Multimilionários da tecnologia por detrás da proposta para a Gronelândia querem construir 'cidades da liberdade'
Perry Mason
(1957-1966) – Michael Rennie
Enquanto
os europeus tentam redirecionar Trump, os seus apoiantes de Silicon Valley têm
as suas próprias ideias, envolvendo comunidades com pouca regulamentação e
acesso a terras raras
Na semana passada, o presidente Trump dissipou qualquer
ambiguidade remanescente sobre as suas intenções em relação à Gronelândia.
Durante um evento na Casa Branca, declarou que iria tomar o território ártico
"quer eles gostem ou não". De seguida, lançou o que soou como uma
ameaça mafiosa à Dinamarca: "Se não fizermos da maneira fácil, faremos da
maneira difícil".
Trump terá também ordenado
aos comandantes das forças especiais que elaborassem um plano de invasão, mesmo
que altos oficiais militares o tivessem avisado de que isso violaria o direito
internacional e os tratados da NATO. Em entrevista ao New
York Times, Trump disse: "Não preciso do direito internacional".
Nos bastidores, o secretário de Estado Marco Rubio tem
tentado acalmar o Congresso, dizendo que toda esta postura militar é apenas uma
forma de pressionar a Dinamarca a negociar. Entretanto, Stephen Miller, chefe
de gabinete adjunto de Trump, afastou a autoridade da Dinamarca sobre a
Gronelândia, afirmando: "ninguém vai lutar militarmente contra os Estados
Unidos pelo futuro da Gronelândia".
Ao mesmo tempo, sete países europeus emitiram uma declaração
conjunta afirmando que "a Gronelândia pertence ao seu povo" e alguns
aliados da NATO esperam aliviar a pressão de Trump, oferecendo-se para estacionar uma força militar na ilha
para conter a Rússia e a China no Ártico.
Num aparente esforço para refrear o apetite de Trump pela
Gronelândia, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, terá dito a Trump que partilha a sua
visão sobre a ameaça da Rússia à região e que consideraria enviar tropas para
ajudar na defesa contra a mesma. Entretanto, a Alemanha propõe o
estabelecimento de uma missão conjunta da NATO no Ártico e a primeira-ministra
dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que uma anexação da Gronelândia pelos
EUA marcaria o fim da NATO.
Perante a crescente oposição à busca de Trump pela
Gronelândia e os questionáveis benefícios de segurança da anexação da ilha, o
que está realmente a acontecer?
Porque é que Trump quer a Gronelândia?
A administração Trump parece não conseguir decidir por que
razão precisa de anexar a Gronelândia. Inicialmente, o presidente afirmou que
“os navios russos e chineses estão por toda a costa”, uma alegação rejeitada
pelos diplomatas nórdicos de alto nível: “Vi os dados dos serviços de
informação. Não há navios, nem submarinos”. Mais tarde, Trump avisou: “Se não
tomarmos a Gronelândia, a Rússia ou a China vão fazê-lo, e eu não vou deixar
que isso aconteça”.
O vice-presidente JD Vance mudou o foco para a defesa
antimíssil, argumentando que “toda a infraestrutura de defesa antimíssil
depende parcialmente da Gronelândia”. Não há como questionar o valor
estratégico da Gronelândia. A base americana na ilha, a Base Espacial Pituffik,
fornece cobertura de radar de alerta antecipado para bombardeiros e mísseis
russos ou chineses.
No entanto, o reforço desta capacidade não depende de
Washington assumir a posse da ilha em si. Os acordos de defesa existentes já
permitem aos EUA projetar poder e modernizar as suas capacidades sem a
catástrofe diplomática de uma anexação.
Segurança nacional ou ganância das empresas?
Os grandes meios de comunicação social têm dado ampla
cobertura às ambições de Trump para a Gronelândia, enfatizando a competição
pela segurança no Ártico com a China e a Rússia, bem como as rotas marítimas
estratégicas que se abrem devido ao degelo. A maioria menciona os vastos
depósitos de minerais críticos da Gronelândia, essenciais para os veículos elétricos
e para as energias renováveis.
Mas não examinam as forças que podem estar realmente a
impulsionar a agenda dos minerais: os multimilionários da tecnologia como Peter Thiel e Elon Musk, que veem a Gronelândia não
apenas como uma fonte de terras raras, mas como um laboratório para
as suas experiências económicas e sociais libertárias. Estes multimilionários da tecnologia vislumbram
"cidades da liberdade" não regulamentadas na Gronelândia, livres da
supervisão democrática, das leis ambientais e das proteções laborais.
Ken
Howery, embaixador de Trump na Dinamarca e cofundador do PayPal com Thiel e
Musk, estaria em negociações para estabelecer estas zonas de baixa
regulamentação.
Há aqui um irónico conflito de interesses: o establishment
de segurança nacional quer um forte controlo estatal sobre um território
estratégico. Os multimilionários da tecnologia que financiam Trump querem o
oposto: um terreno baldio desregulado para as suas experiências
anarcocapitalistas. Ambos partilham uma cegueira comum relativamente à
soberania da Gronelândia e aos direitos dos povos indígenas.
É profundamente perturbador a forma como a crise climática
está a ser reformulada como uma oportunidade. A camada de gelo da Gronelândia
está a derreter mais rapidamente devido ao aumento das temperaturas. Os
groenlandeses indígenas estão a ver o seu modo de vida tradicional desaparecer
à medida que o gelo derrete.
Os 56 000 groenlandeses, dos quais 89% são indígenas inuit,
deixaram clara a sua posição: 85% opõem-se à anexação aos EUA. As últimas
eleições parlamentares deram a vitória aos partidos que rejeitam abertamente as
propostas de Trump. Mas isso não transparece na forma como Washington fala da
Gronelândia. As suas vozes são quase inaudíveis em todas estas discussões sobre
anexação. Ao mesmo tempo, a maioria dos americanos opõe-se à ideia de comprar
ou invadir a Gronelândia.
A Casa Branca está a tentar de tudo para conseguir o que
quer. As autoridades norte-americanas discutiram o pagamento de uma quantia
única, entre 10 000 e 100 000 dólares, a cada groenlandês, numa tentativa de
comprar a aprovação de uma população que continua a rejeitar o acordo.
A Casa Branca está também a tentar assinar um Pacto de Livre
Associação (COFA) com a Gronelândia. Neste acordo, os EUA apenas prestariam
serviços de entrega de correio e operações de proteção militar em troca da
liberdade de atuação das forças armadas americanas e do comércio livre de
impostos.
Acordos semelhantes já existem com ilhas como Palau, Ilhas
Marshall e Micronésia. No entanto, é improvável que este arranjo seja
bem-sucedido com a Gronelândia. Já foram assinados acordos COFA com países
independentes, e a Gronelândia precisaria de se separar da Dinamarca para que
um plano deste tipo fosse implementado.
Riscos para os Estados Unidos
Esta crise vai muito para além da Gronelândia. Trata-se de
que tipo de país os Estados Unidos querem ser e de como irão liderar no palco
mundial. Os EUA liderarão através de parcerias e benefícios mútuos ou através
de ameaças e coação? Será que Washington respeita a autodeterminação (um
princípio que afirmamos defender) ou apenas quando lhe convém?
Esta obsessão pela anexação reduz tudo a uma mera disputa de
recursos. Falta completamente o reconhecimento da Gronelândia como o lar de um
povo com os seus próprios sonhos, direitos e esperanças para o futuro.
O presidente Trump prometeu acabar com as guerras
intermináveis e enfrentar o establishment da política externa. Mas estas
ameaças em relação à Gronelândia demonstram a mesma mentalidade de sempre de
que a força faz o direito e que a independência de outros países só importa
quando serve os nossos interesses aparentes. Os verdadeiros interesses dos
Estados Unidos não estão em reavivar o imperialismo, mas em demonstrar que a
parceria e o benefício mútuo oferecem um caminho melhor do que o unilateralismo
agressivo.
Pavel Devyatkin



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