“O livro que o Facebook não quer que ninguém leia” já chegou às livrarias nacionais
Sarah
Wynn-Williams, antiga executiva da empresa, foi impedida de promover “Gente
Pouco Recomendável”. A obra promete revelações chocantes sobre a direção da
rede social
Após o nascimento do seu segundo filho, Sarah Wynn-Williams,
então diretora de Políticas Públicas Globais do Facebook, sofreu uma hemorragia
quase fatal que a deixou em coma numa unidade de cuidados intensivos (UCI).
Ainda durante o parto, terá sido pressionada a responder a emails urgentes
da equipa, sob uma ética de trabalho brutal, que não tolerava pausas, mesmo
em momentos de extrema vulnerabilidade física e emocional.
Mais tarde, Joel Kaplan, na altura seu chefe direto, nomeado
diretor de Relações Globais na Meta em janeiro de 2025, deu-lhe uma avaliação
de desempenho negativa porque Wynn-Williams “não respondeu” aos seus emails nem
mensagens de texto enquanto estava a morrer na UCI. Este episódio,
particularmente revelador da cultura implacável do Facebook, é apenas uma das
revelações chocantes feitas pela neozelandesa em “Gente Pouco Recomendável”,
que chega esta quarta-feira, 21 de janeiro, às livrarias nacionais, editado
pela Presença.
O livro de memórias da ex-diplomata, que trabalhou no
Facebook entre 2011 e 2017, foi originalmente lançado a 11 de março de 2025,
pela Macmillan, envolto em polémica. Após a publicação, a Meta (empresa que
detém a rede social) conseguiu travar a sua promoção graças a uma ação arbitral
que moveu contra a autora, alegando que viola a cláusula
de não difamação que
Wynn-Williams assinou como parte do acordo de rescisão quando foi despedida
(por “desempenho insuficiente” após denúncias de assédio “sem fundamento”).
A tentativa de supressão teve o efeito contrário e ajudou a
impulsionar a obra para as listas de mais vendidos da Amazon e do The New
York Times. O jornal anunciou “Careless People” (o título original) como “o
livro que o Facebook não quer que ninguém leia” e descreveu a narrativa como
“sombriamente engraçada e genuinamente chocante”. Apesar de ter atingido o
estatuto de bestseller, a autora permanece sob o silêncio imposto pela ordem
judicial.
Ao longo de mais de 350 páginas, Wynn-Williams denuncia uma cultura empresarial tóxica, marcada pela
misoginia, pelo assédio e decisões éticas duvidosas. E desenha “um retrato
profundo e implacável” sobre o papel que as redes sociais assumiram nas nossas
vidas, expondo “a corrupção moral dos líderes do Facebook”, — sobretudo Mark
Zuckerberg, Sheryl Sandberg (antiga COO, atualmente membro do conselho de
administração) e Joel Kaplan.
Segundo a advogada neozelandesa, com 47 anos, “à medida que
acumulavam mais poder, menos responsáveis se tornavam”, apontando a ausência
de reflexão sobre as consequências destes comportamentos para todos nós.
Wynn-Williams pinta Mark Zuckerberg como uma
figura distante e presunçosa, quase um adolescente mimado no corpo de um CEO.
Descreve-o a forçar vitórias em jogos de “Catan” com uma competitividade
infantil, ignorando regras sociais básicas, e a negociar com regimes
autoritários como a China com uma ingenuidade perigosa, dando prioridade ao
crescimento da empresa e relegando considerações éticas para segundo plano.
Já a imagem que dá de Sheryl
Sandberg é ainda mais
contraditória: considerada um ícone feminista aos olhos do mundo (sobretudo
devido ao seu livro “Lean In”, onde incentiva as mulheres a assumirem cargos de
liderança), exerce
o seu poder recorrendo a gestos desconfortáveis, como convites ambíguos em
jatos privados e promovendo uma
cultura de favoritismo que perpetua a misoginia no seio da empresa.
Wynn-Williams revela ainda ter presenciado episódios de racismo sob a sua
liderança, como comentários depreciativos sobre filipinos, e acusa-a de
passividade perante abusos de que tinha conhecimento.
A forma como representa a dupla Zuckerberg/Sandberg remete
para o casal protagonista de “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald,
considerada uma obra-prima da literatura mundial. Daisy e Tom Buchanan são
descritos como “pessoas superficiais e egocêntricas”, que não olham às
consequências dos seus atos. O título, “Careless People”, é, aliás, inspirado
numa das frases mais famosas de “O Grande Gatsby”, — usada em epígrafe.
“Tom e Daisy eram gente pouco recomendável (‘careless
people’, no original), que destruíam coisas e pessoas, e depois se refugiavam
no seu dinheiro ou na sua imensa negligência, enquanto deixavam que outros
limpassem a confusão que tinham arranjado.”
Os defensores do livro de Wynn-Williams elogiam “a exposição
do poder descontrolado, das viagens com líderes mundiais, ao risco de prisão em
negociações internacionais, a uma hierarquia onde o mérito é sufocado por
lealdades pessoais”. Por outro lado, os críticos apontam o dedo à sua “falta de
autoanálise e ao papel que desempenhou nas políticas da empresa durante sete
anos”. A autora justifica a sua longa permanência no Facebook com a necessidade
de ter seguro de saúde, sustento familiar, e dependência do contrato de
trabalho para validar a sua estadia legal nos Estados Unidos.
“Gente Pouco Recomendável: Uma história real sobre poder,
ganância e idealismo perdido”, de Sarah Wynn-Williams, conta com 352 páginas e,
atualmente, está disponível online por 18,81€, graças ao desconto de lançamento
de 10 por cento. O preço de capa habitual é 20,90€.
Fonte: NiT, 21 de janeiro
de 2026

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