades locais controladas pelo grupo islamita, um desastre humanitário, a
destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação
forçada de centenas de milhares de pessoas.
A par do conflito no enclave palestiniano, a violência
disparou na Cisjordânia nos últimos dois anos, com a ONU a registar mais de mil
palestinianos mortos por colonos e forças de segurança israelitas.
Fonte: Expresso, 2 de janeiro de 2026

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